Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 24

Prediz Jesus Cristo a ruína do Templo. Manda-nos resguardar dos profetas falsos. Fenômenos espantosos, que hão de preceder a sua vinda. O bom servo está sempre vigilante ao que seu Senhor quererá dêle. Devemos estar prontos para o tempo em que o Senhor vier.

1E tendo saído Jesus do Templo, se ia retirando. E chegaram a êle os seus discípulos, para lhe mostrarem a fábrica do Templo.

2Mas êle respondendo, lhes disse: Vêdes tudo isto? Na verdade vos digo, que não ficará aqui pedra sôbre pedra, que não seja derribada.

3E estando êle assentado no monte das Oliveiras, se chegaram a êle seus discípulos à puridade, perguntando-lhe: Dize-nos, quando sucederão estas coisas? E que sinal haverá da tua vinda, e da consumação do século?

4E respondendo Jesus, lhes disse: Vêde, não vos engane alguém.

5Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou Cristo: E enganarão a muitos.

6Haveis pois de ouvir guerras, e rumores de guerras. Olhai não vos turbeis: Porque importa que assim aconteça, mas não é êste ainda o fim:

7Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá pestilência, e fomes, e terremotos em diversos lugares:

8E tôdas estas coisas são princípios das dores.

9Então vos entregarão à tribulação, e vos matarão: E sereis aborrecidos de tôdas as gentes por causa do meu nome.

10E muitos então serão escandalizados, e se entregarão de parte a parte, e se aborrecerão uns aos outros.

11E levantar-se-ão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.[1]FALSOS PROFETASOs primeiros escritores eclesiásticos viram estes falsos profetas nos pseudo messias; Teudas, Barcochebas, Simão, o Mágico, Cerinto, etc. Notam os exegetas que nesta profecia se misturam os acontecimentos que se deviam cumprir na ruína de Jerusalém e no fim do mundo.

12E porquanto multiplicar-se-á a iniquidade, e se resfriará a caridade de muitos:

13Mas o que perseverar até o fim, êsse será salvo.

14E será pregado êste Evangelho do reino por todo o mundo, em testemunho a tôdas as gentes: E então chegará o fim.

15Quando vós pois virdes que a abominação da desolação, que foi predita pelo profeta Daniel, reinando no lugar santo: (o que lê, entenda).[2]ABOMINAÇÃO DA DESOLAÇÃOÉ a profanação da cidade santa pelos romanos, quando êstes aí penetraram levando os seus ídolos, profanando o templo, devastando, violando, saqueando e incendiando.

LUGAR SANTO — É o templo, cuja profanação e destruição Jesus Cristo profetizou.

16Então os que se acham em Judéia, fujam para os montes:

17E o que se acha no telhado, não desça a levar coisa alguma de sua casa:

18E o que se acha no campo, não volte a tomar a sua túnica.

19Mas ai das que estiverem pejadas, e das que criarem naqueles dias.[3]AI DAS QUE ESTIVEREM PEJADASPorque lhes será muito custoso o fugir.

20Rogai pois que não seja a vossa fuga em tempo de inverno, ou em dia de sábado:[4]EM TEMPO DE INVERNOQuando os maus caminhos retardam muito os passos.

OU EM DIA DE SÁBADO — No qual, segundo a lei, não era lícito caminhar mais do que uma légua. — Amelote.

21Porque será então a aflição tão grande que, desde que há mundo até agora, não houve nem haverá outra semelhante.[5]A AFLIÇÃO TÃO GRANDEA história profana registra os horrores da tomada de Jerusalém. Tôdas as profecias de Jesus se cumpriram à letra, e o povo deicida pagou bem caro com a ruína total da sua terra, da qual era tão cioso, o seu crime.

22E se não se abreviassem aqueles dias, não se salvaria pessoa alguma: Porém abreviar-se-ão aqueles dias em atenção aos escolhidos.

23Então se alguém vos disser: Olhai, aqui está o Cristo, ou ei-lo acolá: Não lhe deis crédito.

24Porque se levantarão falsos Cristos, e falsos profetas: Que farão grandes prodígios, e maravilhas tais, que (se fôra possível) até os escolhidos se enganariam.

25Vêde que eu vo-lo adverti antes.

26Se pois vos disserem: Ei-lo lá está no deserto, não saiais: Ei-lo cá mais retirado da casa, não lhes deis crédito.

27Porque de modo que um relâmpago sai do Oriente, e se mostra até o Ocidente: Assim há de ser também a vinda do Filho do homem.

