Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

Sermão das oito Bem-aventuranças, pregado no monte. Os Apóstolos, sal da terra, e luz do mundo. Jesus Cristo vindo ao mundo, não para destruir a Lei, mas para a aperfeiçoar. Que nos não devemos irar contra o próximo, mas ir buscá-lo quando êle está queixoso de nós. Que se não deve olhar para a mulher com olhos impúdicos. Que devemos cortar por tudo o que nos pode servir de ocasião de ruína espiritual. Que a troco de se não violar a caridade fraterna devemos estar feitos a tudo deixar, e a tudo sofrer. Que devemos amar, e fazer bem a nossos inimigos.

1E vendo Jesus a grande multidão do povo, subiu a um monte, e depois de se ter sentado, se chegaram para o pé dêle os seus discípulos.

2E êle abrindo a sua bôca os ensinava dizendo:[1]dizendoDIZENDO — Começa aqui a pregação de Jesus Cristo, que durou três anos. O monte em que Jesus fala está situado ao nordeste da cidade de Tiberíades, e é hoje denominado Kurn-Hattin, monte das Bem-aventuranças. Tem cinquenta metros acima da planície. Em dias claros, dêste monte avista-se o Tabor para sudoeste; a este o país de Galaad e o lago Tiberíades, e para nordeste o grande Hermon. Êste é de todos os discursos de Cristo que os evangelistas nos conservaram, o mais extenso de todos e o mais completo. Pelo seu objeto e pela sua importância merece de certo uma atenção e um estudo muito particular, pois que o Sermão do Monte — Oratio Montana, é propriamente o Código do Reino Messiânico, ou seja o código do povo cristão. Abrange os capítulos V-VI-VII, formando um todo único, um só discurso seguido, pronunciado numa e mesma ocasião, num e no mesmo lugar e perante os mesmos ouvintes. As partes maiores ou menores dêste discurso estão entre si tão íntima e logicamente ligadas, a sua conexão é tão estreita e natural, que ressalta logo à vista como impossível, que êle possa ser um conjunto, um arranjo arbitrário de sentenças variadas do Divino Mestre. Com os melhores exegetas admitimos que o Sermão do Monte é um só e mesmo discurso, pronunciado pelo Salvador no mesmo lugar, na mesma ocasião e perante as mesmas pessoas. Cfr. Dr. Bisping Exegetisches Handbuch zum Neuen Testament — Münster, 1867.

3Bem-aventurados os pobres de espírito: Porque dêles é o reino dos Céus.[2]os pobres de espíritoBEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO — Começam aqui as condições ou requisitos dirigidos aos cidadãos do reino Messiânico, sob a forma de sentenças breves e curtas, cada uma das quais, em seu sentido profundo, tem o mesmo valor e significação. São as oito bem-aventuranças ou Macarismos. Na primeira parte de cada uma, ou prótase, enuncia uma virtude cristã, declarando-se bem-aventurado aquêle que possuir ou observar. Na segunda, ou apódose, contém-se o motivo duma bem-aventurança, motivo sempre idêntico — a posse do reino de Deus — seja qual fôr a imagem por que se representa.

