Capítulo 3
1Naqueles dias pois veio João Batista pregando no deserto da Judéia,[1]Naqueles dias — NAQUELES DIAS — Isto é, no tempo de Cristo, no ano 781-782 de Roma, 15 Tib. 28 da Era Cristã.
JOÃO BATISTA — João, em hebraico Yohanam, Iahveh dá graça, apelidado o Batista, porque batizava no Jordão, era da tribo sacerdotal, filho de Zacarias e de Isabel, prima da Virgem. Lc 1, 5-80. Destinado pela Providência para ser o Precursor do Messias, preparou-se para a sua missão, por uma vida rude e austera. Morreu mártir de seu zêlo em defender a pureza dos costumes.
DESERTO DA JUDÉIA — Assim chamado, não que fôsse estéril e sem pastagens, mas porque era desabitado; é a região que fica a oeste do Mar Morto.
2e dizendo: Fazei penitência: Porque está próximo o reino dos Céus.[2]o reino dos Céus — REINO DOS CÉUS — A sociedade nova que o Messias vinha fundar sôbre a terra, é o grande reino predito por Daniel; reino sempre combatido e sempre triunfante.
3Porque este é de quem falou o profeta Isaías, dizendo: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor: Endireitai as suas veredas.
4Ora o mesmo João tinha um vestido de peles de camelo, e uma cinta de couro em roda dos seus rins: E a sua comida eram gafanhotos, e mel silvestre.[3]gafanhotos, e mel silvestre — ERAM GAFANHOTOS — Entre os hebreus não se reputavam os gafanhotos alimento imundo, como se colhe do Lev 11, 22. E fora da Palestina, escreve Plínio no livro VI, cap. 30, e no livro VII, cap. 2, que a gente pobre os comia temperados com sal, e secos ao fumo. Calmet. — Ainda dêstes últimos séculos atesta o nosso Barros na Década 2, livro 3, cap. 4.°, ser esta conserva dos gafanhotos um prato delicioso entre os mouros da Índia.
MEL SILVESTRE — É muito abundante no deserto da Judéia.
5Então vinha a êle Jerusalém, e tôda a Judéia, e tôda a terra da comarca do Jordão.
6E confessando os seus pecados, eram por êle batizados no Jordão.
7Mas vendo que muitos dos fariseus, e dos saduceus vinham ao seu batismo, lhes disse: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?[4]Raça de víboras — FARISEUS — No tempo de Cristo a sociedade judaica estava dividida em duas poderosas facções — fariseus e saduceus. Os primeiros constituíam o partido conservador, os últimos o avançado. Aquêles prendiam-se em extremo à letra da lei, e procuravam observar escrupulosamente todas as antigas tradições, e faziam consistir a religião nesse respeito e nas práticas exteriores, seguidas à risca, com o máximo cuidado, pregavam mais do que praticavam e procuravam fazer proselitismo. Os saduceus, assim chamados de Sadoc, discípulo de Antígono de Soche, sectário de Simão o Justo, o último membro da grande Sinagoga, estavam em oposição com os fariseus. Eram demolidores das antigas tradições, a que não prestavam importância, negavam a ressurreição dos mortos, a existência dos Anjos; nas fileiras dos saduceus tinham lugar os representantes da aristocracia judaica, que dava a êste partido grande importância.
8Fazei pois dignos frutos de penitência.
9E não queirais dizer dentro de vós mesmos: Nós temos por pai a Abraão: porque eu vos digo que poderoso é Deus para fazer que nasçam destas pedras filhos a Abraão.
10Porque já o machado está pôsto à raiz das árvores. Tôda a árvore pois que não dá bom fruto, será cortada, e lançada no fogo.
11Eu na verdade vos batizo em água para vos trazer à penitência: Porém o que há de vir depois de mim, é mais poderoso do que eu, e eu não sou digno de lhe ministrar o calçado: êle vos batizará no Espírito Santo, e em fogo.[5]no Espírito Santo, e em fogo — NO ESPÍRITO SANTO E EM FOGO — O Salvador deve mergulhar as almas nas chamas ardentes que as purificam doutro modo que as águas do Jordão. Por êste fogo entendem os intérpretes as comunicações do Espírito Santo e a infusão da Graça pelos Sacramentos.
12A sua pá na sua mão se acha: e êle limpará muito bem a sua eira: E recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará as palhas num fogo, que jamais se apagará.
13Então veio Jesus da Galiléia ao Jordão ter com João, para ser batizado por êle.
14Porém João o impedia, dizendo: Eu sou o que devo ser batizado por ti, e tu vens a mim?
15E respondendo Jesus, lhe disse: Deixa por ora: Porque assim nos convém cumprir tôda a justiça. Êle então o deixou.[6]tôda a justiça — TÔDA A JUSTIÇA — Jesus Cristo nesta passagem ensina ao Precursor a regular a sua conduta, não atendendo à dignidade de quem solicita o batismo, mas em obediência aos desígnios do Céu. Mostra-lhe o que a ambos é conveniente e o que mais útil é ao seu ministério, dando ao mesmo tempo uma grande lição de virtude, sobretudo da humildade, da penitência e da submissão. Por esta mesma razão quis o Filho de Deus antes de iniciar a sua pregação, ser batizado publicamente no meio dos pecadores que confessam as suas culpas, e pela mão dum homem que só tinha a superioridade de idade; humanamente falando. Resolvido a expiar os pecados dos homens na cruz, começou por aceitar êste encargo, e assume publicamente a responsabilidade diante de Deus. Tôda a justiça significa pois virtude plena e perfeita.
16E depois que Jesus foi batizado, saiu logo para fora da água: e eis-que se lhe abriram os céus: e viu ao Espírito de Deus, que descia como pomba, e que vinha sôbre êle.[7]que vinha sôbre êle — E QUE VINHA SÔBRE ÊLE — Não sòmente o Salvador, senão também S. João e todos os judeus que o acompanhavam viram a figura de uma pomba, na qual o Espírito Santo desceu do Céu, e descansou sôbre a cabeça de Jesus Cristo. O Espírito Santo apareceu nesta figura, porque, como diz S. João Crisóstomo, sendo a pomba doce e pura, quis aquêle divino espírito, que o é de doçura, de pureza e de paz, eleger esta forma, que representava de alguma maneira o que êle é, e o que devem ser aquêles sôbre os quais desce pelo batismo. O mistério da Trindade, como observa S. Jerônimo, se descobre no batismo de Jesus Cristo: o Filho, que é o mesmo batizado; o Espírito Santo, que desce sôbre êle, em figura de pomba; e a voz do Padre, que dá um ilustre testemunho da pessoa de seu Filho.
17E eis uma voz dos céus, que dizia: Êste é meu filho amado, no qual tenho pôsto toda a minha complacência.