Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Vinda e pregação do Batista no deserto. Repreensão que dá aos fariseus, e saduceus. Diferença entre o seu batismo, e o de Jesus Cristo. Desce o Espírito Santo sôbre Jesus Cristo depois de João o batizar. O Eterno Pai o aclama seu filho muito amado.

1Naqueles dias pois veio João Batista pregando no deserto da Judéia,[1]Naqueles diasNAQUELES DIAS — Isto é, no tempo de Cristo, no ano 781-782 de Roma, 15 Tib. 28 da Era Cristã.

JOÃO BATISTA — João, em hebraico Yohanam, Iahveh dá graça, apelidado o Batista, porque batizava no Jordão, era da tribo sacerdotal, filho de Zacarias e de Isabel, prima da Virgem. Lc 1, 5-80. Destinado pela Providência para ser o Precursor do Messias, preparou-se para a sua missão, por uma vida rude e austera. Morreu mártir de seu zêlo em defender a pureza dos costumes.

DESERTO DA JUDÉIA — Assim chamado, não que fôsse estéril e sem pastagens, mas porque era desabitado; é a região que fica a oeste do Mar Morto.

2e dizendo: Fazei penitência: Porque está próximo o reino dos Céus.[2]o reino dos CéusREINO DOS CÉUS — A sociedade nova que o Messias vinha fundar sôbre a terra, é o grande reino predito por Daniel; reino sempre combatido e sempre triunfante.

3Porque este é de quem falou o profeta Isaías, dizendo: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor: Endireitai as suas veredas.

4Ora o mesmo João tinha um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em roda dos seus rins: E a sua comida eram gafanhotos, e mel silvestre.[3]gafanhotos, e mel silvestreERAM GAFANHOTOS — Entre os hebreus não se reputavam os gafanhotos alimento imundo, como se colhe do Lev 11, 22. E fora da Palestina, escreve Plínio no livro VI, cap. 30, e no livro VII, cap. 2, que a gente pobre os comia temperados com sal, e secos ao fumo. Calmet. — Ainda dêstes últimos séculos atesta o nosso Barros na Década 2, livro 3, cap. 4.°, ser esta conserva dos gafanhotos um prato delicioso entre os mouros da Índia.

MEL SILVESTRE — É muito abundante no deserto da Judéia.

5Então vinha a êle Jerusalém, e tôda a Judéia, e tôda a terra da comarca do Jordão.

6E confessando os seus pecados, eram por êle batizados no Jordão.

7Mas vendo que muitos dos fariseus, e dos saduceus vinham ao seu batismo, lhes disse: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?[4]Raça de víborasFARISEUS — No tempo de Cristo a sociedade judaica estava dividida em duas poderosas facções — fariseus e saduceus. Os primeiros constituíam o partido conservador, os últimos o avançado. Aquêles prendiam-se em extremo à letra da lei, e procuravam observar escrupulosamente todas as antigas tradições, e faziam consistir a religião nesse respeito e nas práticas exteriores, seguidas à risca, com o máximo cuidado, pregavam mais do que praticavam e procuravam fazer proselitismo. Os saduceus, assim chamados de Sadoc, discípulo de Antígono de Soche, sectário de Simão o Justo, o último membro da grande Sinagoga, estavam em oposição com os fariseus. Eram demolidores das antigas tradições, a que não prestavam importância, negavam a ressurreição dos mortos, a existência dos Anjos; nas fileiras dos saduceus tinham lugar os representantes da aristocracia judaica, que dava a êste partido grande importância.

8Fazei pois dignos frutos de penitência.

9E não queirais dizer dentro de vós mesmos: Nós temos por pai a Abraão: porque eu vos digo que poderoso é Deus para fazer que nasçam destas pedras filhos a Abraão.

10Porque já o machado está pôsto à raiz das árvores. Tôda a árvore pois que não dá bom fruto, será cortada, e lançada no fogo.

11Eu na verdade vos batizo em água para vos trazer à penitência: Porém o que há de vir depois de mim, é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de lhe ministrar o calçado: êle vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.[5]no Espírito Santo, e em fogoNO ESPÍRITO SANTO E EM FOGO — O Salvador deve mergulhar as almas nas chamas ardentes que as purificam doutro modo que as águas do Jordão. Por êste fogo entendem os intérpretes as comunicações do Espírito Santo e a infusão da Graça pelos Sacramentos.

12A sua pá na sua mão se acha: e êle limpará muito bem a sua eira: E recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará as palhas num fogo, que jamais se apagará.

13Então veio Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João, para ser batizado por êle.

14Porém João o impedia, dizendo: Eu sou o que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?

15E respondendo Jesus, lhe disse: Deixa por ora: Porque assim nos convém cumprir tôda a justiça. Êle então o deixou.[6]tôda a justiçaTÔDA A JUSTIÇA — Jesus Cristo nesta passagem ensina ao Precursor a regular a sua conduta, não atendendo à dignidade de quem solicita o batismo, mas em obediência aos desígnios do Céu. Mostra-lhe o que a ambos é conveniente e o que mais útil é ao seu ministério, dando ao mesmo tempo uma grande lição de virtude, sobretudo da humildade, da penitência e da submissão. Por esta mesma razão quis o Filho de Deus antes de iniciar a sua pregação, ser batizado publicamente no meio dos pecadores que confessam as suas culpas, e pela mão dum homem que só tinha a superioridade de idade; humanamente falando. Resolvido a expiar os pecados dos homens na cruz, começou por aceitar êste encargo, e assume publicamente a responsabilidade diante de Deus. Tôda a justiça significa pois virtude plena e perfeita.

16E depois que Jesus foi batizado, saiu logo para fora da água: e eis-que se lhe abriram os céus: e viu ao Espírito de Deus, que descia como pomba, e que vinha sôbre êle.[7]que vinha sôbre êleE QUE VINHA SÔBRE ÊLE — Não sòmente o Salvador, senão também S. João e todos os judeus que o acompanhavam viram a figura de uma pomba, na qual o Espírito Santo desceu do Céu, e descansou sôbre a cabeça de Jesus Cristo. O Espírito Santo apareceu nesta figura, porque, como diz S. João Crisóstomo, sendo a pomba doce e pura, quis aquêle divino espírito, que o é de doçura, de pureza e de paz, eleger esta forma, que representava de alguma maneira o que êle é, e o que devem ser aquêles sôbre os quais desce pelo batismo. O mistério da Trindade, como observa S. Jerônimo, se descobre no batismo de Jesus Cristo: o Filho, que é o mesmo batizado; o Espírito Santo, que desce sôbre êle, em figura de pomba; e a voz do Padre, que dá um ilustre testemunho da pessoa de seu Filho.

17E eis uma voz dos céus, que dizia: Êste é meu filho amado, no qual tenho pôsto toda a minha complacência.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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