Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 21

Dá Jesus Cristo a sua entrada em Jerusalém. Lança fora do templo os negociantes. Tapa a bôca aos fariseus que murmuravam dêle. Espantam-se os Apóstolos de ver que uma figueira que o Senhor amaldiçoou, secou no mesmo instante. Quanto pode a fé. A parábola dos dois filhos, e a dos maus lavradores. O reino dos Céus passará dos judeus aos gentios.

1Como êles pois se avizinharam a Jerusalém, e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, enviou então Jesus dois de seus discípulos,[1]BETFAGÉPerto de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, que ficava a este de Jerusalém, do qual estava separado pela torrente de Cedron.

2dizendo-lhes: Ide a essa aldeia, que está defronte de vós e logo achareis presa uma jumenta e um jumentinho com ela: Desprendei-a, e trazei-mos:

3E se alguém vos disser alguma coisa, respondei-lhe que o Senhor os há de mister: E logo vo-los deixará trazer.

4E isto tudo sucedeu para que se cumprisse o que tinha sido anunciado pelo profeta; que diz:

5Dizei à filha de Sião: Eis aí o teu rei, que vem a ti cheio de doçura, montado sôbre uma jumenta, e sôbre um jumentinho, filho do que está debaixo do jugo.[2]MONTADO SÔBRE UMA JUMENTAEsta citação parece ser de Jeremias ou de Zacarias; o Evangelista refere apenas o sentido e não apresenta os próprios termos.

6E indo os discípulos, fizeram como Jesus lhes ordenara.

7E trouxeram a jumenta e o jumentinho, e cobriram-nos com os seus vestidos, e fizeram-no montar em cima.

8Então da gente do povo, que era muita, uns estendiam no caminho os seus vestidos, e outros cortavam ramos de árvores, e juncavam com êle a passagem:

9E tanto as gentes que iam adiante, como as que iam atrás, gritavam, dizendo: Hosana ao filho de Davi: Bendito o que vem em nome do Senhor: Hosana nas maiores alturas.[3]DIZENDOHosana por Hoschignamoh, que quer dizer: Salvai, eu vos rogo: assim a versão dos Setenta, Sl 117, 25. Hosana ao filho de Davi quer dizer: ó Deus, salvai a êste Jesus, que é filho de Davi, ou o Messias. Vós, Senhor, que residis nas alturas, fazei prosperar ao vosso Cristo, ao vosso rei. Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor. Que gritos tão diferentes são êstes! Bendito seja o que vem em nome do Senhor; e tira-o, crucifica-o! exclama S. Bernardo. Que coisas são tão contrárias! reconhecer a Jesus Cristo para soberano rei de Israel, e dizer depois: Nós não temos outro rei, senão César. Que diferentes são êstes ramos, e palmas verdes, que levam agora nas mãos, dos espinhos com que poucos dias depois o coroaram, e da Cruz em que o cravaram! Que oposição tão grande entre o despojarem-se agora dos seus vestidos, para os estenderem por onde passava o Senhor, e despi-lo dos seus depois, da maneira mais ignominiosa! Tal é o aprêço que se deve fazer da estimação dos homens, e de todos os vãos aplausos do mundo.

10E quando entrou em Jerusalém, se alterou tôda a cidade dizendo: Quem é êste?

11E os povos diziam: Êste é Jesus o profeta de Nazaré de Galiléia.

12E entrou Jesus no templo de Deus, e lançava fora todos os que vendiam e compravam no templo; e pôs por terra as mesas dos banqueiros, e as cadeiras dos que vendiam pombas:[4]NO TEMPLONo grego está hieron. O hagiógrafo tem sempre cuidado de distinguir o hieron do naós: No hieron estavam as dependências do santuário, consagradas também a Deus; o naós era o santuário propriamente dito. Ora as cenas narradas neste e nos versículos seguintes passaram-se no hieron.

13E lhes disse: Escrito está: A minha casa será chamada casa de oração: Mas vós a tendes feito covil de ladrões.

14E chegaram-se a êle cegos, e coxos no Templo: E os sarou.

15E quando os príncipes dos sacerdotes, e os escribas viram as maravilhas que êle tinha feito e os meninos no Templo gritando e dizendo: Hosana ao filho de Davi, se indignaram.

16E lhe disseram: Ouves o que dizem êstes? E Jesus lhes respondeu: Sim: Nunca lestes: Que da bôca dos meninos, e dos que mamam, tiraste o perfeito louvor?

17E tendo-os deixado, retirou-se Jesus para fora da cidade passando a Betânia, e ali ficou.[5]BETÂNIAHoje el-Azariyeh, ou Lazarieh, outrora tão célebre pelas narrações evangélicas e hoje uma pobre aldeia. Está situada na falda oriental do monte das Oliveiras, próximo do declive que da estrada de Jerusalém para Jericó vai ao vale do Jordão. Vê-se hoje o sítio tradicional da casa e do túmulo de Lázaro, bem como as ruínas da habitação de Simão o leproso.

18Mas pela manhã quando voltava para a cidade teve fome.

