Capítulo 9
1Entrando em uma barca, passou à outra banda, e foi à sua cidade.[1]à sua cidade — E FOI A SUA CIDADE — A Cafarnaum, onde costumava habitar.
2E eis-que lhe apresentaram um paralítico, que jazia em um leito. E vendo Jesus a fé dêles, disse ao paralítico: Filho, tem confiança, perdoados te são teus pecados.[2]a fé dêles — A FÉ DÊLES — A do paralítico, e a dos que o traziam.
3E logo alguns dos escribas disseram dentro de si: Êste blasfema.
4E como visse Jesus os pensamentos dêles, disse: Por que cogitais mal nos vossos corações?
5Que coisa é mais fácil dizer: Perdoados te são teus pecados, ou dizer: Levanta-te, e anda?
6Pois para que saibais que o Filho do homem tem poder sôbre a terra de perdoar pecados, disse êle então ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito, e vai para tua casa.
7E êle se levantou, e foi para sua casa.
8E vendo isto as gentes, temeram, e glorificaram a Deus, que deu tal poder aos homens.
9E passando Jesus dali, viu um homem que estava sentado no Telônio, chamado Mateus. E lhe disse: Segue-me. E levantando-se êle, o seguiu.[3]no Telônio — QUE ESTAVA SENTADO NO TELÔNIO — Telônio se chamava a mesa, e o lugar onde se cobravam as rendas públicas.
10E aconteceu que estando Jesus sentado à mesa numa casa, eis-que vindo muitos publicanos, e pecadores, se sentaram a comer com êle, e com os seus discípulos.[4]numa casa — NUMA CASA — Isto é, em casa do mesmo S. Mateus, como consta de Mac 2, 15, e de Lc 5, 29.
11E vendo isto os fariseus diziam aos seus discípulos: Por que come o vosso mestre com os publicanos, e pecadores?
12Mas ouvindo-os Jesus, disse: Os sãos não têm necessidade de médico, mas sim os enfermos.
13Ide pois e aprendei o que quer dizer: Misericórdia quero, e não sacrifício. Porquanto eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores.
14Então vieram ter com êle os discípulos de João, dizendo: Qual é a razão por que nós, e os fariseus jejuamos com freqüência, e os teus discípulos não jejuam?
15E Jesus lhes disse: Porventura podem estar tristes os filhos do espôso? mas virão dias em que lhes será tirado o espôso: E então êles jejuarão.[5]os filhos do espôso — OS FILHOS DO ESPÔSO — S. Lucas, cap. 5, vers. 34, dá a entender que os fariseus fizeram esta nova tentativa, ou insultaram a Jesus Cristo, por si mesmos. Mas no estilo da Escritura, e ainda no uso comum, costuma atribuir-se uma coisa àquele, por cujo mandado, conselho, ou instigação se faz. Confundidos pois os fariseus com as respostas do Salvador se valeram dos discípulos de João, para de novo o atacarem. E em vez de imitar a profunda humildade de seu Mestre, chegaram êstes a perguntar ao Senhor de um modo tão orgulhoso que merecia uma severa repreensão. Porém o Filho de Deus se contentou com instruí-lo, usando da maior doçura e dizendo-lhes: 'Que os filhos do Espôso não podiam estar tristes, enquanto o Espôso estava na sua companhia'. Isto é um hebraísmo e assim os filhos do Espôso não querem dizer outra coisa mais, que os seus amigos, ou companheiros; havendo alusão ao costume que havia antigamente, de dar aos que se casavam alguns mancebos, que os acompanhassem em todas as cerimônias da sua boda, e estes eram os chamados 'filhos do Espôso'.
16E ninguém deita remendo de pano novo em vestido velho: Porque leva quanto alcança do vestido: E se faz maior a ruptura.
17Nem deitam vinho novo em odres velhos: De outra maneira rebentam os odres, e se vai o vinho, e se perdem os odres: Mas deitam vinho novo em odres novos: E assim ambas as coisas se conservam.[6]odres velhos — ODRES — Os orientais serviam-se vulgarmente de odres de pele de cabra e de camelo para conservar o vinho.
18Dizendo-lhes êle estas coisas, eis-que um príncipe se chegou a êle, e o adorou, dizendo: Senhor, agora acaba de expirar minha filha: Mas vem tu, põe a tua mão sôbre ela, e viverá.[7]um príncipe — UM PRÍNCIPE — Da Sinagoga, por nome Jairo. Luc 8, 41. Chama-se pois príncipe da Sinagoga, porque presidia à Sinagoga.