POBRES DE ESPÍRITO — Convém determinarmos bem o valor desta expressão. Segundo a fôrça do têrmo spiritus, vontade, a expressão pauperes spiritu designa o desprendimento do homem, não só de tudo o que é externo a êle, mas de si próprio; numa palavra só, é a oposição formal consideràvelmente contrária ao egoísmo. Por isso a leviandade, a ignorância e a má fé tantas vêzes deturpam, entendendo por pobres de espírito os homens destituídos de senso comum, loucos, insensatos, ignorantes ou estúpidos, procurando os que assim ensinam e julgam desconceitua a Igreja, ridicularizar Jesus Cristo, afrontar o Santo Evangelho. A filologia, e o usus, e quando geral, especial e especialíssimo desmentem tão estulta, interpretação. Segundo a fôrça do têrmo spiritus, vontade, a expressão pauperes spiritu designa o desprendimento do homem, não só de tudo o que é externo a êle, mas de si próprio; numa palavra só, é a oposição formal consideràvelmente contrária ao egoísmo. Por isso S. Hilário, cap. 4, S. João Crisóstomo Hom in Math. 15, S. Ambrósio Lib. V. in Lucam e tantíssimos outros, cuja enumeração seria fastidiosa, entendem que a pobreza de espírito vale o mesmo que a humildade. Os pobres de espírito são pois os pobres do coração e afeição. Se não têm riquezas e grandezas não as desejam, se as possuem não se prendem a elas. São os que deixam tudo pela vida eterna; são os que nada mais querem do que a graça de Deus, nihil habentes et omnia possidentes. Na pobreza não têm impaciência, na riqueza têm abnegação, repartindo o que possuem com os que nada têm. São os que muito valem, socorrendo e elevando os que nada são. Finalmente são os que se separam do espírito da riqueza, do fausto, conculcando o orgulho, vencendo a avidez. Pobres de espírito, por último, são os que allam à mais profunda humildade, a mais acrisolada caridade, pois é esta a fôrça do têrmo original ptochoi pneumati. E a esta humildade corresponde a grandeza, porque a esta pobreza corresponde o reino dos Céus, e os cidadãos dêste reino reinarão com Cristo — Ibi quot cives tot reges. Aqui há uma verdadeira igualdade, uma verdadeira democracia, a democracia da virtude e da santidade, da ordem e da justiça, norteada pela verdade, tendente a unir todos os homens entre si pelos mesmos afetos na terra e reuni-los depois no Céu.

4Bem-aventurados os mansos: Porque êles possuirão a terra.[3]os mansosBEM-AVENTURADOS OS MANSOS — O pensamento enunciado neste versículo é uma dedução legítima da pobreza de espírito ou humildade enunciada no versículo antecedente. A humildade e a mansidão são precisamente a mesma virtude sob dois aspectos diferentes, ou, se se quiser, duas feições duma e da mesma virtude. O homem é humilde em relação a Deus, e é manso, mitis, para com o próximo. Quem reconhece a sua fraqueza perante Deus, é indulgente para com as fraquezas dos seus semelhantes, brando e manso na apreciação das faltas do próximo.

POSSUIRÃO A TERRA — Esta expressão é equivalente a do versículo antecedente — porque dêles é o reino dos Céus — A expressão grega Kleronomein ten gen corresponde à hebraica nachal iarach et haaretz, que era a fórmula constante por que no Antigo Testamento se designava a posse da terra da Canaã. E Canaã era a terra da promissão, a terra por excelência, o reino messiânico: desta maneira possuirão a terra vale o mesmo do que o reino dos Céus, do qual era tipo a terra de Canaã.

5Bem-aventurados os que choram: Porque êles serão consolados.[4]os que choramBEM-AVENTURADOS OS QUE CHORAM — Uns intérpretes entendem os que choram os seus pecados; S. João Crisóstomo, S. Antônio, S. Cirilo; outros os que choram os alheios, como Cristo chorou sôbre Jerusalém; S. Agostinho e S. Gregório de Nissa. Ambas estas interpretações parecem restritas. Atendendo aos antecedentes, e concatenando com a doutrina antecedente, nós podemos explicar por aquêles que choram a fraqueza dos seus recursos, e se afligem com as suas e com as misérias alheias.

PORQUE ÊLES SERÃO CONSOLADOS — É uma nova forma de designar o reino dos Céus. Esta expressão vale o mesmo que dizer: porque êles serão concidadãos do reino de Deus, ou do reino dos Céus; pois que o reino de Deus é por essência a plenitude da consolação, da alegria e do júbilo.

6Bem-aventurados os que têm fome, e sêde de justiça: Porque êles serão fartos.[5]têm fome, e sêde de justiçaBEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SÊDE — Fome e sêde é uma fórmula metafórica muito usada na Sagrada Escritura para designar um desejo ardente, veemente e sincero de alguma coisa.

DE JUSTIÇA — Esta palavra (dikaiosyne no texto grego) significa a justiça intrínseca, a santidade pessoal, o estado de justo, o que propriamente chamamos justificação. Por isso os exegetas, como S. Ambrósio, S. Jerônimo, S. Bernardo, entendem êste versículo desta sorte: Bem-aventurados aquêles que desejam ardentemente com sinceridade ser santos e justos perante Deus, ou os que anseiam pela sua completa justificação.

