Capítulo 26
1E aconteceu isto: Que tendo Jesus acabado todos êstes discursos, disse a seus discípulos:
2Vós sabeis que daqui a dois dias se há de celebrar a Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado.[1]1 — PÁSCOA — Era a festa mais solene dos judeus, que se celebrava em memória da libertação da escravidão do Egito, em que se comia o cordeiro pascal, figura de Jesus Cristo. Era a festa mais popular e a que inaugurava o ano religioso.
3Então se ajuntaram os príncipes dos sacerdotes, e os magistrados do povo no átrio do príncipe dos sacerdotes, que se chamava Caifás:[2]2 — OS PRÍNCIPES DOS SACERDOTES — Os chefes das vinte e quatro famílias sacerdotais.
CAIFÁS — Chamava-se também José. Foi nomeado sumo sacerdote pelo procurador romano Valério Grato, no ano 27 da nossa era, em lugar de Simão, filho de Camit. Exerceu as suas funções enquanto Pilatos esteve na Judéia, sendo deposto no ano 36 pelo procônsul Vitelino, e substituído por Jônatas, filho do pontífice Ananus ou Anás.
4E tiveram conselho para prenderem a Jesus com engano, e fazerem-no morrer.
5Mas diziam êles: Não se execute isto no dia da festa, para que não suceda levantar-se algum motim no povo.
6Ora estando Jesus em Betânia, em casa de Simão o Leproso,[3]3 — SIMÃO O LEPROSO — Isto é, que tinha sido leproso.
7chegou-se a êle uma mulher, que trazia uma redoma de alabastro cheia de precioso bálsamo, e o derramou sôbre a cabeça de Jesus estando recostado à mesa.[4]4 — UMA MULHER — É um dos pontos mais curiosos da exegese do Novo Testamento. Esta mulher, Maria Madalena, Maria irmã de Marta, e a pecadora de S. Lucas, são uma e a mesma pessoa, ou entidades distintas? Esta questão suscitou as mais sérias controvérsias entre os exegetas e principalmente entre os franceses. Em 1516, Jacques Lefevre d'Etaples pôs a questão nestes têrmos: São três personalidades diferentes, que a Igreja confunde na sua liturgia sob uma única designação, Maria Madalena, fundando-se na autoridade de Origenes, S. João Crisóstomo, etc. Êste livro, como é de supor, levantou grande celeuma, e o célebre bispo de Rochester, João Fischer, refutou-o vitoriosamente, e seu livro De unica Madalena. Igual parecer seguiu o autor espanhol Scocco, e a Universidade de Paris, então a alma mater, emitiu igual opinião. No fim do século décimo sétimo recomeçou a polémica, a propósito da revisão do breviário parisiense. Não cabe nesta nota historiar desenvolvidamente êste importante controvérsia em que entraram os melhores teólogos da época. Hoje, no campo da teologia ortodoxa, a questão perdeu o seu interêsse, pois é assente entre os teólogos que não há distinção a fazer entre a pecadora, de que fala Lc 7, 37, Maria Madalena, Maria, irmã de Marta, e Maria de Betânia. Esta opinião é sòlidamente fundada. Com efeito: 1.º Tal é a opinião dos doutores e mais antigos Padres da Igreja, que com esta orientação dirigiram a liturgia antiga. 2.º Seria possível, se se tratasse de pessoas diferentes, que os Apóstolos não instruíssem sôbre essas os primeiros fiéis? 3.