Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 18

O maior no reino dos Céus é o que se faz como um menino. É grande pecado escandalizar os pequenos. Como se deve dar a correção fraterna. O que não obedece à Igreja, deve ser tratado como um gentio, ou publicano. Dá Jesus Cristo aos Apóstolos o poder de ligar, e desatar. De quanta fôrça seja a oração dos que se unem. A ira de Deus contra os que à sua imitação não perdoam ao próximo.

1Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos, dizendo: Quem julgas tu que é maior no reino dos Céus?

2E chamando Jesus a um menino, o pôs no meio deles,

3e disse: Na verdade vos digo que se vos não converterdes, e vos não fizerdes como meninos, não haveis de entrar no reino dos Céus.

4Todo aquele pois que se fizer pequeno, como êste menino, êsse será o maior no reino dos Céus.

5E o que receber em meu nome um menino tal como êste, a mim é que recebe.

6O que escandalizar porém a um dêstes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fôra que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de moinho, e que o lançassem no fundo do mar.

7Ai do mundo por causa dos escândalos. Porque é necessário que sucedam escândalos: Mas ai daquele homem, por quem vem o escândalo.

8Ora se a tua mão, ou o teu pé te escandaliza: Corta-o, e lança-o fora de ti: Melhor te é entrar na vida manco, ou aleijado, do que tendo duas mãos, ou dois pés, ser lançado no fogo eterno.

9E se o teu ôlho te escandaliza, tira-o, e lança-o fora de ti: Melhor te é entrar na vida com um só ôlho, do que tendo dois, ser lançado no fogo do inferno.

10Vede não desprezeis algum dêstes pequeninos: Porque eu vos declaro que os seus anjos nos Céus incessantemente estão vendo a face de meu Pai que está nos Céus.

11Porque o Filho do homem veio a salvar o que havia perecido.

12Que vos parece? Se tiver alguém cem ovelhas, e se se desgarrar uma delas: Porventura não deixa as noventa e nove nos montes, e vai a buscar aquela que se extraviou?

13E se acontecer achá-la: Digo-vos em verdade, que maior contentamento recebe êle por esta, do que pelas noventa e nove, que não se extraviaram.

14Assim não é a vontade do vosso Pai, que está nos Céus, que pereça um dêstes pequeninos.

15Portanto se teu irmão pecar contra ti, vai e corrige-o entre ti e êle só; se te ouvir, ganhado terás a teu irmão:

16Mas se te não ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que por bôca de duas ou três testemunhas fique tudo confirmado.

17E se os não ouvir, dize-o à Igreja, e se não ouvir a Igreja, tem-no por um gentio, ou um publicano.[1]TEM-NOComo incorrigível, como incurável, como um homem separado da Igreja, como um pecador público — S. Tomás.

18Em verdade vos digo, que tudo o que vós ligardes sôbre a terra, será ligado também no Céu: E tudo o que vós desatardes sôbre a terra, será desatado também no Céu.

19Ainda vos digo mais, que se dois de vós se unirem entre si sôbre a terra, seja qual fôr a coisa que êles pedirem, meu Pai, que está nos Céus, lha fará.

20Porque onde se acham dois ou três congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles.

21Então chegando-se Pedro a êle, perguntou: Senhor, quantas vezes poderá pecar meu irmão contra mim, que eu lhe perdoe? será até sete vezes?

22Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas que até setenta vezes sete vezes.[2]SETENTA VEZES SETE VEZESOu sete vêzes setenta. Que fazem quatrocentas e noventa. E quem diz até sete vêzes setenta, diz todos os pecados, observa S. Agostinho.

23Por isso o reino dos Céus é comparado a um homem rei, que quis tomar contas aos seus servos.

24E tendo começado a tomar as contas, apresentou-se-lhes um, que lhe devia dez mil talentos.[3]DEZ MIL TALENTOSSoma exorbitante, ainda que se refere ao pequeno talento dos egípcios e dos árabes. Pode referir-se a um administrador dos dinheiros públicos, ou das rendas régias. Mas com ela mostra Jesus Cristo a gravidade infinita de um pecado mortal, e a ilimitada grandeza da dívida, em que este pecado nos constitui no tribunal divino.

25E como não tivesse com que pagar, mandou o seu Senhor que o vendessem a êle, e a sua mulher, e a seus filhos, e tudo o que tinha, para ficar pago da dívida.

26Porém o tal servo lançando-se-lhe aos pés, lhe fazia esta súplica, dizendo: Tem paciência comigo, que eu te pagarei tudo.

27Então o Senhor compadecido daquele servo, deixou-o ir livre, e perdoou-lhe a dívida.

28E tendo saído este servo, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros: E lançando-lhe a mão o afogava, dizendo: Paga-me o que me deves.[4]CEM DINHEIROSO dinheiro era uma moeda antiga de prata de tão pouco valor.

29E o companheiro lançando-se-lhe aos pés o rogava, dizendo: Tem paciência comigo que eu te satisfarei tudo.

30Porém êle não quis: Mas retirou-se, e fez que o metessem na cadeia, até pagar a dívida.

31Porém os outros servos seus companheiros, vendo o que se passava, sentiram-no tão fortemente, e foram dar parte a seu Senhor de tudo o que tinha acontecido.

32Então o chamou o seu Senhor, e lhe disse: Servo mau, eu perdoei-te a dívida tôda porque me vieste rogar para isso:

33Não devias tu logo compadecer-te igualmente do teu companheiro, assim como também eu me compadeci de ti?

34E cheio de cólera mandou seu senhor que o entregassem aos algozes, até pagar tôda a dívida.[5]E CHEIO DE CÓLERANada provoca mais a ira de Deus contra nós, do que a falta de caridade com os próximos. Parábola admirável que nos ensina a perdoar para que sejamos perdoados.

35Assim também vos há de fazer meu Pai celestial, se não perdoardes do íntimo de vossos corações, cada um a seu irmão.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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