SERÃO FARTOS — É o reino de Deus, onde só podem ter cabal satisfação as aspirações da alma humana, que se representa por esta expressão.

7Bem-aventurados os misericordiosos: Porque êles alcançarão misericórdia.[6]os misericordiososBEM-AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS — No texto grego está eleémones, os que dão a esmola; Jesus quer que os cidadãos do seu reino sejam dotados dos melhores sentimentos duns para com os outros, de sentimentos de amor recíproco; mas quer também que êsses sentimentos não sejam estéreis, e que se traduzam em atos de caridade — dêem esmola, e dando-a partilharão duma grande esmola, é a fôrça da expressão eleethésontai, que a Vulgata traduziu misericordiam consequentur — alcançarão misericórdia.

8Bem-aventurados os limpos de coração: Porque êles verão a Deus.[7]os limpos de coraçãoBEM-AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO — A expressão grega katharoi te kardia, mundi corde, correspondente à hebraica 'iches lebi, quer dizer, retidão, pureza de intenções, candura, simplicidade de coração. Hoc est mundum cor, diz S. Agostinho, quod est simplex cor, et quem ad modum lumen hoc videri non potest nisi oculis mundis, ita nec Deus videtur, nisi mundum sit illud quod videri potest.

VERÃO A DEUS — Possuirão o reino dos Céus, a visão beatífica, a visão de Deus.

9Bem-aventurados os pacíficos: Porque êles serão chamados filhos de Deus.[8]os pacíficosBEM-AVENTURADOS OS PACÍFICOS — O têrmo grego eirenopoiós, pacificus, significa o que vive em paz consigo e com os seus semelhantes, o que é amigo da paz e que a promove ou restabelece onde ela não existe ou está quebrada.

SERÃO CHAMADOS FILHOS DE DEUS — Há aqui dois hebraísmos que é preciso bem entender. A expressão filhos de Deus, segundo o usus loquendi hebraico, significa em geral a semelhança ou conformidade com Deus, de sorte que equivale a imitadores de Deus. O outro hebraísmo está na expressão — serão chamados — vocabuntur: êste modo de dizer equivale a serão. Bisping diz que o têrmo klethesontai quer significar que os pacíficos não são sòmente filhos de Deus, mas como tais serão reconhecidos pelo mundo.

10Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça: Porque dêles é o reino dos Céus.[9]perseguição por amor da justiçaBEM-AVENTURADOS OS QUE PADECEM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA — O têrmo de justiça é o mesmo que já encontramos no v. 6 dikaíosyne. É a justiça intrínseca, a justificação e santidade íntima e pessoal. E como Jesus Cristo é propriamente a nossa justificação, por isso no versículo 11, que nada mais é que uma explicação dêste, o Salvador não diz — por amor de justiça, — mas sim — por meu respeito — propter me. Aqui diz só padecerem perseguição, nos versículos seguintes especifica três modos de perseguição: a) quando vos carregarem de injúrias; b) quando vos perseguirem; c) quando disserem contra vós falsamente tôda a espécie de mal. E assim se indica o espírito da resignação, a autoridade do princípio e a firmeza de convicções que devem ter os membros do reino messiânico. Singular reino, sem dúvida, que se firma na humildade, se fortalece na mansidão; avigora-se pela dor das culpas próprias e desgraças alheias; floresce por misericórdia, pela pureza do coração e pelo amor da paz; e robustece-se pelos tormentos e perseguições dêste mundo.

11Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem, e vos perseguirem, e disserem todo o mal contra vós, mentindo, por meu respeito:

12Folgai, e exultai, porque o vosso galardão é copioso nos Céus: Pois assim também perseguiram os profetas que foram antes de vós.

