Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 15

Tradição dos fariseus, que os obrigava a lavarem as mãos freqüentemente. Êles tinham corrompido o quarto preceito do decálogo. A cananéia alcança remédio para uma sua filha endemoninhada. Jesus sustenta quatro mil homens com sete pães e poucos peixes.

1Então chegaram a êle uns escribas, e fariseus de Jerusalém, dizendo:

2Por que violam os teus discípulos a tradição dos antigos? pois não lavam as suas mãos, quando comem pão.[1]Quando comem pãoHebraísmo que significa quando se alimentam. A tradição dos antigos, a que se refere êste versículo, designa os preceitos rituais que, segundo os judeus, tinham sido dados oralmente por Moisés e da mesma maneira transmitidos até êles, aos quais ligavam tanta importância como à própria lei escrita. Jesus Cristo porém em Mc 7, 7, chama a estas tradições — a tradição dos homens, em oposição à verdadeira lei de Deus.

3E êle, respondendo, lhes disse: E vós também por que transgredis o mandamento de Deus pela vossa tradição? Porque Deus disse:

4Honra a teu pai, e a tua mãe: E o que amaldiçoar a seu pai, ou a sua mãe, morra de morte.[2]Morra de morteHebraísmo freqüente, que significa, morrerá infalivelmente.

5Porém vós outros dizeis: Qualquer que disser a seu pai, ou a sua mãe, toda a oferta que eu faça a Deus, te aproveitará a ti.

6Pois é certo que o tal não honrará a seu pai, ou a sua mãe: Assim é que vós tendes feito vão o mandamento de Deus pela vossa tradição.[3]Não honrará a seu paiIsto é, se com êste pretexto, já não socorre, nem assiste com o necessário a seu pai ou a sua mãe, preceito que Jesus encarece suavíssimamente.

7Hipócritas, bem profetizou de vós outros Isaías, quando diz:

8Êste povo honra-me com os lábios: Mas o seu coração está longe de mim.[4]Honra-me com os lábiosQuer dizer, entrega-se tão sòmente às práticas exteriores, sem se importar com o que lhe vai na alma. Esta censura cabe àqueles que se contentam em rezar e frequentar os templos, sem que contudo procurem viver na observância da lei de Jesus Cristo, de cujo espírito não estão possuídos, pois o seu coração está longe do mesmo Senhor, mas o seu coração está longe de mim. Finalmente êste versículo tão singelo, contém a mais formal, a mais veemente condenação da hipocrisia. Jesus Cristo quer a sinceridade do coração, não o fingimento das palavras e dos atos externos. Tartufo poderá iludir os homens, bem merecer até dêles, de Deus só receberá castigo, pois que o seu coração está muito longe do mesmo Deus.

9Em vão pois me honram, ensinando doutrinas e mandamentos, que vêm dos homens.[5]Que vêm dos homensIsto é, os que são contrários à lei de Deus. São êstes mandamentos e estas doutrinas que Jesus condena e contra as quais se insurge, como o esquecimento dos pais, a que se refere o versículo 6, que os fariseus julgam bem compensado pelas abluções, sem que se lhes importe a pureza de coração. É êste o único sentido deste versículo, e que naturalmente ressalta dos antecedentes e consequentes. É necessário frisar bem esta interpretação, visto que os adversários torcem o sentido verdadeiro deste texto para impugnarem a Tradição da Igreja, que, como é sabido, constitui uma das fontes da revelação.

10E chamando a si as turbas, lhes disse: Ouvi, e entendei.

11Não é o que entra pela bôca, o que faz imundo o homem: Mas o que sai da bôca, isso é o que faz imundo o homem.[6]Não é o que entra pela bôcaFreqüentes vêzes se tem abusado deste texto para autorizar a violação da abstinência prescrita pela Igreja nos chamados dias proibidos, em que há obrigação de não comer carne, etc. É certo que a carne que se ingere não pode manchar a alma, mas o desprêzo das leis da Igreja estabelecidas por Jesus Cristo, isso é que mancha a alma, e torna-a criminosa diante de Deus. Não foi o fruto que entrou na bôca de Adão que o maculou, foi sim a desobediência à lei de Deus.

12Então chegando-se a êle seus discípulos, lhe disseram: Sabes que os fariseus, depois que ouviram o que disseste, ficaram escandalizados?

13Mas êle, respondendo, lhes disse: Tôda a planta que meu Pai celestial não plantou, será arrancada pela raiz.[7]Tôda a plantaTôda a doutrina, que se não confirma com o que Deus manda e ensina. — S. Hilário.

14Deixai-os: Cegos são os condutores de cegos: E se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco.

15E respondendo, Pedro lhe disse: Explica-nos essa parábola.

16E respondeu Jesus: Também vós outros estais ainda sem inteligência?

17Não compreendeis que tudo o que entra pela bôca, desce ao ventre, e se lança depois num lugar escuso?

