Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Sara Jesus Cristo um paralítico. Declara o poder que tem de perdoar pecados. Chama a Mateus. Murmuração dos fariseus, por verem comer o Senhor com os pecadores. Cura uma mulher, que padecia um fluxo de sangue, e ressuscita uma menina. Dá vista a dois cegos, e fala a um endemoninhado mudo.

1Entrando em uma barca, passou à outra banda, e foi à sua cidade.[1]à sua cidadeE FOI A SUA CIDADE — A Cafarnaum, onde costumava habitar.

2E eis-que lhe apresentaram um paralítico, que jazia em um leito. E vendo Jesus a fé dêles, disse ao paralítico: Filho, tem confiança, perdoados te são teus pecados.[2]a fé dêlesA FÉ DÊLES — A do paralítico, e a dos que o traziam.

3E logo alguns dos escribas disseram dentro de si: Êste blasfema.

4E como visse Jesus os pensamentos dêles, disse: Por que cogitais mal nos vossos corações?

5Que coisa é mais fácil dizer: Perdoados te são teus pecados, ou dizer: Levanta-te, e anda?

6Pois para que saibais que o Filho do homem tem poder sôbre a terra de perdoar pecados, disse êle então ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.

7E êle se levantou, e foi para sua casa.

8E vendo isto as gentes, temeram, e glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens.

9E passando Jesus dali, viu um homem que estava sentado no Telônio, chamado Mateus. E lhe disse: Segue-me. E levantando-se êle, o seguiu.[3]no TelônioQUE ESTAVA SENTADO NO TELÔNIO — Telônio se chamava a mesa, e o lugar onde se cobravam as rendas públicas.

10E aconteceu que estando Jesus sentado à mesa numa casa, eis-que vindo muitos publicanos, e pecadores, se sentaram a comer com êle, e com os seus discípulos.[4]numa casaNUMA CASA — Isto é, em casa do mesmo S. Mateus, como consta de Mac 2, 15, e de Lc 5, 29.

11E vendo isto os fariseus diziam aos seus discípulos: Por que come o vosso mestre com os publicanos, e pecadores?

12Mas ouvindo-os Jesus, disse: Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos.

13Ide pois e aprendei o que quer dizer: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porquanto eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores.

14Então vieram ter com êle os discípulos de João, dizendo: Qual é a razão por que nós, e os fariseus jejuamos com freqüência, e os teus discípulos não jejuam?

15E Jesus lhes disse: Porventura podem estar tristes os filhos do espôso? mas virão dias em que lhes será tirado o espôso: E então êles jejuarão.[5]os filhos do espôsoOS FILHOS DO ESPÔSO — S. Lucas, cap. 5, vers. 34, dá a entender que os fariseus fizeram esta nova tentativa, ou insultaram a Jesus Cristo, por si mesmos. Mas no estilo da Escritura, e ainda no uso comum, costuma atribuir-se uma coisa àquele, por cujo mandado, conselho, ou instigação se faz. Confundidos pois os fariseus com as respostas do Salvador se valeram dos discípulos de João, para de novo o atacarem. E em vez de imitar a profunda humildade de seu Mestre, chegaram êstes a perguntar ao Senhor de um modo tão orgulhoso que merecia uma severa repreensão. Porém o Filho de Deus se contentou com instruí-lo, usando da maior doçura e dizendo-lhes: 'Que os filhos do Espôso não podiam estar tristes, enquanto o Espôso estava na sua companhia'. Isto é um hebraísmo e assim os filhos do Espôso não querem dizer outra coisa mais, que os seus amigos, ou companheiros; havendo alusão ao costume que havia antigamente, de dar aos que se casavam alguns mancebos, que os acompanhassem em todas as cerimônias da sua boda, e estes eram os chamados 'filhos do Espôso'.

16E ninguém deita remendo de pano novo em vestido velho: Porque leva quanto alcança do vestido: E se faz maior a ruptura.

17Nem deitam vinho novo em odres velhos: De outra maneira rebentam os odres, e se vai o vinho, e se perdem os odres: Mas deitam vinho novo em odres novos: E assim ambas as coisas se conservam.[6]odres velhosODRES — Os orientais serviam-se vulgarmente de odres de pele de cabra e de camelo para conservar o vinho.

