Capítulo 8
1E depois que Jesus desceu do monte, foi muita a gente do povo que o seguiu:
2E eis-que vindo um leproso, o adorava, dizendo: Se tu queres, Senhor, bem me podes limpar.[1]um leproso — UM LEPROSO — A lepra era muito vulgar na Palestina. O que sofria desta horrível enfermidade incorria nas impurezas legais.
3E Jesus estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Pois eu quero. Fica limpo. E logo ficou limpa tôda a sua lepra.[2]e logo ficou limpa — E LOGO FICOU — A ação imediata do poder de Deus, transcendendo as fôrças da natureza.
4Então lhe disse Jesus: Vê não o digas a alguém: Mas vai, mostra-te ao sacerdote, e faze a oferta que ordenou Moisés, para lhes servir de testemunho a êles.[3]não o digas a alguém — NÃO O DIGAS A ALGUÉM — Jesus impõe êste silêncio pelas seguintes razões: 1.° Por modéstia, a fim de nos ensinar a evitar a publicidade das nossas obras meritórias, até onde o permitirem os interêsses da causa de Deus. 2.° Por prudência, para que se não excitasse o ódio dos seus inimigos, que começava já manifestando-se.
MOSTRA-TE AO SACERDOTE — Jesus Cristo curou o leproso por um ato libérrimo da sua divina vontade, envia porém o leproso ao sacerdote: — 1.° Para que êle respeitasse a lei, que proibia aos leprosos aproximarem-se do povo, Lev 14, 2. 2.° Porque sem esta formalidade não podia participar das coisas santas. 3.° A fim de que os seus inimigos constatassem o milagre. 4.° Para completar a figura esboçada neste fato miraculoso; a lepra é a figura da culpa, e o pecado só podia ser remitido pelo ministério dos sacerdotes.
5Tendo porém entrado em Cafarnaum, chegou-se a êle um centurião, fazendo-lhe esta súplica,[4]um centurião — UM CENTURIÃO — Êste era um oficial do exército, o capitão de cem soldados. As Legiões Romanas eram mandadas por Tribunos, que correspondem aos nossos coronéis, e repartidas em companhias de cem homens, donde veio o nome de centuriões aos seus capitães. Ainda que Herodes Antipas era tetrarca da Galiléia, isto não obstante os romanos, como próprios e verdadeiros soberanos, mantinham aí as suas tropas.
6e dizendo: Senhor, o meu criado jaz em casa doente de uma paralisia, e padece muito com ela.[5]padece muito com ela — E PADECE MUITO COM ELA — A paralisia nem sempre priva o enfermo da sensibilidade; pode haver a falta do movimento e existir sensibilidade. Assim êste paralítico podia sofrer extremamente, mesmo nas partes paralisadas, para o que bastava uma afecção nos nervos motores, que não atingisse os sensitivos, e resultar daí dores violentíssimas.
7Respondeu-lhe então Jesus: Eu irei, e o curarei.
8E respondendo o centurião, disse: Senhor, eu não sou digno de que entres na minha casa: Porém manda-o só com a tua palavra, e o meu criado será salvo.
9Pois também eu sou homem sujeito a outro, que tenho soldados às minhas ordens e digo a um: Vai acolá, e êle vai: E a outro: Vem cá, e êle vem: E ao meu servo: Faze isto, e êle o faz.
10E Jesus, ouvindo-o assim falar, admirou-se, e disse para os que o seguiam: Em verdade vos afirmo, que não achei tamanha fé em Israel.[6]não achei tamanha fé em Israel — NÃO ACHEI TAMANHA FÉ EM ISRAEL — Na verdade o discurso procedente do centurião traduz uma confiança ilimitada em Jesus, a quem pedia auxílio, não como homem, pois não se considera digno de que Jesus entre em sua casa, mas como Deus, que tudo pode. Portanto temos diante de Jesus um homem de posição elevada manifestando a sua fé em Jesus, o que não foi, segundo parece, um entusiasmo de momento, mas já vinha de tempo anterior, o que quer dizer que a fama de Jesus já se espalhara de tal sorte que, quando chegou a Cafarnaum, já era conhecida a sua singular nomeada. Devemos notar aqui que a civilização judaica no tempo de Jesus era completa, circunstância que cumpre assinalar e não esquecer. Ao mesmo tempo vigoravam falsos princípios, e gérmen da descrença, acentuando-se dia a dia, com o aparecimento de novas seitas, todas ambiciosas. Esperavam o Messias, é certo, mas aguardavam um Messias guerreiro e conquistador, cheio de poder, riqueza, prestígio e orgulho, que devia levantar a Judéia à grandeza de outrora, fazendo renascer os famosos dias de Salomão e libertando o Povo da dominação romana. Pois é nesta cidade esclarecida, propensa ao ceticismo, aferrada às velhas tradições que aparece a enorme fé do centurião, acreditando no poder de Jesus, que nascera na pobreza e na pobreza vivia.