º S. João fala da conversão da pecadora aos pés de Jesus, que enxergara em casa de Simão, e quando se refere a Maria, irmã de Lázaro, diz que é aquela que enxugou os pés do Salvador com seus cabelos. Só se pode pensar por esta descrição na pecadora convertida em casa de Simão. De mais não há razão nenhuma séria em favor da opinião contrária. A mesma pessoa poderia em diferentes ocasiões encontrar-se na Galiléia, em casa de Simão, ter possuído casa em Magdala, e vir para junto de sua irmã na Betânia. No capítulo 20 de S. João, onde se trata de Santa Maria Madalena, vê-se que o Evangelista chama-lhe indiferntemente Maria e Maria Madalena, o que indica que se referiam ambos os nomes à mesma pessoa, a irmã de Marta. Aproximando tôdas as referências que se encontram nos documentos evangélicos, relativos à pecadora, a Maria de Betânia e a Maria Madalena, vê-se que se fundem harmonicamente na unidade dum tipo único. Sempre, nos diversos lugares bíblicos aparece a mesma mulher; alma ardente, sincera, subjugada pelo arrependimento, elevada no amor, cheia de zêlo, de fé e de ternura. É o ideal das convertidas. A tradição acerca da identidade da pecadora, de Maria de Betânia, Maria Madalena, irmã de Marta, é antiga, universal e perpétua entre gregos e latinos. Desde o segundo século, S. Clemente de Alexandria, Teólogo, 3, 8, se professou esta doutrina. Tertuliano De pudicitia, 2, Eusébio de Cesaréia, Canon, Evang. S. Efrem. t. 3, p. 390, edit. Migne, S. Jerônimo e S. Agostinho defendem-na brilhantemente. Daí para diante poderíamos citar S. Gregório, S. Isidoro de Sevilha, o Veneravel Beda, Rabán Maur, Odon de Cluny, S. Pedro Damião, Hugo e S. Vitor, S. Bernardo, S. Boaventura, S. Tomás, o nosso Schetino, S. Vicente de Ferrer, Gerson, etc. Dos modernos o Padre Didon, Kranenbauer, Baouez, Vigouroux, etc.
8E vendo isto os seus discípulos, se indignaram dizendo: Para que foi êste desperdício?
9Porque podia isto vender-se por bom preço, e dar-se êste aos pobres.
10Mas Jesus sabendo isto, disse-lhes: Por que molestais vós esta mulher? que, no que fez, me fez uma boa obra:
11Porque vós outros sempre tendes convosco os pobres: Mas a mim nem sempre me tereis.
12Porquanto derramar ela êste bálsamo sôbre o meu corpo, foi ungir-me para ser enterrado.
13Em verdade vos digo, que onde quer que for pregado êste evangelho, que será em todo o mundo, publicar-se-á também, para memória sua, a ação que esta mulher fez.
14Então se foi ter um dos doze, que se chamava Judas Iscariotes, com os príncipes dos sacerdotes:[5]5 — ENTÃO — Isto é, depois de se haverem congregado em casa de Caifás os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos, para deliberarem sôbre os meios que haviam de tomar para prenderem ao Senhor.
15E lhes disse: Que me quereis vós dar, e eu vo-lo entregarei? E êles lhe assinaram trinta moedas de prata.[6]6 — LHE ASSINARAM TRINTA MOEDAS DE PRATA — Isto é: quasi oito mil réis da nossa moeda. Era o preço de um escravo.
16E desde então buscava oportunidade para o entregar.
17E no primeiro dos dias em que se comiam os pães asmos, vieram ter com Jesus seus discípulos, dizendo: Onde queres tu que te preparemos o que se há de comer na Páscoa?[7]7 — EM QUE SE COMIAM OS PÃES ASMOS — Que eram sete dias, como lemos no Dt 16, 3, e começavam no dia quinze do mês da Páscoa, como é expresso nas antiguidades de José, livro 3, cap. 10. O qual dia quinze se começava a contar desde a sua véspera.
18E disse Jesus: Ide à cidade à casa de um tal, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo, em tua casa quero celebrar a Páscoa com meus discípulos.[8]8 — A CASA DE UM TAL — É muito provável que Cristo o nomeou, mas o evangelista não julgou necessário exprimi-lo. Cfr. Mc 14, 15.
19E fizeram os discípulos como Jesus lhes havia ordenado, e prepararam a Páscoa.
20Chegada pois a tarde, pôs-se Jesus à mesa com os seus doze discípulos.
21E estando êles comendo, disse-lhes: Em verdade vos afirmo, que um de vós me há de entregar.
22E êles mui cheios de tristeza, cada um começou a dizer: Porventura sou eu, Senhor?