18Dizendo-lhes êle estas coisas, eis-que um príncipe se chegou a êle, e o adorou, dizendo: Senhor, agora acaba de expirar minha filha: Mas vem tu, põe a tua mão sôbre ela, e viverá.[7]um príncipeUM PRÍNCIPE — Da Sinagoga, por nome Jairo. Luc 8, 41. Chama-se pois príncipe da Sinagoga, porque presidia à Sinagoga.

19E Jesus levantando-se o foi seguindo com seus discípulos.

20E eis-que uma mulher, que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, se chegou por detrás dêle, e lhe tocou a ourela do vestido.[8]uma mulherEIS-QUE UMA MULHER — Eusébio de Cesaréia, na sua história, diz que esta mulher era de Panéias, cidade da Fenícia, chamada por fim Cesaréia Filipe. Diz que no seu tempo existiam diante da porta de sua casa duas estátuas de bronze, representando uma a mulher numa atitude suplicante, e a outra Jesus Cristo estendendo a sua destra. Acrescenta o célebre historiador, que junto desta última estátua crescia uma esquisita erva de singulares propriedades medicinais. Diz terminantemente que viu isto tudo. Hist. Eccl. 7, 14, 18. Tillemont, Mémoires, 7, 1. Fleury, Hist. Eccl. 15-20. Sozômeno confirma a narração de Eusébio. A arqueologia cristã fornece dados valiosos sôbre êste fato, que está representado pelas mais antigas pinturas das catacumbas. No cemitério de S. Pretextato vê-se a doente que se curava tocando a fímbria do manto do Salvador. Está de joelhos, e Jesus de pé, acompanhado de dois discípulos. Cfr. Garucci, Storia dell'arte cristiana, t. 2, pl. 38, n.° 2, text. p. 45. Martigny, Dict.

21Porque ia dizendo dentro de si: Se eu tocar, ainda que seja sòmente o seu vestido, serei curada.

22E voltando-se Jesus, e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, a tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora.

23E depois que Jesus chegou à casa daquele príncipe, e viu os tocadores de flautas, e uma multidão de gente, que fazia reboliço, disse:[9]tocadores de flautasTOCADORES DE FLAUTAS — Acompanhavam com as carpideiras os funerais. Cfr. Jer 9, 17.

24Retirai-vos: Porque a menina não está morta, mas dorme. E êles o escarneciam.[10]mas dormeMAS DORME — Jesus Cristo diz que a filha de Jairo dorme, no mesmo sentido em que mais tarde disse a Lázaro: Vai revocá-lo à vida, com a mesma facilidade com que desperta o que esteja dormindo. Desta expressão a simplicidade e a confiança do Evangelista. Se pretendessem enganar, acautelar-se-iam de empregar tais expressões, atribuindo-as ao Salvador. De resto S. Lucas acrescenta Et reversus est spiritus ejus, e o próprio S. Mateus no versículo seguinte: Correu esta fama por tôda aquela terra, o que denota a singularidade do acontecimento. O acordar um dorminte é fato tão vulgar e tão banal que não era apregoado por tôda a terra.

25E tendo saído a gente, entrou Jesus: E a tomou pela mão. E a menina se levantou.

26E correu esta fama por tôda aquela terra.

27Passando Jesus daquele lugar, o seguiram dois cegos, gritando, e dizendo: Tem misericórdia de nós, filho de Davi.

28E chegando à casa vieram a êle os cegos. E Jesus lhes disse: Credes que vos posso fazer isto a vós outros? Disseram êles: Sim, Senhor.

29Então lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos segundo a vossa fé.

30Imediatamente foram abertos os seus olhos: E Jesus os ameaçou, dizendo: Vêde lá que o não saiba alguém.

31Mas êles, saindo dali, divulgaram por tôda aquela terra o seu nome.

32Depois que saíram, lhe apresentaram um homem mudo, possuído do demônio.

33E depois que foi expelido o demônio, falou o mudo, e se admiraram as gentes, dizendo: Nunca tal se viu em Israel.

34Porém os fariseus diziam: Êle em virtude do príncipe dos demônios lança fora os demônios.

35Entretanto ia Jesus dando volta por tôdas as cidades, e aldeias, ensinando nas sinagogas dêles, e pregando o evangelho do reino, e curando tôda a doença, e tôda a enfermidade.

36E olhando para aquelas gentes, se compadeceu delas: Porque estavam fatigadas, e quebrantadas como ovelhas que não têm pastor.

37Então, disse a seus discípulos: A seara verdadeiramente é grande, mas os obreiros poucos.

38Rogai pois ao Senhor da seara, que envie obreiros à sua seara.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

📄 PDF
📄 Original