Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Como havemos de dar a esmola, e como havemos de orar. Do bom espírito do jejum. Que não devemos ajuntar tesouros, senão no Céu. Que o nosso ôlho deve ser simples. Que não podemos servir a dois senhores. Que não devemos inquietar-nos pelo que havemos de comer, ou vestir, ou pelo que há-de ser de nós.

1Guardai-vos, não façais as vossas boas obras diante dos homens, com o fim de serdes vistos por êles: Doutra sorte não tereis a recompensa da mão de vosso Pai, que está nos Céus.[1]Guardai-vosGUARDAI-VOS — Condena-se aqui a hipocrisia e a vaidade na prática das obras meritórias.

2Quando pois dás a esmola, não faças tocar a trombeta diante de ti, como praticam os hipócritas nas Sinagogas, e nas ruas, para serem honrados dos homens: Em verdade vos digo, que êles já receberam a sua recompensa.

3Mas quando dás a esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita:

4Para que a tua esmola fique escondida, e teu Pai, que vê o que tu fazes em secreto, ta pagará.

5E quando orais, não haveis de ser como os hipócritas, que gostam de orar em pé nas Sinagogas, e nos cantos das ruas, para serem vistos dos homens: Em verdade vos digo, que êles já receberam a sua recompensa.

6Mas tu quando orares, entra no teu aposento, e, fechada a porta, ora a teu Pai em secreto: E teu Pai, que vê o que se passa em secreto, te dará a paga.[2]no teu aposentoENTRA NO TEU APOSENTO — Jesus Cristo não proíbe as ações públicas, que se fazem nas assembléias dos fiéis, pois que Êle mesmo diz que estará no meio de dois ou três que se reunam para orar em seu nome, mas quer que nas orações particulares e, de simples devoção cada um se retire para rezar com mais recolhimento e evitar qualquer ostentação. Também não condena as longas súplicas, pois orou de dia e de noite; protesta ùnicamente contra o abuso que cometiam os judeus imitando os pagãos, que julgavam tornar os deuses propícios falando muito durante a oração.

7E quando orais não faleis muito, como os gentios: Pois cuidam que pelo seu muito falar serão ouvidos.

8Não queirais portanto parecer-vos com êles: Porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, primeiro que vós lh'o peçais.

9Assim pois é que vós haveis de orar: Padre nosso que estais nos Céus: Santificado seja o vosso nome.

10Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade, assim na terra, como no céu.

11O pão nosso, necessário à nossa subsistência, nos dai hoje.[3]necessário à nossa subsistênciaNECESSÁRIO À NOSSA SUBSISTÊNCIA — Seguimos a tradução de Glaire: Donnez-nous aujourd'hui le pain nécessaire à notre subsistance, 19-2.

12E perdoai as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.

13E não nos deixeis cair em tentação. Mas livrai-nos do mal, amém.

14Porque se vós perdoardes aos homens as ofensas que tendes dêles: Também vosso Pai celestial, vos perdoará os vossos pecados.

15Mas se não perdoardes aos homens: Tampouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados.

16E quando jejuais, não vos ponhais tristes como os hipócritas: Porque êles desfiguram os seus rostos, para fazer ver aos homens, que jejuam. Na verdade vos digo, que já receberam a sua recompensa.

17Mas tu, quando jejuas, unge a tua cabeça, e lava o teu rosto.

18A fim de que não pareças aos homens que jejuas, mas sòmente a teu Pai que está presente a tudo o que há de mais secreto; E teu Pai que vê o que se passa em secreto te dará a paga.

19Não queirais entesourar para vós tesouros na terra: Onde a ferrugem, e a traça os consome: E onde os ladrões os desenterram, e roubam.

20Mas entesourai para vós tesouros no Céu: Onde não os consome a ferrugem, nem a traça, e onde os ladrões não os desenterram, nem roubam.

21Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração.

22O teu ôlho é a luz do teu corpo. Se o teu ôlho fôr simples: Todo o teu corpo será luminoso.[4]o teu ôlhoO TEU ÔLHO — Pelo ôlho entende Santo Agostinho, com êle Santo Izidoro, a intenção com que obramos; pelo corpo as obras que fazemos. E chama-se ôlho simples o que é de todo puro e limpo.

23Mas se o teu ôlho for mau: Todo o teu corpo estará em trevas. Se pois a luz, que em ti há, são trevas: Quão grandes não serão essas mesmas trevas?

24Ninguém pode servir a dois senhores: Porque ou há de aborrecer um, e amar outro: Ou há de acomodar-se a êste, e desprezar aquêle. Não podeis servir a Deus, e às riquezas.

25Portanto vos digo, não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma que a comida? E o corpo mais que o vestido?

26Olhai para as aves do Céu, que não semeiam, nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros: E contudo vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas?

27E qual de vós discorrendo pode acrescentar um côvado à sua estatura?

28E por que andais vós solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: Êles não trabalham, nem fiam.

29Digo-vos mais, que nem Salomão em tôda a sua glória se cobriu jamais como um dêstes.

30Pois se ao feno do campo, que hoje é, e amanhã é lançado no forno, Deus veste assim: Quanto mais a vós, homens de pouca fé?

31Não vos aflijais pois, dizendo: Que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos cobriremos?

32Porque os gentios é que se cansam por estas coisas. Porquanto vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas.

33Buscai pois primeiramente o reino de Deus, e a sua justiça: E tôdas estas coisas se vos acrescentarão.

34E assim não andeis inquietos pelo dia de amanhã. Porque o dia de amanhã a si mesmo trará seu cuidado: Ao dia basta a sua própria aflição.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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