23E êle respondendo, lhes disse: O que mete comigo a mão no prato, esse é o que me há de entregar.[9]9 — A MÃO NO PRATO — Em grego Trubilion, prato enorme. No Oriente desconhecem-se os pratos pequenos; cada um come da travessa, como nós lhe chamaríamos, servindo-se do auxílio do pão, que substitui a colher. Estas palavras não determinavam explicitamente o traidor, apenas indicavam que um havia de cometer a traição.
24O Filho do homem vai certamente como está escrito dêle: Mas ai daquele homem, por cuja intervenção há de ser entregue o Filho do homem: e melhor fôra ao tal homem não haver nascido.
25E respondendo Judas, o que o entregou, disse: Sou eu porventura, Mestre? Disse-lhe Jesus: Tu o disseste.
26Estando êles, porém, ceando, tomou Jesus o pão e benzeu-o e partiu-o e deu-o aos seus discípulos, e disse: Tomai, e comei, êste é o meu corpo.[10]10 — ÊSTE É O MEU CORPO — Cumpre notar bem no sentido destas palavras, Jesus não diz: Isto é a figura do meu corpo; nem aqui, ou com isto, está o meu corpo, mas absolutamente: Êste é o meu corpo, o que implica claramente a transubstanciação.
27E tomando o cálice, deu graças: E deu-lho, dizendo: Bebei dêle todos.[11]11 — BEBEI DÊLE TODOS — Isto foi dito só aos apóstolos, que estavam todos presentes, mas não impôs aos fiéis o cumprimento de igual preceito. Aos apóstolos conferia-lhes o poder de consagrar, oferecer e administrar êste sacramento, pois no mesmo instante acrescentou: Fazei isto em minha memória!
28Porque êste é o meu sangue do novo testamento, que será derramado por muitos para remissão de pecados.[12]12 — QUE SERÁ DERRAMADO — O texto grego tem no presente, que há derramado; e assim traduziu Amelote, tanto aqui em S. Mateus, como em S. Marcos, e em S. Lucas.
29Mas digo-vos: Que desta hora em diante não beberei mais dêste fruto da vide até aquele dia em que o beberei de novo convosco no reino de meu Pai.[13]13 — DÊSTE FRUTO DA VIDE — Como estas palavras parecem denotar o cálice não consagrado, são alguns expositores de parecer que as dissera Cristo, não depois da consagração do seu corpo e sangue, mas antes de tal consagração, o que os teólogos do Pôrto Real na sua Concórdia dos quatro Evangelistas provam com o texto de Lc 22, 17.
30E cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras.[14]14 — CANTADO O HINO — Isto é, segundo uns, depois do canto dos Sl 112, 117, consagrados nos cerimoniais judaicos para a ceia pascal; segundo outros, após um cântico expressamente composto para a ocasião por Jesus Cristo. Como Jesus e os Apóstolos obedeciam às prescrições legais a primeira opinião é a mais provável.
31Então lhes disse Jesus: A todos vós serei esta noite uma ocasião de escândalo. Está pois escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se porão em desarranjo.
32Porém depois que eu ressurgir, irei adiante de vós para a Galiléia.
33E respondendo Pedro, lhe disse: Ainda quando todos se escandalizarem a teu respeito, eu nunca me escandalizarei.
34Jesus lhe replicou: Em verdade te digo, que nesta mesma noite, antes que o galo cante, me hás de negar três vêzes.
35Pedro lhe disse: Ainda que seja necessário morrer eu contigo, não te negarei. E todos os mais discípulos disseram o mesmo.
36Então foi Jesus com êles a uma granja, chamada Getsêmane, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá, e faço oração.[15]15 — GETSÊMANE — Na margem, e quase junto à torrente de Cedron, a este de Jerusalém, está o Getsêmane ou Jardim das Oliveiras. Ainda aí se vê a gruta de suor de sangue. É uma cavidade irregular, profunda e alta, dividida em duas partes que comunicam por uma espécie de pórtico subterrâneo, onde depois se erigiram altares. O horto é rodeado por um pequeno muro de pedra solta, e oito oliveiras plantadas a pequena distância assombreiam-no totalmente. Essas oliveiras são enormes, o que fez dizer a Lamartine: Ces oliviers sont au nombre des plus grands arbres que j'ai jamais rencontres.
