Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

Para o experimentarem, pedem os fariseus e saduceus a Jesus Cristo que lhes faça ver algum prodígio do Céu. Êle os repreende. Pergunta do Senhor aos Apóstolos sôbre a sua pessoa. Resposta de Pedro confessando a Divindade do Senhor. Louva Jesus Cristo a sua fé, e promete-lhe as chaves do reino dos Céus. Depois o repreende, chamando-o Satanás, por êle se opor à sua Paixão e Morte. Ensina-nos que deve cada um levar a sua cruz e que cada um pagará a Deus, segundo forem as suas obras.

1Então se chegaram a Jesus os fariseus e saduceus para o tentarem: E pediram-lhe que lhes fizesse ver algum prodígio do Céu.[1]Para o tentaremA fazerem experiência da sua virtude, e do seu poder. — Duhamel.

2Mas êle, respondendo, lhes disse: Vós, quando vai chegando a noite, dizeis: Haverá tempo sereno, porque está o Céu rubicundo.

3E quando é de manhã: Hoje haverá tormenta, porque o Céu mostra um avermelhado triste.

4Sabeis logo conhecer que coisa prognostica o aspecto do Céu: E não podeis conhecer os sinais dos tempos? Esta geração perversa e adúltera pede um prodígio: E não se lhe dará outro prodígio, senão o prodígio do profeta Jonas. E deixando-os ali, se retirou.[2]Os sinais dos temposIsto é, os tempos da minha vinda que os profetas deixaram assinalados; como o tempo designado ao vaticínio de Jacó, e o das setenta semanas de Daniel. Por isso a Versão Arábica diz neste lugar, os sinais dêste tempo. — Amelote.

5Ora, seus discípulos, tendo passado à banda dalém do estreito, esqueceu-lhes trazer pão.

6Jesus lhes disse: Vêde, e guardai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.

7Mas êles discorriam lá entre si, dizendo: É que não trouxemos pão.

8E entendendo-os Jesus, disse-lhes: Homens de pouca fé, por que estais considerando lá convosco, que não tendes pão?

9Ainda não compreendeis, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens, e quantos foram os cêstos que tomastes?

10Nem dos sete pães para quatro mil homens, e quantas alcôfas recolhestes?

11Por que não compreendeis que não é pelo pão que eu vos disse: Guardai-vos do fermento dos fariseus, e dos saduceus?

12Então entenderam que não havia dito que se guardassem do fermento dos pães, senão da doutrina dos fariseus, e dos saduceus.

13E veio Jesus para as partes de Cesaréia de Filipe: E fez a seus discípulos esta pergunta, dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do homem?[3]Cesaréia de Filipe — Quem dizem os homensCESARÉIA DE FILIPE — Ao pé do Líbano, perto duma das nascentes do Jordão, na Gaulanitida, que primitivamente se chamava Panéias. O tetrarca Filipe chamou-lhe Cesaréia em homenagem a Tibério César, e acrescentou-lhe o nome Filipe para a distinguir doutra Cesaréia, construída sôbre o Mediterrâneo, por Herodes o Grande, entre Jope e Dôra. Atualmente a Cesaréia de Filipe retomou o seu nome primitivo sob a forma Banias e conta cêrca de 150 fogos.

QUEM DIZEM OS HOMENS — Jesus Cristo queria preparar a Pedro, a quem destinava para a alta missão do Chefe Supremo, inconfundível, da sua Igreja, a primeira ocasião de se salientar entre os demais apóstolos, para provocar da parte de Jesus a primeira e solene distinção.

14E êles responderam: Uns dizem que João Batista, mas outros que Elias, e outros que Jeremias, ou algum dos profetas.

15Disse-lhes Jesus: E vós quem dizeis que sou eu?[4]E vósAqui está a interrogação direta a Pedro, como que recorrendo para êle em suprema instância, o que é o reconhecimento da primazia de Pedro.

16Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.[5]O Filho de Deus vivoJesus Cristo proporcionou a Pedro a ocasião de confessar a natureza divina do Salvador. Nem doutro modo se podem interpretar as palavras do texto, proferidas por S. Pedro. O artigo que precede no original a palavra Filho, diz Teofilacto, indica claramente que se trata do Filho Único de Deus, da mesma maneira que o artigo que precede a palavra Cristo, mostra que se trata, não dum rei ou sacerdote vulgar, mas do Messias, Rei e Sacerdote por excelência. De resto, se S. Pedro dissesse sòmente que Jesus Cristo era um Filho de Deus, filho de adoção como somos todos, não diria mais, ao contrário, diria menos, do que disseram os precedentes, e então que razão teria Jesus Cristo para louvar a sua fé, e de lhe dizer que foi o Céu que lhe havia revelado semelhante verdade? É certo que S. João Batista confessava a divindade do Messias, Mat 3, 17; Jo 3, 31. 35. 36; também é averiguado que S. Pedro falava em nome de seus colegas, Mat 16, 15, mas o que se pode afirmar é que Pedro vai além de todos, que o seu testemunho é mais expresso, mais solene, a sua fé mais ardente, enérgica, e o seu entusiasmo mais vivo e eloquente. Por S. João diz: Primus est Domine confessione qui primus erat in apostolica dignitate. E o primeiro em confessar a divindade de Cristo, o que era o primeiro na dignidade apostólica. Na verdade Jesus pergunta: E vós quem dizeis que eu sou? e Pedro não responde: eu direi que vós sois Cristo, mas sim pela mais concludente forma: Tu és o Cristo, Messias, e acrescenta imediatamente, o Filho de Deus vivo, epíteto com que os israelitas distinguiam o verdadeiro Deus das falsas divindades do paganismo.

17E respondendo Jesus, lhe disse: Bem-aventurado és Simão, filho de João: Porque não foi a carne e sangue quem to revelou, mas sim meu Pai que está nos Céus.[6]Bem-aventurado és Simão, filho de JoãoBem-aventurado, porque êste conhecimento só o tiveste pela revelação de meu Pai Celestial: não foi a carne e sangue; isto é: nem teus pais, nem algum outro homem foi o que to ensinou, ou persuadiu; mas sòmente meu Pai foi o que te revelou. O nome Bar-Jona consta de duas dicções, das quais Bar é aramaica, e significa filho o mesmo que Ben em hebreu; e Jona por Johhanam: João.

18Também eu te digo que tu és Pedro, e sôbre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.[7]Tu és PedroJesus Cristo muda o nome ao que havia de ser desde aquele momento Príncipe dos Apóstolos. A mudança do nome implicava sempre o exercício duma alta missão. Portanto, segundo os usos vigentes, Jesus Cristo mudando o nome de Simão em Pedro indicava que o queria como um homem novo ao qual ia destinar um elevado cargo no seu serviço. É sabido que também na Escritura sempre a cerimônia da mudança do nome designava a escolha para uma especial missão; basta citar o exemplo de Abraão. Cfr. Gên 17, 5; 23, 28; 35, 10; 41, 45; 48, 7; ainda se podem ver 4 Rs 23, 34; Dan 1, 6. 7, etc. Cumpre notar que esta distinção só foi conferida a Pedro, portanto temos aqui o segundo reconhecimento da primazia dêste apóstolo.

SÔBRE ESTA PEDRA — No aramaico que se falava no tempo de Jesus Cristo não havia diferença de gênero entre o nome próprio Pedro e o comum pedra, o que torna a alusão mais natural. Temos então o Apóstolo, a quem se mudou o nome para ser constituída a pedra angular sôbre a qual há de se edificar a Igreja. Pedro é o fundamento da Igreja, e como tal foi reconhecido pelos próprios Apóstolos, que nunca reclamaram contra o seu primado, reconhecido pelos Evangelistas, que o nomeiam sempre em primeiro lugar. Da mesma maneira o veneraram e escutaram os primeiros cristãos, os primeiros mártires, os primeiros apologetas, os primeiros Padres, que deixaram testemunhos insuspeitos de acatamento, por todos mantido ao primado de Pedro.

19E eu te darei as chaves do reino dos Céus. E tudo o que ligares sôbre a terra, será ligado também nos Céus; E tudo o que desatares sôbre a terra, será desatado também nos Céus.[8]As chavesEntre os povos orientais as chaves simbolizavam sempre o poderio, e a entrega das chaves a investidura em suprema autoridade. Jesus Cristo dizendo que entregou as chaves a Pedro, investiu-o na chefatura do colégio apostólico. E aqui está outro testemunho da colação do primado universal de Pedro, que não há de ter fim e que subsistirá enquanto houver homens. E fique isto desde já. Jesus Cristo não fala só para uma época, pois assegura absoluta perduração à Igreja, contra a qual não prevalecerão as portas do inferno; e agora diz tudo, isto é, em todos os tempos, pois não faz restrição alguma, e promete mais tarde a assistência da sua Igreja até à consumação dos séculos. Ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi. Mat 27, 20. Portanto o primado que estabelece não é pessoal nem temporário, pois constituir um primado temporário numa sociedade que deveria ser perpétua seria uma anomalia inconceível. Um edifício perpétuo deve ter um alicerce perpétuo: um rebanho permanente carece dum pastor supremo igualmente permanente, que seja a cabeça visível dêsse místico corpo. Cfr. Philips Du droit ecclesiastique dans ses principes generaux, vol. 1.° §20.