28Em qualquer lugar em que estiver o corpo, aí se hão de ajuntar também as águias.[6]EM QUALQUER LUGAR EM QUE ESTIVER O CORPOEra um provérbio vulgar entre os hebreus: a palavra corpo toma-se na acepção do cadáver. Pelo que respeita às águias também alguns intérpretes querem ver uma alusão às águias romanas. É sabido que Herodes tinha mandado colocar uma águia sôbre o pórtico do Templo, para lisonjear Augusto, o que indignou os judeus, que a apearam e quebraram, o que custou a vida a quarenta judeus, que foram queimados vivos. Grupo A. 17, 6, 4.

29E logo depois da aflição daqueles dias, escurecer-se-á o sol, e a lua não dará a sua claridade, e as estrêlas cairão do Céu, e as virtudes dos Céus se comoverão:[7]E AS VIRTUDES DOS CÉUS SE COMOVERÃOSanto Ambrósio e S. João Crisóstomo o entendem dos anjos, a quem a majestade do juízo encherá de espanto e de temor. Santo Agostinho, na carta já outra vez citada a Hesíquio, o entende dos justos; dos quais, a fôrça das perseguições e tribulações, fará cair a uns, e vacilar a outros.

30E então aparecerá o sinal do Filho do homem no Céu: E então todos os povos da terra chorarão: E verão ao Filho do homem, que virá sôbre as nuvens do Céu com grande poder, e majestade.[8]O SINAL DO FILHO DO HOMEMIsto é, a Cruz do Salvador, que nesta ocasião aparecerá resplandecente como um astro. — S. Jerônimo.

31E enviará os seus anjos com trombetas, e com grande voz: E ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, do mais remontado dos Céus até às extremidades dêles.[9]COM TROMBETASQue por meio de uma voz espantosa, semelhante ao ruído de uma trombeta, farão comparecer em um momento a todos os homens diante do trono da Majestade dêste Juiz Soberano, para ouvir, à vista de todos os santos, e de todos os anjos, a sentença que corresponda às obras, e méritos de cada um. Pelo som da trombeta pode entender-se também a suprema Majestade do Juiz, e a irresistível fôrça da sua palavra, com que pronunciará a sentença.

32Aprendei pois o que vos digo, por uma comparação tirada da figueira: Quando os seus ramos estão já tenros, e as folhas têm brotado, sabeis que está perto o estio:

33Assim também quando vós virdes tudo isto, sabei que está perto, às portas.

34Na verdade vos digo, que não passará esta geração sem que se cumpram tôdas estas coisas.[10]QUE NÃO PASSARÁ ESTA GERAÇÃO, DOS JUDEUSMas que se perpetuará de família em família até ao fim do Mundo, devendo converter-se então um grande número dêles, conforme à piedosa crença da Igreja. — S. João Crisóstomo.

35Passará o Céu, e a terra, mas não passarão as minhas palavras.

36Mas daquele dia, nem daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos dos Céus, senão só o Padre.

37E assim como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do homem.

38Porque assim como nos dias antes do dilúvio estavam comendo e bebendo, casando-se e dando-se em casamento, até ao dia que Noé entrou na arca,

39e não o entenderam enquanto não veio o dilúvio e os levou a todos: Assim será também a vinda do Filho do homem.

40Então de dois que estiverem no campo: Um será tomado, e outro será deixado.

41De duas mulheres que estiverem moendo em um moinho: Uma será tomada, e outra será deixada.

42Velai pois, porque não sabeis a que hora há de vir vosso Senhor.

43Mas sabei que se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria sem dúvida, e não deixaria minar a sua casa.

44Por isso estai vós também preparados: Porque não sabeis em que hora tem de vir o Filho do homem.

45Quem crês que é o servo fiel, e prudente, a quem seu Senhor pôs sôbre a sua família, para que lhes dê de comer a tempo?

46Bem-aventurado aquele servo, a quem seu Senhor achar nisso ocupado quando vier.

47Na verdade vos digo, que êle o constituirá administrador de todos os seus bens.[11]O CONSTITUIRÁ ADMINISTRADOR DE TODOS OS SEUS BENSO levará à sua glória, que é a suma de todos os bens, em recompensa da sua prudente fidelidade.

48Mas se aquele servo sendo mau disser no seu coração: Meu Senhor tarda em vir:[12]MEU SENHOR TARDA EM VIRRepresenta este mau servo a um pecador, que abusando da paciência de Deus, que o espera, e sofre um dia, e outro dia, toma ocasião desta mesma paciência, e sofrimento, para cometer novos pecados, e para cair em maiores e mais abomináveis excessos.

49E começar a maltratar aos seus companheiros, a comer, e beber com os que se embriagam:

50Virá o Senhor daquele servo no dia em que êle o não espera, e na hora em que êle não sabe:

51E removê-lo-á, e porá a sua parte com os hipócritas: Ali haverá chôro, e ranger de dentes.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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