37E tendo tomado consigo a Pedro, e aos dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e angustiar-se.
38Disse-lhes então: A minha alma está numa tristeza mortal: Demorai-vos aqui, e vigiai comigo.
39E adiantando-se uns poucos de passos se prostrou com o rosto em terra, fazendo oração, e dizendo: Pai meu, se é possível, passe de mim êste cálice: Todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim a tua.[16]16 — PASSE DE MIM ESTE CÁLICE — O Senhor pedindo que êste cálice passasse dele, se era possível, quis representar o quanto era fraca a natureza humana; e acrescentando: todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim a tua, nos deu exemplo daquela fortaleza com que havemos de seguir a Deus, ainda quando a natureza se oponha, e faça esforços em contrário, S. João Crisóstomo. Parece que o Senhor quis como abandonar-se a si mesmo, dando lugar à maior tristeza e aflição que se conheceu jamais. Considerava por uma parte a traição de Judas, a negação de S. Pedro, o escândalo dos Apóstolos, a reprovação do povo dos judeus, e a funesta ruína de Jerusalém; e por outra, viu que ia a entrar em um mar de penas, e de amarguras, onde estava vendo uma profundidade e extensão quase infinita. Vivamente se lhe representavam todos os pecados de todos os homens, e sobretudo a ingratidão daquele povo, que havia escolhido entre tôdas as nações, e os sacrilégios ainda mais sensíveis de uma infinidade de cristãos, que profanando a santidade da sua profissão, não se aproveitam do preço inestimável do seu sangue. Esta tristeza foi tão profunda, que houvera acabado com a sua vida, se o mesmo Senhor o houvesse permitido. — Santo Hilário, S. João Crisóstomo e S. Jerônimo.
40Depois veio ter com seus discípulos, e os achou dormindo, e disse a Pedro: Visto isso não pudeste uma hora vigiar comigo?[17]17 — UMA HORA — Daqui se vê que a sua oração havia durado uma hora com pouca diferença.
41Vigiai, e orai para que não entreis em tentação. O espírito na verdade está pronto, mas a carne é fraca.
42De novo se retirou segunda vez, e orou, dizendo: Pai meu, se êste cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade.
43E veio outra vez, e também os achou dormindo: Porque estavam carregados os olhos dêles.
44E deixando-os, de novo foi orar terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
45Então veio ter com os seus discípulos, e lhes disse: Dormi já, e descançai; eis aqui está chegada a hora em que o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores.
46Levantai-vos, vamos: Eis aí se vem chegando o que me há de entregar.
47Estando êle ainda falando, eis que chega Judas, um dos doze, e com êle uma grande multidão de gente com espadas, e varapaus, que eram os ministros enviados pelos príncipes dos sacerdotes, e pelos anciãos do povo.[18]18 — E PELOS ANCIÃOS DO POVO — S. Lucas nos diz, 22, 52, que acompanhavam também a esta vil tropa alguns sacerdotes. Judas ia adiante algum tanto apartado do resto da gente, para dar sem dúvida menos que suspeitar a Jesus Cristo e aos seus Apóstolos da sua má vontade, e por esta mesma razão chegou a saudá-lo, e a osculá-lo como amigo, seguindo o costume dos judeus.
48Ora o traidor tinha-lhes dado êste sinal, dizendo: Aquele a quem eu der um ósculo, esse é que é, prendei-o.
49E chegando-se logo a Jesus lhe disse: Deus te salve, Mestre. E deu-lhe um ósculo.
50E Jesus lhe disse: Amigo, a que vieste? Ao mesmo tempo se chegaram os outros a êle, e lançaram mão de Jesus, e o prenderam.[19]19 — AMIGO, A QUE VIESTE? — As palavras cheias de suavidade, amor e doçura, que disse o Senhor a Judas, podê-lo-iam fazer cair em si, a não ser a sua obstinação. Ao mesmo tempo nos ensinam a amar aos nossos inimigos, ainda àqueles mesmos que sabemos que têm vontade de empregar todo o seu furor contra nós outros. — Santo Hilário.