E TUDO O QUE LIGARES — Esta locução metafórica, e o sentido que faz é este: Deus só é o que pode perdoar os pecados, e assim te dou êsse poder; e para isto podes exortar, corrigir e castigar aos rebeldes, usando de toda a autoridade do mesmo Deus para lhes conceder ou negar a absolvição, segundo as regras do Evangelho, e a luz do Espírito Santo. É isto e o que geralmente se entende por êstes termos figurados de 'atar' e 'desatar'. E acrescenta o Senhor que tudo seria confirmado por êle, que é a cabeça suprema de toda a Igreja, e está no Céu sentado à mão direita do Padre.

20Então mandou a seus discípulos que a ninguém dissessem que êle era Jesus Cristo.[9]Que a ninguém dissessem que era Jesus CristoOcorre imediatamente perguntar quais as razões desta estranha proibição. Apontam os exegetas as seguintes razões: 1.ª Interêsse das almas, que não estavam preparadas para reconhecer a sua divina natureza e submeter-se à sua autoridade. Preferia persuadi-los por obras, que fazer-se proclamar pelos discípulos, Mat 12, 23; Jo 4, 29; 6, 31. 46. 2.ª Interêsse dos apóstolos, que antes da descida do Espírito Santo eram rudes, e sem a fôrça necessária para vencerem as subtilezas dos adversários. 3.ª Interêsse pela sua própria causa, falando humanamente porque se Jesus Cristo se proclamasse desde logo pùblicamente o Messias, originar-se-iam perturbações, levantamentos populares, insurreições, etc. Daqui deduzia a Igreja a disciplina do arcano, isto é, a imposição do segredo nos primeiros séculos acêrca dos Santos Mistérios da fé católica, sôbre os quais ou nada podiam dizer, ou alguma coisa muito pouco apenas.

21Desde então começou Jesus a declarar a seus discípulos que convinha ir êle a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, dos escribas, e dos príncipes dos sacerdotes, e ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.[10]Os anciãosSão os membros do sanedrim que de ordinário eram velhos, porque êstes eram os escolhidos de preferência para chefes da cidade e juízes. Nos Atos esta expressão tem outro sentido, como veremos.

22E tomando-o Pedro de parte, começou a increpá-lo, dizendo: Deus tal não permita, Senhor; não sucederá isto contigo.

23Êle voltando-se para Pedro lhe disse: Tira-te de diante de mim, satanás, que me serves de escândalo: Porque não tens gôsto das coisas que são de Deus, mas das que são dos homens.[11]SatanásSatanás quer dizer, adversário ou inimigo, e êste nome de Jesus a Pedro, por se querer opor à sua Paixão e Morte. — S. Hilário e S. Bernardo.

24Então disse Jesus aos seus discípulos: Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.[12]Negue-se a si mesmoIsto é, às suas inclinações corrompidas; à sua própria vontade no que ela é contrária a Deus: em uma palavra, a tudo o que se opõe à nossa salvação. Porque quando se trata de servir e obedecer a Deus, nenhum caso se deve fazer nem dos bens temporais, nem da honra mundana, nem da mesma vida. — Sacy.

25Porque o que quiser salvar a sua alma, perdê-la-á, e o que perder a sua alma por amor de mim, achá-la-á.[13]Salvar a sua almaOu vida, isto é, viver segundo as paixões do homem velho, que são os apetites desordenados. — Duhamel.

26Porque, de que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, se vier a perder a sua alma? Ou que comutação fará o homem para recobrar a sua alma?

27Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com os seus Anjos: E então dará a cada um a paga, segundo as suas obras.

28Em verdade vos afirmo, que dos que aqui estão, há alguns que não hão de gostar a morte, antes que vejam vir o Filho do homem na glória do seu reino.[14]Antes que vejam virAlguns Padres antigos, como Orígenes, Santo Hilário, S. Jerônimo, entendem por esta glória do reino de Cristo, a glória da sua transfiguração, que brevemente haviam de presenciar alguns discípulos. Calmet com outros modernos, entendem-no da vinda do Senhor contra Jerusalém, a cuja destruição feita pelos romanos, sobreviveram alguns discípulos, como S. João Evangelista.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

📄 PDF
📄 Original