Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 19

O matrimônio indissolúvel. Louvor dos que por amor de Deus observam o celibato. Jesus impondo as mãos aos meninos. Aconselha a pobreza a um rico, e êste se entristece. Embaraço que as riquezas fazem à salvação. Prêmio dos que tudo deixam por Cristo.

1E aconteceu que tendo Jesus acabado êstes discursos, partiu de Galiléia, e veio para os confins da Judéia, além do Jordão.

2E seguiram-no muitas gentes, e curou ali os enfermos.

3E chegaram-se a êle os fariseus tentando-o, e dizendo: É porventura lícito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer coisa?

4Êle respondendo, lhes disse: Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio, fê-los macho, e fêmea? e disse:[1]O HOMEMIsto é, a criatura humana. Esta palavra refere-se à espécie, e não ao indivíduo. Êste é o sentido de hebreus donde Jesus Cristo fez a citação Gên 1, 27.

5Por isso deixará o homem pai e mãe, e ajuntar-se-á com sua mulher, e serão dois numa só carne:

6Assim que já não são dois, mas uma só carne: Não separe logo o homem o que Deus ajuntou.

7Replicaram-lhe êles: Pois por que mandou Moisés dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudiá-la?

8Respondeu-lhes: Porque Moisés, pela dureza de vossos corações, vos permitiu repudiar a vossas mulheres: Mas ao princípio não foi assim.[2]PERMITIUNão vo-lo mandou Moisés, como vós dizeis, mas só o permitiu, à vista da vossa obstinação, e dureza, e prevendo maiores males, se vo-lo não permitia.

MAS AO PRINCÍPIO NÃO FOI ASSIM — Porque Adão e Eva foram de tal maneira criados um por causa do outro, e unidos tão estreitamente por disposição do seu Criador, que a sua união devia ser inseparável, e o modelo do laço indissolúvel dos matrimônios dos seus descendentes.

9Eu pois vos declaro que todo aquele que repudiar sua mulher, se não é por causa de adultério, e casar com outra, comete adultério: E o que se casar com a que outro repudiou, comete adultério.[3]SE NÃO É POR CAUSA DE ADULTÉRIOJesus Cristo, visto os costumes e legislação então vigentes, permite ao marido, em caso de adultério, que se separe da mulher, mas proíbe-lhe expressamente que vá esposar outra, sendo a primeira viva: de maneira que, dado o adultério, permite-se a separação da pessoa e bens, quoad thorum et habitationem, condena-se, porém, o divórcio. Em Mc 10, 11, e principalmente em Lc 16, 18, confirma-se esta proposição, e teremos ocasião de voltar ao assunto.

10Disseram-lhe seus discípulos: Se tal é a condição de um homem a respeito de sua mulher, não convém casar-se.

11Ao que êle respondeu: Nem todos são capazes desta resolução, mas somente aqueles a quem isto foi dado.

12Porque há uns castrados, que nasceram assim do ventre de sua mãe; e há outros castrados, a quem outros homens fizeram tais: E há outros castrados que a si mesmos se castraram por amor do reino dos Céus. O que é capaz de compreender isto, compreenda-o.[4]O QUE É CAPAZ DE COMPREENDERNão o foi Orígenes no terceiro século, que entendendo à letra êste texto, êle mesmo se castrou, cuidando que assim observava o Evangelho, como refere Eusébio na sua História Eclesiástica, Livro 6, cap. 8. Mas não foi antes de Orígenes outro cristão, de quem escreve S. Justino Mártir na Apologia 2, que pedira licença ao governador Félix para os cirurgiões o castrarem, não obstante a proibição das leis romanas. Porém a Igreja católica sempre entendeu esta castração, não no sentido material, mas sim no espiritual: que consiste em vivermos em carne, como se não fôssemos de carne, renunciando a todos os bens e prazeres terrenos.

13Então lhe foram apresentados vários meninos, para lhes impor as mãos e fazer oração por êles. E os discípulos os repeliam com palavras ásperas.

14Mas Jesus lhes disse: Deixai os meninos e não embaraceis que êles venham a mim, porque dêstes tais é o reino dos Céus.

15E depois que lhes impôs as mãos, partiu dali.

16E eis que chegando-se a êle um, lhe disse: Bom Mestre, que obras boas devo eu fazer para alcançar a vida eterna?

17Jesus lhe respondeu: Porque me perguntas tu o que é bom? Bom só Deus o é. Porém se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos.

18Êle lhe perguntou: Quais? e Jesus lhe disse: Não cometerás homicídio: Não adulterarás: Não cometerás furto: Não dirás falso testemunho:

19Honra teu pai e a tua mãe, e amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

20O mancebo lhe disse: Eu tenho guardado tudo isso desde a minha mocidade; que é o que me falta ainda?

21Jesus lhe respondeu: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu: Depois vem, e segue-me.

22O mancebo porém, como ouviu esta palavra, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.

23E Jesus disse a seus discípulos: Em verdade vos digo, que um rico dificultosamente entrará no reino dos Céus.

24Ainda vos digo mais: Que mais fácil é passar um camelo pelo fundo duma agulha, do que entrar um rico no reino dos Céus.[5]DO QUE ENTRAR UM RICO NO REINO DOS CÉUSIsto é um ditado, rifão vulgar entre os judeus e os árabes, para designar a dificuldade de conseguir qualquer coisa. Jesus Cristo quer exprimir a nímia dificuldade que tem o rico, que viva apegado às suas riquezas e prazeres, cuidando só destes, com menospêzo dos seus irmãos, de se salvar.

25Ora, os discípulos, ouvidas estas palavras, conceberam grande espanto, dizendo: Quem poderá logo salvar-se?

26Porém Jesus olhando para êles, disse: Aos homens é isto impossível: Mas a Deus tudo é possível.

27Então respondendo Pedro, lhe disse: Eis aqui estamos nós que deixamos tudo e te seguimos: Que galardão pois será o nosso?[6]QUE DEIXAMOS TUDONão tendo Pedro deixado senão o seu barco, e as suas rêdes, diz resolutamente a Cristo, que deixará tudo; porque, como adverte Santo Agostinho escrevendo a Paulino, com efeito tudo despreza aquele que despreza a posse não só de tudo quanto podia ter, mas também de tudo o que queria ter — Duhamel.

28E Jesus lhes disse: Em verdade vos afirmo que vós, quando no dia da regeneração estiver o Filho do homem sentado no Trono da sua Glória, vós, torno a dizer, que me seguistes, também estareis sentados sôbre doze tronos, e julgareis as doze Tribos de Israel.[7]NO DIA DA REGENERAÇÃONo dia do Juízo. — Pereira.

29E todo o que deixar por amor do meu Nome a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a mãe, ou a mulher, ou os filhos, ou as fazendas, receberá cento por um, e possuirá a vida eterna.

30Porém muitos primeiros virão a ser os últimos, e muitos últimos virão a ser os primeiros.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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