Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Defende Jesus Cristo seus discípulos, que haviam colhido umas espigas em dia de sábado. Cura o que tinha uma das mãos ressecada. Manda a outros muitos que curou, que o não digam por ora. Convence a calúnia dos fariseus, que atribuíam a Belzebu a liberdade que êle dera a um possesso. Declara ser irremissível o pecado contra o Espírito Santo. Diz que se há de dar conta de tôda a palavra ociosa. Não mostra aos judeus outro prodígio, que o do profeta Jonas. Declara por sua mãe, e por seus irmãos, todos os que fazem a vontade de seu Eterno Pai.

1Naquele tempo, num dia de sábado, saiu Jesus caminhando ao longo dos pães: E seus discípulos, que tinham fome, começaram a colhêr espigas, e a comer delas.

2E vendo isto os fariseus, lhe disseram: Eis-aí estão fazendo os teus discípulos o que não é permitido fazer nos sábados.

3Porém êle lhes disse: Não tendes lido o que fêz Davi, quando êle teve fome, e os que com êle estavam:

4Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, os quais não era lícito comer, nem a êle, nem aos que com êle estavam, mas unicamente aos sacerdotes?[1]Os pães da proposiçãoPelo cap. 24 do Levítico mandava Deus que sôbre o altar do templo se conservassem sempre doze pães, muito grandes, que todos os sábados se reformavam, e eram só para os sacerdotes. Chamavam-se pães da proposição, porque sempre estavam diante de Deus.

5Ou não tendes lido na lei, que os sacerdotes nos sábados no templo quebrantam o sábado, e ficam sem pecado?

6Pois digo-vos, que aqui está o que é maior que o templo.

7E se vós soubésseis o que é: Misericórdia quero, e não sacrifício, jamais condenarieis aos inocentes:

8Porque o Filho do homem é Senhor até do sábado mesmo.

9E depois de partir dali, veio à sinagoga dêles.

10E eis-que aparece um homem, que tinha ressecada uma das mãos, e êles, para terem de que o argúir, lhe fizeram esta pergunta, dizendo: É porventura lícito curar nos sábados?

11E êle lhes disse: Que homem haverá por acaso entre nós, que tenha uma ovelha, e que se esta lhe cair no sábado em uma cova, não lhe lance a mão para dali a tirar?

12Ora quanto mais excelente é um homem, do que uma ovelha? Logo é lícito fazer bem nos dias de sábado.

13Então disse para o homem: Estende a tua mão. E êle a estendeu, e lhe foi restituída sã como a outra.

14Mas os fariseus saindo dali, consultavam contra êle, como o fariam morrer.

15E Jesus sabendo-o, se retirou daquele lugar, e foram muitos após êle, e os curou a todos:

16E lhes pôs preceito, que não descobrissem quem êle era.

17Para que se cumprisse o que foi anunciado pelo profeta Isaías, que diz:[2]Pelo Profeta IsaíasCap. 42, 1, cujo texto, ainda segundo a letra, pertence a Jesus Cristo.

18Eis-aqui o meu servo, que eu escolhi, o meu amado, em quem a minha alma tem pôsto a sua complacência. Porei o meu espírito sôbre êle, e êle anunciará às gentes a justiça.

19Não contenderá, nem clamará, nem ouvirá algum a sua voz nas praças:

20Não quebrará a cana, que está deprimida, nem apagará a torcida que fumega, até que saia vitoriosa a sua justiça.

21E as gentes esperarão no seu nome.

22Então lhe trouxeram um endemoninhado cego, e mudo, e êle o curou, de sorte que falava, e via.

23E ficaram pasmadas tôdas as gentes, e diziam: Porventura é êste o filho de Davi?

24Mas os fariseus ouvindo isto diziam: Êste não lança fora os demônios, senão em virtude de Belzebu, príncipe dos demônios.[3]BelzebuNome dum ídolo dos filisteus. Os judeus davam este nome ao demônio.

25E Jesus sabendo os pensamentos dêles, lhes disse: Todo o reino dividido contra si mesmo, será desolado: E tôda a cidade, ou casa dividida contra si mesma, não subsistirá.

26Ora se satanás lança fora a satanás, está êle dividido contra si mesmo: Como persistirá logo o seu reino?

27E se eu lanço fora os demônios em virtude de Belzebu, em virtude de quem os expelem vossos filhos? Por isso é que êles serão os vossos juízes.

28Se eu porém lanço fora os demônios pela virtude do espírito de Deus, logo é chegado a vós o Reino de Deus:

29Ou como pode alguém entrar na casa do valente e saquear os seus móveis, se antes não prender o valente? e então lhe saqueará a casa.

