Capítulo 17
1E seis dias depois toma Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os leva à parte a um alto monte:[1]ALTO MONTE — Diz-se o Tabor, opinião aventada por Eusébio e S. Jerônimo. Hoje é contestada e pensa-se que a montanha da Transfiguração está situada mais ao norte e a este do Jordão, sem que se precise rigorosamente. Cf. Glaire, Nouveau Testament, 1901.
2E transfigurou-se diante dêles. E o seu rosto ficou refulgente como o sol: E as suas vestiduras se fizeram brancas como a neve.
3E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com êle.
4E começando a falar Pedro, disse a Jesus: Senhor, bom é que nós estejamos aqui: Se queres, façamos aqui três tabernáculos, um para ti, outro para Moisés, e outro para Elias.
5Estando êle ainda falando, eis que uma lúcida nuvem os cobriu. E eis que saiu uma voz da nuvem que dizia: Êste é aquele, meu querido Filho, em quem tenho pôsto tôda a minha complacência: Ouvi-o.
6E ouvindo isto os discípulos caíram de bruços e tiveram grande mêdo.
7Porém Jesus se chegou a êles, e tocou-os, e disse-lhes: Levantai-vos e não temais.
8Êles então levantando os seus olhos, não viram mais do que tão sòmente a Jesus.
9E quando êles desciam do monte, lhes pôs Jesus preceito, dizendo: Não digais a pessoa alguma o que vistes, enquanto o Filho do homem não ressurgir dos mortos.[2]ENQUANTO O FILHO DO HOMEM — Não quis o Senhor que os apóstolos declarassem a um povo todo carnal, o que haviam visto, temendo que a grandeza do prodígio os fizesse mais incrédulos, e que depois de ter ouvido esta transfiguração tão gloriosa, servisse de escândalo a sua morte a uns espíritos tão grosseiros na inteligência dos segredos da Divina Sabedoria. S. Jerônimo. S. Lucas 9, 6, diz: que guardaram silêncio sobre as coisas que haviam visto, e então não as descobriram a ninguém. Porém S. Pedro, depois da ressurreição do Senhor, as publicou nos seus Sermões, e na 2.ª Carta 1, 18. Mc 9, 9, diz que os apóstolos disputavam entre si, perguntando um ao outro o que queriam dizer aquelas palavras: ressuscitar de entre os mortos? E é que não entendiam que o Senhor falava da sua ressurreição.
10E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Pois por que dizem os escribas que importava vir Elias primeiro?
11Mas êle, respondendo, lhes disse: Elias certamente há de vir, e restabelecerá tôdas as coisas:
12Digo-vos porém que Elias já veio, e êles não o conheceram, antes fizeram dele quanto quiseram. Assim também o Filho do homem há de padecer às suas mãos.
13Então conheceram os discípulos, que de João Batista é que êle lhes falara.
14E depois que veio para onde estava a gente, chegou a êle um homem, que, pôsto de joelhos diante dele, lhe dizia: Senhor, tem compaixão de meu filho, que é lunático e padece muito, porque muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água.
15E tenho-o apresentado a teus discípulos e êles o não puderam curar.
16E respondendo Jesus, disse: Ó geração incrédula e perversa, até quando hei de estar convosco? até quando vos hei de sofrer? Trazei-mo cá.
17E Jesus o ameaçou, e saiu dele o demônio, e desde aquela hora ficou o moço curado.
18Então se chegaram os discípulos a Jesus em particular, e lhe disseram: Por que não pudemos nós lançá-lo fora?
19Jesus lhes disse: Por causa da vossa pouca fé. Porque na verdade vos digo, que se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a êste monte, passa daqui para acolá, e êle há de passar, e nada vos será impossível.[3]POR CAUSA DA VOSSA POUCA FÉ — A pouca fé, que mostraram neste caso os apóstolos, foi causa de que não curassem aquele mancebo, e a que mereceu a justa repreensão de Jesus Cristo.
20Mas esta casta de demônios não se lança fora, senão à fôrça de oração e de jejum.
21E achando-se êles juntos em Galiléia, disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue às mãos dos homens.
22E êstes lhe darão a morte, e ressuscitará ao terceiro dia. E êles se entristecerão em extremo.
23E tendo vindo para Cafarnaum, chegaram-se a Pedro os que cobravam o tributo das duas dracmas e disseram-lhe: Vosso Mestre não paga as duas dracmas?[4]DUAS DRACMAS — ou didracmas valiam aproximadamente cento e noventa réis. Esta didracma era a contribuição que as famílias judaicas pagavam para a manutenção do Templo. Vespasiano cobrou mais tarde êste imposto para o Capitólio. Os coletores dirigem-se a S. Pedro, fosse pelo respeito devido a Jesus, fosse para o discípulo ceder o lugar ao Mestre. A resposta de Jesus Cristo supõe a sua Divindade. Para não escandalizar os que a ignoravam, consente em pagar; mas faz observar que não estava sujeito ao imposto, e revela êste ato de condescendência por um milagre.
24Êle lhes respondeu: Paga. E depois que entrou em casa, Jesus o preveniu, dizendo: Que te parece, Simão? De quem recebem os reis da terra o tributo, ou censo? de seus filhos, ou dos estranhos?
25E Pedro lhe respondeu: Dos estranhos. Disse-lhe Jesus: Logo são isentos os filhos.
26Mas para que os não escandalizemos, vai ao mar, e lança o anzol: E o primeiro peixe que subir, toma-o: E abrindo-lhe a bôca, acharás dentro um estáter: Tira-o, e dá-lho por mim e por ti.[5]ESTÁTER — Ou tetradracma, moeda dos hebreus correspondente a quatro dracmas, aproximadamente seis tostões.