Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 25

A parábola das dez virgens. A outra dos talentos repartidos. Cada um será recompensado segundo os seus merecimentos. Jesus Cristo reconhecerá como feito a Êle, o que se fizer aos seus.

1Então será semelhante o reino dos Céus a dez virgens: Que tomando as suas lâmpadas, saíram a receber o espôso e a espôsa.[1]1A DEZ VIRGENS — Êste completo número compreende todos os fiéis cristãos, que se comparam às Virgens, por causa da pureza da sua fé, e da profissão que fazem de se abster de todos os deleites profanos. O espôso é Jesus Cristo; a espôsa a Igreja.

2Mas cinco de entre elas eram loucas, e cinco prudentes.

3As cinco porém que eram loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo:

4Mas as prudentes levaram azeite nas suas vasilhas juntamente com as lâmpadas.[2]2AZEITE — Êste azeite é a caridade que faz luzir, e que nutre a fé, para obrarmos bem.

5E tardando o espôso, começaram a tosquenejar tôdas, e assim vieram a dormir.[3]3E TARDANDO O ESPOSO — Esta tardança do espôso significa, segundo os santos Padres, o tempo que passará desde a primeira vinda do Filho de Deus até à segunda.

6Quando à meia-noite se ouviu gritar: Eis aí vem o espôso, saí a recebê-lo.

7Então se levantaram tôdas aquelas virgens, e prepararam as suas lâmpadas.

8E disseram as fátuas às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam.

9Responderam as prudentes, dizendo: Para que não suceda talvez faltar-nos êle a nós, e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai o que haveis mister.

10E enquanto elas foram a comprá-lo, veio o espôso, e as que estavam apercebidas entraram com êle a celebrar as bodas, e fechou-se a porta.[4]4E ENQUANTO ELAS FORAM — S. Jerônimo o explica, dizendo: que depois do dia do juízo, está fechada a porta, e não fica lugar para as boas obras e justiça. Pelo nome de lâmpada se entende a Fé, e pelo de ôleo a Caridade. — Bossuete.

A CELEBRAR AS BODAS — Entraram no banquete, e gôzo do Céu. O fim porém desta parábola é mostrar a necessidade que todos têm de trabalhar, cada um segundo o seu talento, e segundo o seu emprêgo. — Sacy.

11E por fim vieram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos.

12Mas êle respondendo, lhes disse: Na verdade vos digo, que vos não conheço.

13Vigiai pois, porque não sabeis o dia, nem a hora.

14Porque assim é como um homem que, ao ausentar-se para longe, chamou aos seus servos, e lhes entregou os seus bens.

15E deu a um cinco talentos, e a outro dois, e a outro deu um, a cada um segundo a sua capacidade, e partiu logo.[5]5TALENTOS — Cada talento valia quase dez tostões.

SEGUNDO A SUA CAPACIDADE — Segundo a medida da fé, e da graça, que cada um haja recebido; porque Deus não nos manda coisas impossíveis, nem nos põe uma carga que não possamos levar, ajudados da sua graça.

16O que recebera pois cinco talentos, foi-se e entrou a negociar com êles, e ganhou outros cinco.

17Da mesma sorte também o que recebera dois, ganhou outros dois.

18Mas o que havia recebido um, indo-se com êle cavou na terra, e escondeu ali o dinheiro de seu senhor.

19E passando muito tempo veio o Senhor daqueles servos, e chamou-os a contas.

20E chegando-se a êle o que havia recebido os cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, tu me entregaste cinco talentos, eis aqui tens outros cinco mais que lucrei.

21Seu senhor lhe disse: Muito bem, servo bom, e fiel, já que foste fiel nas cousas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gôzo de teu Senhor.

22Da mesma sorte apresentou-se também o que havia recebido dois talentos, e disse: Senhor, tu me entregaste dois talentos, eis aqui outros dois, que ganhei com êles.

23Seu Senhor lhe disse: Bem está, servo bom, e fiel, já que foste fiel nas cousas pequenas, dar-te-ei a intendência das grandes; entra no gôzo de teu senhor.

24E chegando também o que havia recebido um talento, disse: Senhor, sei que és um homem de rija condição, segas onde não semeaste, e recolhes onde não espalhaste:

25E temendo me fui, e escondi o teu talento na terra: Eis aqui tens o que é teu.

26E respondendo seu Senhor, lhe disse: Servo mau, e preguiçoso, sabias que sego onde não semeio, e que recolho onde não tenho espalhado:

27Devias logo dar o meu dinheiro aos banqueiros, e vindo eu teria recebido certamente com juro o que era meu.

28Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem dez talentos.

29Porque a todo o que já tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância: E ao que não tem, tirar-se-lhe-á até o que parece que tem.

30E ao servo inútil lançai-o nas trevas exteriores: Ali haverá chôro, e ranger de dentes.

31Mas quando vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com êle, então se assentará sôbre o trono da sua majestade:

32E serão tôdas as gentes congregadas diante dêle, e separará uns dos outros, como o pastor aparta dos cabritos as ovelhas:

33E assim porá as ovelhas à direita, e os cabritos à esquerda.

34Então dirá o rei aos que hão de estar à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possui o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo:

35Porque tive fome, e destes-me de comer: Tive sêde, e destes-me de beber: Era hóspede, e recolhestes-me:

36Estava nu, e cobristes-me: Estava enfermo, e visitastes-me: Estava no cárcere, e viestes ver-me.

37Então lhe responderão os justos, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, e te demos de comer: Ou sequioso, e te demos de beber?

38E quando te vimos hóspede, e te recolhemos: Ou nu, e te vestimos?

39Ou quando te vimos enfermo: Ou no cárcere, e te fomos ver?

40E respondendo o rei, lhes dirá: Na verdade vos digo, que quantas vêzes vós fizestes isto a um dêstes meus irmãos mais pequeninos, a mim é que o fizestes.

41Então dirá também aos que hão de estar à esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo, e para os seus anjos:

42Porque tive fome, e não me destes de comer: Tive sêde, e não me destes de beber:

43Era hóspede, e não me recolhestes; estava nu, e não me cobristes: Estava enfermo, e no cárcere, e não me visitastes.

44Então êles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando é que nós te vimos faminto, ou sequioso, ou hóspede, ou nu, ou enfermo, ou no cárcere, e deixamos de te assistir?

45Então lhes responderá êle, dizendo: Na verdade vos digo: Que quantas vêzes o deixastes de fazer a um dêstes pequeninos, a mim o deixastes de fazer.

46E irão êstes para o suplício eterno, e os justos para a vida eterna.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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