19E vendo uma figueira junto do caminho, chegou a ela: E não achou nela senão unicamente folhas, e lhe disse: Nunca jamais nasça fruto de ti. E no mesmo ponto se secou a figueira.[6]UMA FIGUEIRAÉ uma parábola de coisas, querendo Jesus significar por esta figueira, que devia dar frutos e os não dava, o homem que deve aproveitar a sua vida, saúde, bens, talentos para prestar homenagem a Deus e ser útil ao seu próximo. E assim como a árvore que não dá fruto merece a maldição de Deus, amaldiçoado será o homem que não produzir frutos de bênção. Os racionalistas dizem que Jesus não tinha de que se admirar da figueira não dar frutos, seria assim se na Palestina não sucedesse exatamente o contrário. As figueiras têm fruto quase todo o ano. O próprio Flávio Josêfo nos diz que as figueiras do lago de Genesaré produziam figos durante dez meses em cada ano.

20E vendo isto os discípulos, se admiraram, dizendo: Como se secou para logo?

21E respondendo Jesus, lhes disse: Na verdade vos digo que, se tiverdes fé, e não duvidardes, não só fareis o que eu acabo de fazer à figueira, mas ainda se disserdes a êste monte, tira-te, e lança-te no mar, assim se fará.

22E tôdas as coisas que pedirdes, fazendo oração com fé, haveis de conseguir.

23E tendo ido ao Templo, os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos do povo se chegaram a êle quando estava ensinando, e lhe disseram: Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu este poder?[7]OS PRÍNCIPES DOS SACERDOTESOs chefes de vinte e quatro famílias sacerdotais.

24Respondendo Jesus, lhes disse: Também eu tenho que vos fazer uma pergunta; se me responderdes a ela, então eu vos direi com que autoridade faço estas coisas.

25Donde era o batismo de João? do Céu, ou dos homens? Mas êles faziam entre si êste discurso, dizendo:

26Se nós lhe dissermos que do Céu, dir-nos-á êle: Pois por que não crestes nele? E se lhe dissermos que dos homens, tememos as gentes, porque todos tinham a João na conta dum profeta.

27E respondendo a Jesus, disseram: Não o sabemos. Disse-lhes também êle: Pois nem eu vos digo com que poder faço estas coisas.

28Mas que vos parece? Um homem tinha dois filhos e chegando ao primeiro lhe disse: Filho, vai hoje, trabalha na minha vinha.

29E respondendo êle, lhe disse: Não quero. Mas depois tocado de arrependimento, foi.

30E chegando ao outro, lhe disse do mesmo modo. E respondendo, êle disse: Eu vou, Senhor, e não foi:

31Qual dos dois fez a vontade do pai? Responderam êles: O primeiro. Jesus lhes disse: Na verdade vos digo, que os publicanos e as meretrizes vos levarão a dianteira para o reino de Deus.

32Porque veio João a vós no caminho da justiça, e não o crestes, e os publicanos, e as prostitutas o creram, e vós outros, vendo isto, nem ainda fizestes penitência depois, para o crerdes.

33Ouvi outra parábola: Era um homem pai de família, que plantou uma vinha, e a cercou com uma sebe, e cavando fez nela um lagar, e edificou uma torre e depois a arrendou a uns lavradores, e ausentou-se para longe.[8]QUE PLANTOU UMA VINHAEsta vinha significa o povo judaico. A sebe, a providência de Deus, que o protege por meio de seus anjos e profetas. O lugar é a lei, que pelo mêdo da pena estava pedindo dêle frutos de justiça. A torre é o Templo, onde estavam as sentinelas, isto é, sacerdotes e doutores da Lei, para velarem sôbre o povo. Os lavradores, os reis, os pontífices, e os sacerdotes. Os servos, os profetas que os Judeus mataram. O Filho, Jesus Cristo. — Amelote.

34E estando próximo o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receberem os seus frutos.

35Mas os lavradores, lançando a mão aos servos dêle, feriram um, mataram outro, e a outro apedrejaram.

36Enviou ainda outros servos em maior número, do que os primeiros, e fizeram-lhes o mesmo.

37E por último enviou-lhes seu filho, dizendo: Hão de ter respeito a meu filho.

38Porém os lavradores vendo o filho, disseram entre si: Êste é o herdeiro, vinde, matemo-lo, e ficarémos senhores da sua herança.

39E, lançando-lhe as mãos, puseram-no fora da vinha e mataram-no.

40Quando pois vier o senhor da vinha, que fará êle àqueles lavradores?

41Responderam-lhe: Aos maus destruirá rigorosamente: E arrendará a sua vinha a outros lavradores que lhe paguem o fruto a seus tempos devidos.

42Jesus lhes disse: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que fôra rejeitada pelos que edificavam, essa tornou-se o vértice do ângulo? Pelo Senhor foi feito isto, e é coisa maravilhosa nos nossos olhos:[9]ESSA TORNOU-SEEsta pedra, que fechou o canto, é Jesus Cristo, que unindo as duas paredes do edifício espiritual, a Sinagoga com a Igreja, os judeus com os gentios, se constitui principal fundamento da nova religião que fundava. — S. Agostinho.

43Por isso é que eu vos declaro, que tirado vos será o reino de Deus, e será dado a um povo que faça os frutos dêle.

44O que cair sôbre êsta pedra far-se-á em pedaços: E aquêle sôbre que esta pedra cair, ficará esmagado.

45E os príncipes dos sacerdotes, e os fariseus, depois de ouvirem as suas parábolas, conheceram que dêles é que falava Jesus,

46E quando procuravam prendê-lo, tiveram mêdo do povo, porque êste o tinha na estimação de um profeta.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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