Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 8

Sara Jesus Cristo um leproso. Admira, e louva a fé do centurião. Cura a sogra de Pedro. Expele os demônios. Manda a um que o siga, e que se deixe de ir enterrar seu pai. Faz serenar uma tempestade no mar. Permite aos demônios que saiam de um possesso, e que se vão meter numa manada de porcos.

1E depois que Jesus desceu do monte, foi muita a gente do povo que o seguiu:

2E eis-que vindo um leproso, o adorava, dizendo: Se tu queres, Senhor, bem me podes limpar.[1]um leprosoUM LEPROSO — A lepra era muito vulgar na Palestina. O que sofria desta horrível enfermidade incorria nas impurezas legais.

3E Jesus estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Pois eu quero. Fica limpo. E logo ficou limpa tôda a sua lepra.[2]e logo ficou limpaE LOGO FICOU — A ação imediata do poder de Deus, transcendendo as fôrças da natureza.

4Então lhe disse Jesus: Vê não o digas a alguém: Mas vai, mostra-te ao sacerdote, e faze a oferta que ordenou Moisés, para lhes servir de testemunho a êles.[3]não o digas a alguémNÃO O DIGAS A ALGUÉM — Jesus impõe êste silêncio pelas seguintes razões: 1.° Por modéstia, a fim de nos ensinar a evitar a publicidade das nossas obras meritórias, até onde o permitirem os interêsses da causa de Deus. 2.° Por prudência, para que se não excitasse o ódio dos seus inimigos, que começava já manifestando-se.

MOSTRA-TE AO SACERDOTE — Jesus Cristo curou o leproso por um ato libérrimo da sua divina vontade, envia porém o leproso ao sacerdote: — 1.° Para que êle respeitasse a lei, que proibia aos leprosos aproximarem-se do povo, Lev 14, 2. 2.° Porque sem esta formalidade não podia participar das coisas santas. 3.° A fim de que os seus inimigos constatassem o milagre. 4.° Para completar a figura esboçada neste fato miraculoso; a lepra é a figura da culpa, e o pecado só podia ser remitido pelo ministério dos sacerdotes.

5Tendo porém entrado em Cafarnaum, chegou-se a êle um centurião, fazendo-lhe esta súplica,[4]um centuriãoUM CENTURIÃO — Êste era um oficial do exército, o capitão de cem soldados. As Legiões Romanas eram mandadas por Tribunos, que correspondem aos nossos coronéis, e repartidas em companhias de cem homens, donde veio o nome de centuriões aos seus capitães. Ainda que Herodes Antipas era tetrarca da Galiléia, isto não obstante os romanos, como próprios e verdadeiros soberanos, mantinham aí as suas tropas.

6e dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa doente de uma paralisia, e padece muito com ela.[5]padece muito com elaE PADECE MUITO COM ELA — A paralisia nem sempre priva o enfermo da sensibilidade; pode haver a falta do movimento e existir sensibilidade. Assim êste paralítico podia sofrer extremamente, mesmo nas partes paralisadas, para o que bastava uma afecção nos nervos motores, que não atingisse os sensitivos, e resultar daí dores violentíssimas.

7Respondeu-lhe então Jesus: Eu irei, e o curarei.

8E respondendo o centurião, disse: Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa: Porém manda-o só com a tua palavra, e o meu criado será salvo.

9Pois também eu sou homem sujeito a outro, que tenho soldados às minhas ordens e digo a um: Vai acolá, e êle vai: E a outro: Vem cá, e êle vem: E ao meu servo: Faze isto, e êle o faz.