19E Jesus levantando-se o foi seguindo com seus discípulos.
20E eis-que uma mulher, que havia doze anos padecia um fluxo de sangue, se chegou por detrás dêle, e lhe tocou a ourela do vestido.[8]uma mulher — EIS-QUE UMA MULHER — Eusébio de Cesaréia, na sua história, diz que esta mulher era de Panéias, cidade da Fenícia, chamada por fim Cesaréia Filipe. Diz que no seu tempo existiam diante da porta de sua casa duas estátuas de bronze, representando uma a mulher numa atitude suplicante, e a outra Jesus Cristo estendendo a sua destra. Acrescenta o célebre historiador, que junto desta última estátua crescia uma esquisita erva de singulares propriedades medicinais. Diz terminantemente que viu isto tudo. Hist. Eccl. 7, 14, 18. Tillemont, Mémoires, 7, 1. Fleury, Hist. Eccl. 15-20. Sozômeno confirma a narração de Eusébio. A arqueologia cristã fornece dados valiosos sôbre êste fato, que está representado pelas mais antigas pinturas das catacumbas. No cemitério de S. Pretextato vê-se a doente que se curava tocando a fímbria do manto do Salvador. Está de joelhos, e Jesus de pé, acompanhado de dois discípulos. Cfr. Garucci, Storia dell'arte cristiana, t. 2, pl. 38, n.° 2, text. p. 45. Martigny, Dict.
21Porque ia dizendo dentro de si: Se eu tocar, ainda que seja sòmente o seu vestido, serei curada.
22E voltando-se Jesus, e vendo-a, disse: Tem confiança, filha, a tua fé te sarou. E ficou sã a mulher desde aquela hora.
23E depois que Jesus chegou à casa daquele príncipe, e viu os tocadores de flautas, e uma multidão de gente, que fazia reboliço, disse:[9]tocadores de flautas — TOCADORES DE FLAUTAS — Acompanhavam com as carpideiras os funerais. Cfr. Jer 9, 17.
24Retirai-vos: Porque a menina não está morta, mas dorme. E êles o escarneciam.[10]mas dorme — MAS DORME — Jesus Cristo diz que a filha de Jairo dorme, no mesmo sentido em que mais tarde disse a Lázaro: Vai revocá-lo à vida, com a mesma facilidade com que desperta o que esteja dormindo. Desta expressão a simplicidade e a confiança do Evangelista. Se pretendessem enganar, acautelar-se-iam de empregar tais expressões, atribuindo-as ao Salvador. De resto S. Lucas acrescenta Et reversus est spiritus ejus, e o próprio S. Mateus no versículo seguinte: Correu esta fama por tôda aquela terra, o que denota a singularidade do acontecimento. O acordar um dorminte é fato tão vulgar e tão banal que não era apregoado por tôda a terra.
25E tendo saído a gente, entrou Jesus: E a tomou pela mão. E a menina se levantou.
26E correu esta fama por tôda aquela terra.
27Passando Jesus daquele lugar, o seguiram dois cegos, gritando, e dizendo: Tem misericórdia de nós, filho de Davi.
28E chegando à casa vieram a êle os cegos. E Jesus lhes disse: Credes que vos posso fazer isto a vós outros? Disseram êles: Sim, Senhor.
29Então lhes tocou os olhos, dizendo: Faça-se-vos segundo a vossa fé.
30Imediatamente foram abertos os seus olhos: E Jesus os ameaçou, dizendo: Vêde lá que o não saiba alguém.
31Mas êles, saindo dali, divulgaram por tôda aquela terra o seu nome.
32Depois que saíram, lhe apresentaram um homem mudo, possuído do demônio.
33E depois que foi expelido o demônio, falou o mudo, e se admiraram as gentes, dizendo: Nunca tal se viu em Israel.
34Porém os fariseus diziam: Êle em virtude do príncipe dos demônios lança fora os demônios.
35Entretanto ia Jesus dando volta por tôdas as cidades, e aldeias, ensinando nas sinagogas dêles, e pregando o evangelho do reino, e curando tôda a doença, e tôda a enfermidade.
36E olhando para aquelas gentes, se compadeceu delas: Porque estavam fatigadas, e quebrantadas como ovelhas que não têm pastor.
37Então, disse a seus discípulos: A seara verdadeiramente é grande, mas os obreiros poucos.
38Rogai pois ao Senhor da seara, que envie obreiros à sua seara.