Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

A parábola dos trabalhadores mandados trabalhar na vinha em diversas horas. Os primeiros serão os últimos, e os últimos os primeiros. Prediz Jesus a sua morte e ressurreição. Ambição dos filhos de Zebedeu. Os que são maiores, devem ser os mais pequenos. A dominação é alheia do apostolado.

1O reino dos Céus é semelhante a um homem pai de família, que ao romper da manhã saiu a assalariar trabalhadores para a sua vinha.[1]O REINO DOS CÉUSEsta parábola é, no entender dos melhores intérpretes, a continuação do capítulo precedente, e explicação do último versículo em que Jesus afirma que os últimos serão os primeiros.

PAI DE FAMÍLIA — Quer Jesus Cristo significar Deus.

VINHA — Que Jesus simboliza a Santa Igreja.

2E feito com os trabalhadores o ajuste de um dinheiro por dia, mandou-os para a sua vinha.[2]DE UM DINHEIRO POR DIAEste pai de família é Deus: a vinha a sua Igreja, a praça o mundo, os trabalhadores ociosos são os homens antes da sua vocação, as diversas horas são os diversos tempos da vida, em que Deus os chama. O dinheiro é a glória que Deus dá em paga do trabalho. Temos pois desta parábola três coisas. Primeira, que as boas obras são meritórias da vida eterna. Segunda, que ainda que todos os Santos gozam substancialmente da mesma felicidade, vendo a Deus na sua mesma essência, uns contudo o vêem mais claramente do que outros, segundo a igualdade ou desigualdade dos merecimentos. Terceira, que para receber maior paga, e ver a Deus mais claramente, não se atende tanto à extensão, ou intenção do trabalho, como ao fervor da caridade que o acompanhou. E assim poderá bem ser, que uma Pelágia penitente de poucos anos goze de maior glória do que um anacoreta sepultado no deserto tôda a vida. Ameióte, Duhamel. Com S. João Crisóstomo na Homilia 68 sôbre S. Mateus. O dinheiro tinha dez anes, e cada ane valia quatro réis.

3E tendo saído junto da terceira hora, viu estarem outros na praça, ociosos.[3]TERCEIRA HORACorresponde às nove da manhã. Os Santos Padres têm apresentado interpretações diversas acêrca das diferentes horas a que o pai de família saía à praça; uns que estas horas querem significar as épocas diversas da história da humanidade, outros aos diferentes períodos da história do Cristianismo, outros apresentam a explicação mais comumente assente, que se refere às diferentes fases da vida do homem: na hora da terça quando a conversão se inicia no começo da vida; sexta, na idade adulta, nona, na velhice, e na undécima quando se opera à hora da morte. Esta hipótese é abonada e seguida por S. Agostinho, S. Jerônimo e quase todos os exegetas modernos. De fato uns seguem a Jesus desde o uso da razão, como S. João Berchmans, S. Estanislau de Kostka, S. Rosa de Viterbo, outros na adolescência, como Santa Teresa de Jesus, que nesse período de sua vida mais amou o seu Deus, como S. Inácio de Loiola, e sôbre todos S. Agostinho, cuja conversão tão admirável foi. E a quantos as desilusões da vida, os desenganos do mundo não lhes abrem na velhice os olhos que durante tôda a vida estiveram cerrados? E quantos também na hora da morte, recebem a graça da conversão, chorando todos os seus pecados, lastimando os seus erros, arrependendo-se da sua descrença? Está na memória de todos a conversão à hora da morte de Littré, o patriarca do positivismo.

4E disse-lhes: Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que fôr justo.

5E êles foram. Saiu portanto outra vez junto da hora sexta, e junto da nona: E fez o mesmo.

6E junto da undécima tornou a sair, e achou outros que lá estavam, e lhes disse: Por que estais vós aqui todo o dia ociosos?

7Responderam-lhe êles: Porque ninguém nos assalariou. Êle lhes disse: Ide vós também para a minha vinha.

8Porém lá no fim da tarde disse o senhor da vinha ao seu mordomo: Chama os trabalhadores, e paga-lhes o jornal, começando pelos últimos, e acabando nos primeiros.[4]COMEÇANDO PELOS ÚLTIMOSEsta frase está para confirmar o vers. 30 do capítulo anterior, e porque se quer significar o procedimento do pai de famílias, galardoando todos os que acorreram ao seu chamamento, ao qual deve corresponder o agradecimento da chamada. Quem sabe se são êstes últimos os que maior necessidade têm do auxílio do Senhor, e que por isso êste mais se compadece da sua fraqueza e da sua miséria?

9Tendo chegado pois os que foram junto da hora undécima, recebeu cada um seu dinheiro.

10E chegando também os que tinham ido primeiros, julgaram que haviam de receber mais: Porém êstes também não receberam mais do que um dinheiro cada um.