13Vós sois o sal da terra. E se o sal perder a sua fôrça, com que outra coisa se há de salgar? para nenhuma coisa mais fica servindo, senão para se lançar fora e ser pisado dos homens.[10]sal da terraVÓS SOIS O SAL DA TERRA — Começa aqui a perícopa que vai até o v. 16, e onde se indicam as autoridades do reino messiânico e se discriminam as suas atribuições. Aqui há uma imagem cujo emprêgo constitui uma das propriedades características da dicção bíblica; esta é uma das mais belas do texto sagrado. Tem o sal duas propriedades por todos conhecidas; evita e destrói a corrupção, tempera os alimentos. Jesus Cristo faz destas propriedades físicas uma aplicação moral. Os Apóstolos, que são as autoridades do reino messiânico, devem evitar e destruir a corrupção. E ainda mais: assim como o sal tempera e torna agradáveis os alimentos de que o homem usa, do mesmo modo êles devem temperar as ações do homem por forma, que êste no seu proceder não deslise da lei e do caminho que dirige pela virtude e pelo bem, pela ordem, ao seu último fim, para que seja agradável a Deus. Esta imagem tem alguma relação com a praxe ritual nos sacrifícios do Antigo Testamento. Temperavam-se com sal as vítimas sacrificadas, para serem mais agradáveis a Deus; no reino messiânico, os Apóstolos, e os seus sucessores, Bispos e Presbíteros, devem ser para a humanidade o que o sal era para os alimentos, destruir e evitar a corrupção do pecado, temperar o procedimento dos homens, de modo que os seus atos sejam em tudo agradáveis a Deus e conforme a justiça.

14Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade que está situada sôbre um monte:[11]a luz do mundoVÓS SOIS A LUZ DO MUNDO — Depois de lhes ter chamado sal que preserva e depura, Jesus Cristo chama às autoridades de seu reino luz; mas a luz ilumina: também a êles cumpre iluminar os que estão imersos nas densas trevas.

15Nem os que acendem uma luzerna a metem debaixo do alqueire, mas põem-na sôbre o candeeiro, a fim de que ela dê luz a todos os que estão na casa.

16Assim luza a vossa luz diante dos homens: Que êles vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos Céus.[12]luza a vossa luzASSIM LUZA A VOSSA LUZ — Compreende não só a luz da verdade evangélica, cuja pregação era a missão principal dos Apóstolos e seus sucessores, mas também o exemplo — o que com maior clareza se manifesta nos têrmos opera vestra bona (as vossas boas obras) ta kala erga. Portanto, e cumpre bem fixar, está aqui indicada a existência das autoridades, que devem preservar do mal, purificar, e ao mesmo tempo iluminar, dirigindo, esclarecendo, e edificando com as suas boas obras, pois são como luzerna colocada no alto do monte. Portanto estas autoridades têm de superintender na moralização da humanidade, por consequência da educação individual e social do homem: e todos os cristãos devem receber esta instrução dessas autoridades, a quem devem respeito e veneração.

17Não julgueis que vim destruir a lei, ou os profetas: Não vim a destruí-los, mas sim a dar-lhes cumprimento.

18Porque em verdade vos afirmo, que enquanto não passar o Céu e a terra, não passará da lei um só i, ou um til, sem que tudo seja cumprido.

19Aquêle pois que quebrar um dêstes mínimos mandamentos, e que ensinar assim aos homens, será chamado mui pequeno no reino dos Céus: Mas o que os guardar, e ensinar a guardá-los, êsse será reputado grande no reino dos Céus.

20Porque eu vos digo, que se a vossa justiça não for maior e mais perfeita do que a dos escribas, e a dos fariseus, não entrareis no reino dos Céus.

21Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás: E quem matar será réu no Juízo.[13]réu no JuízoNO JUÍZO — O juízo era provavelmente o tribunal que funcionava em cada cidade, composto por vinte e três juízes. Jesus Cristo quer significar que o ódio, a cólera, o desejo de vingança são tão criminosos aos olhos de Deus, como o homicídio, porque o que vota ódio ao seu irmão, se o não assassina é pelo temor da justiça da terra.