51E senão quando um dos que estavam com Jesus, metendo mão à espada que trazia, a desembainhou e ferindo a um servo do sumo pontífice, lhe cortou uma orelha.[20]20 — E SENÃO QUANDO UM DOS QUE ESTAVAM COM JESUS — Foi S. Pedro, como consta do Evangelho de S. João 18, 10, o que feriu, e o ferido Malco.
52Então lhe disse Jesus: Mete a tua espada no seu lugar: Porque todos os que tomarem espada, morrerão à espada.[21]21 — ENTÃO LHE DISSE JESUS — Êste golpe feriu o coração de Jesus Cristo. Todo o cristão ficou desarmado na pessoa de Pedro quando se trata de padecer e sofrer pela causa de Deus. — Amelote.
53Acaso cuidas tu que eu não posso rogar a meu pai, e que êle me não porá aqui logo prontas mais de doze legiões de Anjos?
54Como se poderão logo cumprir as Escrituras, que declaram que assim deve suceder?[22]22 — QUE ASSIM DEVE SUCEDER? — Êle se ofereceu em sacrifício, porque quis, e sem abrir a sua bôca. Êle será conduzido como uma ovelha, para ser crucificado. Is 53, 7.
55Na mesma hora disse Jesus àquele tropel de gente: Vós viestes armados de espadas, e de varapaus, para me prender, como se eu fôra um ladrão: Todos os dias assentado entre vós, estava eu ensinando no Templo, e não me prendestes.
56Mas tudo isto assim aconteceu, para que se cumprissem as Escrituras dos profetas; Então todos os discípulos o deixaram, e fugiram.[23]23 — E FUGIRAM — Nisto veio a parar tôda a valentia dos Apóstolos, que se ofereceram a morrer com o Senhor. Aqui se viu cumprida a profecia de Zac 13, 7, que se acha no verso 31 dêste mesmo capítulo.
57Mas os que tinham preso a Jesus, o levaram à casa de Caifás, príncipe dos sacerdotes, onde se haviam congregado os escribas, e os anciãos.[24]24 — O LEVARAM À CASA DE CAIFÁS — Isto foi pouco antes da meia-noite, porque o galo cantou a primeira vez, quando o Senhor estava já em casa de Caifás. Êste havia comprado a Herodes por uma grande soma de dinheiro o Pontificado daquele ano, S. Jerônimo. Pela narração mais extensa, que se acha em Jo 18, 13, se conhece claramente que levaram a Jesus primeiro à casa de Anás, sogro de Caifás, e daí à casa de Caifás. Santo Tomás diz que ambos se ajuntaram no palácio de Anás.
58E Pedro o ia seguindo de longe, até ao pátio do príncipe dos sacerdotes. E tendo entrado para dentro, estava assentado com os oficiais de justiça, para ver em que parava o caso.[25]25 — E PEDRO O IA SEGUINDO DE LONGE — S. Pedro fugiu primeiro como os outros; porém caindo um pouco em si, e lembrando-se sem dúvida dos seus protestos, envergonhado voltou passos atrás e começou a seguir Jesus, bem que de longe, como afirmam os Evangelistas; e porque o seu coração, diz S. Jerônimo, se ia apartando de seu mestre, estando já mui perto de o negar. Mas fosse por algum resquício de amor, que ainda ardia no seu coração, ou por curiosidade de ver o fim de tôda esta cena, teve valor para seguir, para entrar no mesmo palácio de Caifás, e ainda para estar ali com muito descanso.