18Mas as coisas que saem da bôca vêm do coração, e essas são as que fazem o homem imundo:

19Porque do coração é que saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, e os falsos testemunhos, as blasfêmias.

20Estas coisas são as que fazem imundo o homem. O comer porém com as mãos por lavar, isto não faz imundo o homem.

21E tendo saído daquele lugar, retirou-se Jesus para as partes de Tiro, e de Sidônia.

22E eis que uma mulher cananéia, que tinha saído daqueles confins, gritou, dizendo-lhe: Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim: Que está minha filha miseravelmente atormentada do demônio.[8]Uma mulher cananéiaS. Marcos lhe chama grega sirofenicia, porque esta província que estava entre a Palestina e a Síria, era naquele tempo povoada pelo resto dos antigos cananeus, que usavam do idioma, e ritos dos gregos, introduzidos pelos reis da Síria, sucessores de Alexandre.

23Mas êle não lhe respondeu palavra. E chegando-se seus discípulos, lhe pediam, dizendo: Despede-a: Porque vem gritando atrás de nós.[9]Não lhe respondeu palavraPara lhe experimentar a fé.

24E êle respondendo lhes disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel.[10]Eu não fui enviadoO Messias tinha sido enviado para salvação da humanidade, mas a pregação dos gentios competia aos Apóstolos.

25Mas ela veio, e o adorou, dizendo: Senhor, valei-me.

26Êle respondendo lhe disse: Não é bom tomar o pão dos filhos, e lançá-lo aos cães.[11]E lançá-lo aos cãesNa frase dos judeus de que Cristo usava, chamam-se cães os gentios, por causa da impureza de seus costumes, e da imprudência com que se prostituíam à idolatria. E o pão que êle aqui entendia, eram as graças e favores, que estavam destinados para Israel, no caso que êste os não enjeitasse. — Sacy.

27E ela replicou: Assim é, Senhor: Mas também os cachorrinhos comem das migalhas, que caem da mesa dos seus donos.[12]Mas também os cachorrinhosAssim é, Senhor, como dizeis, replicou a cananéia; porém depois que os filhos estão saciados do pão que lhes é devido, os cachorrinhos que andam ao redor da mesa, aproveitam aquelas migalhas, que caem, ou que sobram aos filhos; como se dissera: Eu, Senhor, conheço que os judeus são os filhos, e os senhores, e eu, sendo gentia, sòmente me considero como uma vil cachorrinha. Portanto não peço a enchente de graças, que é devida aos filhos, senão um desperdício sòmente da vossa mesa, algumas relíquias, ou sobras dos milagres, que podeis obrar em favor dos judeus. Estas palavras cheias de humildade, de modéstia, de fé, e de prudência, moveram ao Senhor, a que louvasse a sua fé, e lhe concedesse o que pedia.

28Então respondendo Jesus, lhe disse: Ó mulher, grande é a tua fé: Faça-se contigo como queres, e desde aquela hora ficou sã a sua filha.

29E tendo Jesus saído dali, veio ao longo do mar de Galiléia: E subindo a um monte se assentou ali.

30Então concorreu a êle uma grande multidão de povo que trazia consigo mudos, cegos, coxos, enfermos e outros muitos: E lançaram-se a seus pés, e êle os sarou.

31De sorte que se admiravam as gentes, vendo falar os mudos, andar os coxos, ver os cegos: E engrandeciam por isso ao Deus de Israel.

32Mas Jesus chamando a seus discípulos, disse: Tenho compaixão destas gentes, porque há já três dias que perseveram comigo, e não têm que comer: E não quero despedi-los em jejum, por que não desfaleçam no caminho.

33E os discípulos lhe disseram: Como poderemos nós pois achar neste deserto tantos pães, que fartemos tão grande multidão de gente?

34E Jesus lhes perguntou: Quantos pães tendes vós? E êles responderam: Sete, e uns poucos de peixinhos.[13]SetePor aqui se vê que Jesus Cristo operou por duas vêzes distintas a multiplicação dos pães. Na primeira vez havia cinco pães e dois peixes; agora há sete pães e alguns peixes. Pelo primeiro milagre Jesus saciou cinco mil homens, sem contar mulheres nem crianças, pelo segundo, quatro mil. Depois da primeira ficaram doze cestos, agora sete.

35Mandou êle então à gente que se recostasse sôbre a terra.

36E tomando os sete pães e os peixes, e dando graças, os partiu, e deu aos seus discípulos, e os discípulos os deram ao povo.

37E comeram todos e se fartaram. E dos fragmentos que sobejaram, levantaram sete alcôfas cheias.

38E os que comeram foram quatro mil homens, fora meninos e mulheres.

39E despedida a gente entrou Jesus em uma barca, e passou os limites de Magedan.[14]De MagedanO grego diz de Magdala. S. Jerônimo e Eusébio fazem demorar a Magedan, ou Magdala junto de Gerasa no Além-Jordão, hoje el Medjdel, na margem ocidental do lago Tiberíades.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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