10E Jesus, ouvindo-o assim falar, admirou-se, e disse para os que o seguiam: Em verdade vos afirmo, que não achei tamanha fé em Israel.[6]não achei tamanha fé em IsraelNÃO ACHEI TAMANHA FÉ EM ISRAEL — Na verdade o discurso procedente do centurião traduz uma confiança ilimitada em Jesus, a quem pedia auxílio, não como homem, pois não se considera digno de que Jesus entre em sua casa, mas como Deus, que tudo pode. Portanto temos diante de Jesus um homem de posição elevada manifestando a sua fé em Jesus, o que não foi, segundo parece, um entusiasmo de momento, mas já vinha de tempo anterior, o que quer dizer que a fama de Jesus já se espalhara de tal sorte que, quando chegou a Cafarnaum, já era conhecida a sua singular nomeada. Devemos notar aqui que a civilização judaica no tempo de Jesus era completa, circunstância que cumpre assinalar e não esquecer. Ao mesmo tempo vigoravam falsos princípios, e gérmen da descrença, acentuando-se dia a dia, com o aparecimento de novas seitas, todas ambiciosas. Esperavam o Messias, é certo, mas aguardavam um Messias guerreiro e conquistador, cheio de poder, riqueza, prestígio e orgulho, que devia levantar a Judéia à grandeza de outrora, fazendo renascer os famosos dias de Salomão e libertando o Povo da dominação romana. Pois é nesta cidade esclarecida, propensa ao ceticismo, aferrada às velhas tradições que aparece a enorme fé do centurião, acreditando no poder de Jesus, que nascera na pobreza e na pobreza vivia.

11Digo-vos, porém, que virão muitos do Oriente, e do Ocidente, e que terão lugar com Abraão, e Isaac e Jacó no reino dos Céus.

12Mas que os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: Ali haverá chôro, e ranger de dentes.

13Então disse Jesus ao centurião: Vai, e faça-se-te segundo tu crêste. E naquela mesma hora ficou são o criado.

14E tendo chegado Jesus à casa de Pedro, viu que a sogra dêle estava de cama, e com febre:

15E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou, e ela se levantou, e se pôs a servi-los.

16Sôbre a tarde porém lhe puseram diante muitos endemoninhados: E êle com a sua palavra expelia os espíritos: E curou todos os enfermos:

17Para se cumprir o que estava anunciado pelo profeta Isaías, que diz: Êle mesmo tomou as nossas enfermidades: E carregou com as nossas doenças.

18Ora vendo-se Jesus rodeado de muito povo, mandou-lhes que passassem para a banda dalém do lago.

19Então chegando-se a êle um escriba, lhe disse: Mestre, eu seguir-te-ei para onde quer que fôres.

20Ao que Jesus lhe respondeu: As rapôsas têm covas, e as aves do Céu, ninhos: Porém o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

21E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro a enterrar meu pai.

22Mas Jesus lhe respondeu: Segue-me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.

23E entrando êle numa barca, o seguiram seus discípulos:

24E eis-que sobreveio no mar uma grande tempestade, de modo que a barca se cobria das ondas, e entretanto êle dormia.

25Então se chegaram a êle seus discípulos, e o acordaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos.

26E Jesus lhes disse: Por que temeis, homens de pouca fé? E levantando-se, pôs preceito ao mar, e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança.

27E os homens se admiraram, dizendo: Quem é êste que os ventos e o mar lhe obedecem?

28E quando Jesus passou à outra parte do lago, ao país dos gerasenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, que saíam dos sepulcros, em extremo furiosos, de tal maneira que ninguém ousava passar por aquêles caminhos.[7]que saíam dos sepulcrosQUE SAÍAM DOS SEPULCROS — Eram êstes muito espaçosos, e como umas grandes grutas, ou cavernas, como se vê em muitos lugares da Escritura, e da história sagrada. Distavam das cidades, e dos povoados, para que os cadáveres não infeccionassem o ar com a sua corrupção, e porque os que se chegavam a êles ficavam impuros, segundo a lei. Num 19, 11.

29E gritaram logo ambos, dizendo: Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?

30Ora em alguma distância dêles andava uma manada de muitos porcos pastando.

31E os demônios o rogavam, dizendo: Se nos lanças daqui, manda-nos para a manada dos porcos.

32E êle lhes disse: Ide. E saindo êles se foram aos porcos, e no mesmo ponto tôda a manada correu impetuosamente por um despenhadeiro a precipitar-se no mar: E morreram afogados nas águas.

33E os pastores fugiram: E vindo à cidade, contaram tudo, e o sucesso dos que tinham sido endemoninhados.

34E logo tôda a cidade saiu a encontrar-se com Jesus: E quando o viram, pediram-lhe que se retirasse do seu têrmo.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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