22Pois eu digo-vos: Que todo o que se ira contra seu irmão, será réu no juízo. E o que disser a seu irmão: Raca, será réu no conselho: E o que lhe disser: És um tolo, será réu do fogo do inferno.[14]réu no conselhoRÉU NO CONSELHO — Era o tribunal soberano composto de setenta e dois membros, que julgava em suprema instância os crimes religiosos e políticos.

FOGO DO INFERNO — O que está na Vulgata é gehennae ignis, que Glaire traduz geena de fogo. O nosso geena vem de duas palavras hebraicas designando um vale onde outrora queimaram vítimas humanas.

23Portanto, se tu estás fazendo a tua oferta diante do altar, e te lembrar aí que teu irmão tem contra ti alguma coisa:

24Deixa ali a tua oferta diante do altar e vai-te reconciliar primeiro com teu irmão: E depois virás fazer a tua oferta.

25Concerta-te sem demora com o teu adversário, enquanto estás pôsto a caminho com êle: Para que não suceda que êle adversário te entregue ao juiz, e que o juiz te entregue ao seu ministro: E sejas mandado para a cadeia.

26Em verdade te digo, que não sairás de lá, até não pagares o último ceitil.

27Ouvistes que foi dito aos antigos: Não adulterarás.

28Eu porém digo-vos: Que todo o que olhar para uma mulher cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela.

29E se o teu ôlho direito te serve de escândalo, arranca-o, e lança-o fora de ti: Porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno.

30E se a tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a fora de ti: Porque melhor te é que se perca um de teus membros, do que todo o teu corpo vá para o inferno.

31Também foi dito: Qualquer que se desquitar de sua mulher, dê-lhe carta de repúdio.

32Mas eu vos digo: Que todo o que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de fornicação, a faz ser adúltera: E o que tomar a repudiada, comete adultério.

33Igualmente ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso: Mas cumprirás ao Senhor os teus juramentos.

34Eu porém vos digo, que absolutamente não jureis, nem pelo Céu, porque é o trono de Deus:

35Nem pela terra, porque é o assento de seus pés: Nem por Jerusalém, porque é a cidade do grande rei:

36Nem jurarás pela tua cabeça, pois não podes fazer que um cabelo teu seja branco ou negro.

37Mas seja o vosso falar, sim, sim: Não, não: Porque tudo o que daqui passa, procede do mal.

38Vós tendes ouvido o que se disse: Ôlho por ôlho, e dente por dente.

39Eu porém digo-vos, que não resistais ao que vos fizer mal: Mas se alguém te ferir na tua face direita oferece-lhe também a outra:

40E ao que quer demandar-te em juízo, e tirar-te a tua túnica, larga-lhe também a capa:

41E se qualquer te obrigar a ir carregado mil passos, vai com êle ainda mais outros dois mil.

42Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

43Tendes ouvido que foi dito: Amarás ao teu próximo, e aborrecerás a teu inimigo.

44Mas eu vos digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos têm ódio: E orai pelos que vos perseguem e caluniam:

45Para serdes filhos de vosso Pai, que está nos Céus, o qual faz nascer o seu sol sôbre bons e maus: E vir chuva sôbre justos e injustos.

46Porque se vós não amais senão os que vos amam, que recompensa haveis de ter? não fazem os publicanos também o mesmo?[15]os publicanosOS PUBLICANOS — Eram os que tinham a seu cargo os tributos e impostos. Pompeu, havendo subjugado aos judeus, sessenta anos antes com pouca diferença da vinda de Cristo, os fez tributários. Os cavalheiros romanos, e outras pessoas consideráveis arrendavam êstes impostos nas províncias, e para cobrá-los nomeavam comissários dos mesmos do país. E êstes comissários nomeavam outros, que eram seus subalternos, e lhes estavam subordinados. Do número dos primeiros parece que foi Zaqueu. Lc 19, 2, e S. Mateus dos segundos. Mt 9, 9. Estavam em muita honra entre os romanos, como se vê na oração pro Lege Manilia de Cícero; porém eram tidos por infames entre os Judeus. — Pereira.

47E se vós saudardes sòmente aos vossos irmãos, que fazeis nisso de especial? não fazem também assim os gentios?

48Sêde vós logo perfeitos, como também vosso Pai celestial é perfeito.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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