11Digo-vos, porém, que virão muitos do Oriente, e do Ocidente, e que terão lugar com Abraão, e Isaac e Jacó no reino dos Céus.
12Mas que os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: Ali haverá chôro, e ranger de dentes.
13Então disse Jesus ao centurião: Vai, e faça-se-te segundo tu crêste. E naquela mesma hora ficou são o criado.
14E tendo chegado Jesus à casa de Pedro, viu que a sogra dêle estava de cama, e com febre:
15E tocou-lhe na mão, e a febre a deixou, e ela se levantou, e se pôs a servi-los.
16Sôbre a tarde porém lhe puseram diante muitos endemoninhados: E êle com a sua palavra expelia os espíritos: E curou todos os enfermos:
17Para se cumprir o que estava anunciado pelo profeta Isaías, que diz: Êle mesmo tomou as nossas enfermidades: E carregou com as nossas doenças.
18Ora vendo-se Jesus rodeado de muito povo, mandou-lhes que passassem para a banda dalém do lago.
19Então chegando-se a êle um escriba, lhe disse: Mestre, eu seguir-te-ei para onde quer que fôres.
20Ao que Jesus lhe respondeu: As rapôsas têm covas, e as aves do Céu, ninhos: Porém o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.
21E outro de seus discípulos lhe disse: Senhor, deixa-me ir primeiro a enterrar meu pai.
22Mas Jesus lhe respondeu: Segue-me e deixa que os mortos sepultem os seus mortos.
23E entrando êle numa barca, o seguiram seus discípulos:
24E eis-que sobreveio no mar uma grande tempestade, de modo que a barca se cobria das ondas, e entretanto êle dormia.
25Então se chegaram a êle seus discípulos, e o acordaram, dizendo: Senhor, salva-nos, que perecemos.
26E Jesus lhes disse: Por que temeis, homens de pouca fé? E levantando-se, pôs preceito ao mar, e aos ventos, e logo se seguiu uma grande bonança.
27E os homens se admiraram, dizendo: Quem é êste que os ventos e o mar lhe obedecem?
28E quando Jesus passou à outra parte do lago, ao país dos gerasenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados, que saíam dos sepulcros, em extremo furiosos, de tal maneira que ninguém ousava passar por aquêles caminhos.[7]que saíam dos sepulcros — QUE SAÍAM DOS SEPULCROS — Eram êstes muito espaçosos, e como umas grandes grutas, ou cavernas, como se vê em muitos lugares da Escritura, e da história sagrada. Distavam das cidades, e dos povoados, para que os cadáveres não infeccionassem o ar com a sua corrupção, e porque os que se chegavam a êles ficavam impuros, segundo a lei. Num 19, 11.
29E gritaram logo ambos, dizendo: Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?
30Ora em alguma distância dêles andava uma manada de muitos porcos pastando.
31E os demônios o rogavam, dizendo: Se nos lanças daqui, manda-nos para a manada dos porcos.
32E êle lhes disse: Ide. E saindo êles se foram aos porcos, e no mesmo ponto tôda a manada correu impetuosamente por um despenhadeiro a precipitar-se no mar: E morreram afogados nas águas.
33E os pastores fugiram: E vindo à cidade, contaram tudo, e o sucesso dos que tinham sido endemoninhados.
34E logo tôda a cidade saiu a encontrar-se com Jesus: E quando o viram, pediram-lhe que se retirasse do seu têrmo.