Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

A transfiguração de Jesus Cristo, com o mais que nela sucedeu. O Batista comparado a Elias. Cura Jesus Cristo um lunático, que os Apóstolos não puderam livrar. A fé, ainda do tamanho de um grão de mostarda, é capaz de transportar montes. Prediz Jesus a sua paixão. Faz pagar por si e por Pedro o tributo das duas dracmas.

1E seis dias depois toma Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os leva à parte a um alto monte:[1]ALTO MONTEDiz-se o Tabor, opinião aventada por Eusébio e S. Jerônimo. Hoje é contestada e pensa-se que a montanha da Transfiguração está situada mais ao norte e a este do Jordão, sem que se precise rigorosamente. Cf. Glaire, Nouveau Testament, 1901.

2E transfigurou-se diante dêles. E o seu rosto ficou refulgente como o sol: E as suas vestiduras se fizeram brancas como a neve.

3E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com êle.

4E começando a falar Pedro, disse a Jesus: Senhor, bom é que nós estejamos aqui: Se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, outro para Moisés, e outro para Elias.

5Estando êle ainda falando, eis que uma lúcida nuvem os cobriu. E eis que saiu uma voz da nuvem que dizia: Êste é aquele, meu querido Filho, em quem tenho pôsto tôda a minha complacência: Ouvi-o.

6E ouvindo isto os discípulos caíram de bruços e tiveram grande mêdo.

7Porém Jesus se chegou a êles, e tocou-os, e disse-lhes: Levantai-vos e não temais.

8Êles então levantando os seus olhos, não viram mais do que tão sòmente a Jesus.

9E quando êles desciam do monte, lhes pôs Jesus preceito, dizendo: Não digais a pessoa alguma o que vistes, enquanto o Filho do homem não ressurgir dos mortos.[2]ENQUANTO O FILHO DO HOMEMNão quis o Senhor que os apóstolos declarassem a um povo todo carnal, o que haviam visto, temendo que a grandeza do prodígio os fizesse mais incrédulos, e que depois de ter ouvido esta transfiguração tão gloriosa, servisse de escândalo a sua morte a uns espíritos tão grosseiros na inteligência dos segredos da Divina Sabedoria. S. Jerônimo. S. Lucas 9, 6, diz: que guardaram silêncio sobre as coisas que haviam visto, e então não as descobriram a ninguém. Porém S. Pedro, depois da ressurreição do Senhor, as publicou nos seus Sermões, e na 2.ª Carta 1, 18. Mc 9, 9, diz que os apóstolos disputavam entre si, perguntando um ao outro o que queriam dizer aquelas palavras: ressuscitar de entre os mortos? E é que não entendiam que o Senhor falava da sua ressurreição.

10E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Pois por que dizem os escribas que importava vir Elias primeiro?

11Mas êle, respondendo, lhes disse: Elias certamente há de vir, e restabelecerá tôdas as coisas:

12Digo-vos porém que Elias já veio, e êles não o conheceram, antes fizeram dele quanto quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às suas mãos.

13Então conheceram os discípulos, que de João Batista é que êle lhes falara.

14E depois que veio para onde estava a gente, chegou a êle um homem, que, pôsto de joelhos diante dele, lhe dizia: Senhor, tem compaixão de meu filho, que é lunático e padece muito, porque muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água.

15E tenho-o apresentado a teus discípulos e êles o não puderam curar.

16E respondendo Jesus, disse: Ó geração incrédula e perversa, até quando hei de estar convosco? até quando vos hei de sofrer? Trazei-mo cá.

17E Jesus o ameaçou, e saiu dele o demônio, e desde aquela hora ficou o moço curado.

18Então se chegaram os discípulos a Jesus em particular, e lhe disseram: Por que não pudemos nós lançá-lo fora?

19Jesus lhes disse: Por causa da vossa pouca fé. Porque na verdade vos digo, que se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a êste monte, passa daqui para acolá, e êle há de passar, e nada vos será impossível.[3]POR CAUSA DA VOSSA POUCA FÉA pouca fé, que mostraram neste caso os apóstolos, foi causa de que não curassem aquele mancebo, e a que mereceu a justa repreensão de Jesus Cristo.

20Mas esta casta de demônios não se lança fora, senão à fôrça de oração e de jejum.

21E achando-se êles juntos em Galiléia, disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens.

22E êstes lhe darão a morte, e ressuscitará ao terceiro dia. E êles se entristecerão em extremo.

23E tendo vindo para Cafarnaum, chegaram-se a Pedro os que cobravam o tributo das duas dracmas e disseram-lhe: Vosso Mestre não paga as duas dracmas?[4]DUAS DRACMASou didracmas valiam aproximadamente cento e noventa réis. Esta didracma era a contribuição que as famílias judaicas pagavam para a manutenção do Templo. Vespasiano cobrou mais tarde êste imposto para o Capitólio. Os coletores dirigem-se a S. Pedro, fosse pelo respeito devido a Jesus, fosse para o discípulo ceder o lugar ao Mestre. A resposta de Jesus Cristo supõe a sua Divindade. Para não escandalizar os que a ignoravam, consente em pagar; mas faz observar que não estava sujeito ao imposto, e revela êste ato de condescendência por um milagre.

24Êle lhes respondeu: Paga. E depois que entrou em casa, Jesus o preveniu, dizendo: Que te parece, Simão? De quem recebem os reis da terra o tributo, ou censo? de seus filhos, ou dos estranhos?

25E Pedro lhe respondeu: Dos estranhos. Disse-lhe Jesus: Logo são isentos os filhos.

26Mas para que os não escandalizemos, vai ao mar, e lança o anzol: E o primeiro peixe que subir, toma-o: E abrindo-lhe a bôca, acharás dentro um estáter: Tira-o, e dá-lho por mim e por ti.[5]ESTÁTEROu tetradracma, moeda dos hebreus correspondente a quatro dracmas, aproximadamente seis tostões.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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