11E ao recebê-lo, murmuravam contra o pai de família,

12dizendo: Êstes que vieram últimos, não trabalharam senão uma hora, e tu os igualaste conosco, que aturamos o pêso do dia, e da calma.

13Porém êle respondendo a um dêles, lhe disse: Amigo, eu não te faço agravo; não convieste tu comigo num dinheiro?[5]EU NÃO TE FAÇO AGRAVONeste e nos dois versículos seguintes está a justificação do pai de famílias, porque relembra o que havia contratado, que fôra por ambos aceito, e que êle cumpre religiosamente o que prometera.

14Toma o que te pertence, e vai-te: Que eu de mim quero dar também a êste último tanto como a ti.[6]COMO A TIE assim tomou Jesus a parábola, do qual deduz a última conclusão no verso seguinte. Em resumo: Assim como o pai de famílias chamou obreiros para trabalharem em sua vinha a diversas horas e pagou a todos igualmente, assim Deus chama a muitos por modos diferentes e nas épocas mais diversas das suas vidas, dando a todos a salvação. E daqui se infere que nunca é lícito desesperar da conversão dum pecador, antes que sempre e sempre se deve pedir a Deus que o toque com a sua santíssima Graça. As lágrimas de Santa Mônica não obtiveram depois de tantos anos a conversão de S. Agostinho?

15Visto isso não me é lícito fazer o que quero? acaso o teu ôlho é mau, porque eu sou bom?

16Assim serão últimos os primeiros, e primeiros os últimos: Porque são muitos os chamados, e poucos os escolhidos.[7]PORQUE SÃO MUITOS OS CHAMADOS, E POUCOS OS ESCOLHIDOSTerrível sentença para temermos, e tremermos, ainda quando soubéssemos que só um dos homens se havia de perder, e são tantos os que não correspondem ao chamamento.

17E subindo Jesus a Jerusalém, tomou de parte os seus doze discípulos, e disse-lhes:

18Eis aqui vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, que o condenarão à morte.[8]O CONDENARÃO À MORTEJesus profetiza a sua própria condenação e a morte na cruz, v. 19.

19E entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido, e crucificado, mas ao terceiro dia ressurgirá.

20Então se chegou a êle a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos, adorando-o e pedindo-lhe alguma cousa.[9]A MÃE DOS FILHOS DE ZEBEDEUPor nome Salomé, que fiada no estreito parentesco que tinha com Maria e com Jesus, pedia para seus filhos as primeiras dignidades — Calmet.

21Êle lhe disse: Que queres? Respondeu ela: Dize que êstes meus dois filhos se assentem no teu reino, um à tua direita, e outro à tua esquerda.

22E respondendo Jesus, disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Disseram-lhe êles: Podemos.[10]NÃO SABEIS O QUE PEDISO Senhor faz ver aos seus discípulos, que o pensamento todo terreno que tinham era indigno do seu reino, e que não sabiam o que pediam. Vós outros me falais, lhes disse, de dignidades e coroas; e eu pelo contrário vos falo de combates, e de sofrimento. Não é aqui o lugar nem o tempo de recompensas, senão de perigos, de guerra, e morte. E assim verdadeiramente não sabiam o que pediam, porque não reconheciam que o reino de Jesus Cristo era todo espiritual, e todo diferente dos da terra, nem que o caminho para chegar aos seus primeiros postos, era diverso do que a êles se representava — S. João Crisóstomo.

23Êle lhes disse: É verdade que vós haveis de beber o meu cálice. Mas pelo que toca a terdes assento à minha mão direita, ou à esquerda, não me pertence a mim o dar-vo-lo, mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai.[11]NÃO ME PERTENCE A MIMA mim considerado só como homem. Duhamel como Santo Agostinho.

24E quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos.

25Mas Jesus os chamou a si, e lhes disse: Sabeis que os príncipes das gentes dominam os seus vassalos: E que os que são maiores exercitam o seu poder sôbre êles.

26Não será assim entre vós outros: Mas entre vós todo o que quiser ser o maior, esse seja o que vos sirva:

27E o que entre vós quiser ser o primeiro, esse seja o vosso servo:

28Assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar sua vida em redenção por muitos.

29E saindo êles de Jericó, seguiu a Jesus muita gente.

30E eis que dois cegos que estavam sentados junto à estrada, ouviram que Jesus passava: E gritaram, dizendo: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de nós.

31E repreendia-os a gente que se calassem. Porém êles cada vez gritavam mais, dizendo: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de nós.

32Então parou Jesus, e chamou-os, e disse: Que quereis que vos faça?

33Responderam êles: Que se nos abram, Senhor, os nossos olhos.

34E Jesus compadecido dêles, lhes tocou os olhos. E no mesmo instante viram, e o foram seguindo.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

📄 PDF
📄 Original