30O que não é comigo, é contra mim: E o que não ajunta comigo, dispersa.[4]DispersaJesus Cristo fala aqui dos fariseus, que se opunham à pregação da Boa Nova.

31Portanto vos digo: Todo o pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, porém a blasfêmia contra o Espírito Santo não lhes será perdoada.[5]Porém a blasfêmia contra o Espírito SantoQual seja porém a blasfêmia contra o Espírito Santo, que Jesus Cristo aqui declara ser irremissível? diz Santo Agostinho, no sermão 71, que é talvez a maior dificuldade que se encontra em tôda a Escritura: Forte in omnibus Escripturis nulla maior quaestio, nulla difficilior invenitur. Êle se inclina, neste e noutros lugares, a que êste pecado contra o Espírito Santo se deve entender da Impenitência final junta com a desesperação da misericórdia divina. Porém Santo Atanásio na epístola 4, a Serapião, e S. Jerônimo na epístola 149, a Marcela, entendem que é o pecado com que as obras visivelmente do Espírito Santo se atribuem ao demônio, como os judeus atribuíam ao poder de Belzebu os milagres de Cristo. Desta matéria é digna de se ler a dissertação de Calmet, De peccato in Spiritum Sanctum: e as notas de Tomasi, e Vezzosi ao livro 3, dos testemunhos de S. Cipriano, cap. 28. Glaire nesta segunda interpretação o dizer-se que a blasfêmia contra o Espírito Santo não se há-de perdoar nem neste século, nem no futuro, não é dizer que se não pode perdoar, mas sim que é muito dificultoso perdoar-se, porque também é dificultosíssimo arrepender-se o pecador da sua obstinação.

32E todo o que disser alguma palavra contra o Filho do homem, perdoar-se-lhe-á: Porém o que a disser contra o Espírito Santo, não se lhe perdoará, nem neste mundo, nem no outro.[6]Nem neste mundoDaqui tira Santo Agostinho, no livro 21 da Cidade de Deus, cap. 24, e S. Gregório, no livro 4 dos Diálogos, cap. 39, um bom argumento da existência do purgatório. Porque não diria Cristo, que o pecado contra o Espírito Santo não se perdoava nem neste mundo, nem no outro, se não supusesse que alguns pecados se perdoavam no outro mundo.

33Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom: Ou fazei a árvore má e o seu fruto mau: Pois que pelo fruto é que a árvore se conhece.

34Raça de víboras, como podeis falar coisas boas sendo maus? porque a bôca fala o de que está cheio o coração.

35O homem bom do bom tesouro tira boas coisas: Mas o homem mau do mau tesouro tira más coisas.

36E digo-vos, que tôda a palavra ociosa, que falarem os homens, darão conta dela no dia do Juízo.[7]Que tôda a palavra ociosaSe até de uma palavra ociosa hão de os homens dar conta a Deus no dia do Juízo, que será das palavras de murmuração, de calúnia, de desonestidade, de blasfêmia, e de heresia!

37Porque pelas tuas palavras serás justificado, e pelas tuas palavras serás condenado.

38Então lhe tornaram alguns dos escribas, e fariseus, dizendo: Mestre, nós quiséramos ver-te fazer algum prodígio.

39Êle lhes respondeu, dizendo: Esta geração má, e adúltera, pede um prodígio: Mas não lhe será dado outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas.

40Porque assim como Jonas estêve no ventre da baleia três dias, e três noites; assim estará o Filho do homem três dias, e três noites no coração da terra.

41Os habitantes de Nínive se levantarão no dia do Juízo com esta geração, e a condenarão: Porque fizeram penitência com a pregação de Jonas. E eis-aqui está neste lugar quem é mais do que Jonas.

42A rainha do meio-dia se levantará no dia do Juízo com esta geração, e a condenará: Porque veio lá das extremidades da terra a ouvir a sabedoria de Salomão e eis-aqui está neste lugar quem é mais do que Salomão.[8]Rainha do meio-diaA Rainha de Sabá, província da Arábia, situada no sul da Judéia.

43E quando o espírito imundo tem saído de um homem, anda por lugares secos, buscando repouso, e não o acha.

44E então diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E quando vem, a acha desocupada, varrida e ornada.

45Então vai e ajunta a si outros sete espíritos piores do que êle, e entrando habitam ali: E o último estado daquele homem fica sendo pior que o primeiro. Assim também acontecerá a esta geração péssima.

46Estando êle ainda falando ao povo, eis-que se achava da parte de fora sua mãe, e seus irmãos, que procuravam falar-lhe.[9]Seus irmãosEsta expressão tem dado ocasião aos racionalistas a formularem hipóteses infundadas sôbre a pessoa de Jesus Cristo, negando que fôsse unigênito. Infundadas dizemos pois esta expressão indica os primos ou parentes em geral, entre os hebreus e entre muitos outros povos da antiguidade, a palavra irmão tinha um sentido muito mais amplo. Assim no Gên 12, 8, Abraão e Ló são chamados irmãos, e contudo Ló era apenas sobrinho daquele (Gên 11, 27). Labão é igualmente dito irmão de Abraão, sendo neto de Nacor, que era irmão do patriarca. No livro de Tob 7, 4, Raquel chama irmão ao seu primo Tobias. Mas entre os demais povos era isto também freqüente. Em Quinto Curcio lê-se que Amintas é chamado irmão de Alexandre sendo aliás seu primo co-irmão. Sendo assim, o Evangelho podia chamar irmãos e irmãs de Jesus a pessoas remota ou proximamente aparentadas. E se assim fôsse como querem os antigos hereges, como Essênio e Helvídio, que pretenderam sustentar a existência de irmão de Cristo, como explicar que Maria nunca foi chamada mãe dêles? Jesus no alto da cruz, prestes a morrer, confia sua mãe aos cuidados de S. João (Jo 19, 26. 27) o que não faria se tivesse outros filhos, porque êstes tinham o dever natural de cuidar da mãe. Só Jesus é indicado filho de Maria, em oposição a quaisquer outros seus parentes (Mc 6, 3). Além disso êstes têm as suas mães indicadas nos Evangelhos. Mt 27, 56, cita, entre as mulheres presentes à crucifixão, outra Maria, mãe de Tiago e de José; S. Marcos diz a mesma cousa, 15, 40, e faz a distinção entre um Tiago e outro Tiago, filho de Zebedeu, com o sobrenome de minor, mikros. O primeiro dêstes é aquêle irmão do Senhor, a quem se refere S. Paulo, Gal 1, 19, e êste o Bispo de Jerusalém, autor duma epístola, que faz parte do Cânon do Novo Testamento. S. Judas, e no comêço da sua epístola, intitula-se irmão dêste Tiago. E assim temos que os chamados três Irmãos de Jesus, são Tiago, José, Judas, os quais têm uma mãe conhecida, outra Maria, que não é a mãe de Jesus. Esta Maria, mãe dêstes três, é aquela a quem se refere o Evangelho de S. João 19, 22, que é mulher do Cleofas. Êste Cleofas, nome que tem outra forma, Alfeu, era o pai do Tiago, que muitas vêzes é chamado o filho de Alfeu (Mt 10, 3; Mc 3, 18; Luc 6, 15; At 1, 13), de José e de Judas, e era cunhado de Maria, mãe de Jesus, porque sua mulher era irmã da mãe de Jesus. Simão é expressamente apresentado como filho de Cleofas por Hegésipo, o mais antigo historiador eclesiástico. De sorte que os quatro pretendidos irmãos de Jesus são apenas seus primos diretos, como entre nós se costuma dizer. Objetam que as duas irmãs não podiam usar o mesmo nome; é porém certo que nos últimos tempos sucedia isto entre os judeus e era vulgar entre os romanos. Entre outros exemplos basta citar as filhas de Otávia, irmã do Imperador Augusto, que eram contemporâneas de Jesus e que se chamavam duas Marcelas e duas Otávias. Diz-se ainda que, segundo S. Hilário, S. Epifânio, Teofilato e muitos outros autores, S. José tinha tido filhos duma outra mulher antes de seu casamento com a Virgem, e que são êstes os chamados irmãos de Jesus. Porém Orígenes diz que foi o Evangelho apócrifo de S. Pedro que originou esta falsa opinião, que não é abonada pela tradição.

47E um lhe disse: Olha que tua mãe, e teus irmãos estão ali fora, e te buscam.

48E êle respondendo ao que lhe falava, lhe disse: Quem é minha mãe, e quem são os meus irmãos?[10]Quem é minha mãeIsto não foi deprezar sua mãe: foi mostrar quanto êle estava despegado da carne, e sangue, e quanto nós o devemos estar no exercício do ministério Apostólico, que todo é espiritual. S. Jerônimo e S. Ambrósio.

49E estendendo a mão para seus discípulos, disse: Eis-ali minha mãe, e meus irmãos:[11]Eis-ali minha mãeÉ mãe de Jesus Cristo todo o que faz nascer na alma de qualquer próximo, ou com a sua pregação, ou com o seu bom exemplo. S. Ambrósio, S. Gregório, e S. Bernardo.

50Porque todo aquêle que fizer a vontade de meu Pai, que está nos Céus: Êsse é meu irmão, e irmã e mãe.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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