59Entretanto os príncipes dos sacerdotes, e todo o conselho, andavam buscando quem jurasse algum falso testemunho contra Jesus, a fim de o entregarem à morte:[26]26 — TODO O CONSELHO — É o sanedrim. O sanedrim, que é muitas vêzes designado nas Escrituras pela perífrase — os príncipes dos sacerdotes, os escribas, os anciãos, era o conselho ou tribunal supremo dos judeus. Compunha-se de setenta e dois membros, presididos pelo sumo sacerdote; os vinte e quatro chefes das famílias sacerdotais representavam o elemento sacerdotal; os escribas, a ciência jurídica; os anciãos o resto de Israel. Os judeus faziam remontar a origem do sanedrim aos tempos de Moisés, mas a constituição que tinha no tempo de Jesus Cristo data do fim do cativeiro. No tempo de Pilatos o sanedrim julgava as causas graves, tinha direito de proferir a sentença de morte, que só podia ser executada depois da confirmação do procurador romano.
60Mas não o acharam, sendo assim que foram muitos os que se apresentaram para jurar falso. Mas por último chegaram duas testemunhas falsas.[27]27 — MAS NÃO O ACHARAM — Porque ainda que foram muitos os que vieram com ânimo de jurar falso, não eram suficientes os depoimentos, porque uns aos outros se destruíam, como dá a entender Mc 14, 56. Aqui se verificou aquilo do Sl 63, 7. Scrutati sunt iniquitates: defecerunt scrutantes scrutinio. E também o lugar do Sl 26, 12. Insurrexerunt in me testes iniqui, etc: mentita est iniquitas sibi. — Pereira.
61E depuseram: Êste disse: Posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias.[28]28 — E REEDIFICÁ-LO EM TRÊS DIAS — Esta expressão está mais determinada no texto grego, que diz: te per tres dies. Jesus Cristo, falando do seu próprio corpo, ao qual chamava templo, depois de haver dito aos judeus: Destruí êste templo, acrescentou: E eu o restabelecerei; ou segundo a fôrça do texto sagrado, eu o levantarei, ou também, eu o ressuscitarei. Mas os judeus alteraram as palavras, e aplicando-as ao templo material, declararam que havia dito, que em três dias o tornaria a fabricar. Dêste modo, acrescentando e mudando alguma coisa, procuravam dar alguma côr de verdade e de justiça à injusta acusação que formavam contra o Salvador. — S. Jerônimo, S. João Crisóstomo e S. Tomás.
62Então levantando-se o príncipe dos sacerdotes, lhe disse: Não respondes nada ao que êste depõe contra ti?
63Porém Jesus estava calado. Êste, o príncipe dos sacerdotes, lhe disse: Eu te conjuro pelo Deus vivo, que nos digas, se tu és o Cristo, filho de Deus.
64Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste: Mas eu vos declaro que vereis daqui a pouco o Filho do homem assentado à direita do poder de Deus, e vir sôbre as nuvens do Céu.[29]29 — TU O DISSESTE — Jesus, que na sua vida pública, tão modesto se apresentara sempre, embora sempre se tivesse afirmado Filho de Deus, interpelado agora pelo sumo sacerdote, e convencido que a sua resposta implicaria a sua sentença de morte, não hesitou em quebrar o silêncio, rendendo à verdade um testemunho supremo e solene: Tu o disseste! Esta declaração reune tôda a sua doutrina acêrca da sua própria pessoa e da sua obra, e relembrava aos juizes o que mais os podia impressionar: a participação do Filho do homem do próprio poderio de Deus — a sua verdadeira divindade. O acusado elevava-se até à altura de Deus, e anunciando a sua volta sôbre as nuvens, significava aos seus juizes que êles deveriam comparecer diante de seu tribunal, onde, Êle, revestido de majestade divina, os julgaria.
65Então o príncipe dos sacerdotes rasgou as suas vestiduras, dizendo: Blasfemou: Que necessidade temos já de testemunhas? Eis aí acabais de ouvir agora uma blasfêmia:
66Que vos parece? Êles respondendo disseram: É réu de morte.[30]30 — É RÉU DE MORTE — Não foi longa a deliberação. Em breve estava proferida a sentença. Nem uma voz se ergueu a defender a Jesus. Não se sabe ao certo se José de Arimatéia, que tinha assento no sinédrio, estava então presente; no caso afirmativo o seu silêncio explica-se pela impossibilidade de conseguir resultado favorável. Esta sentença só pode ter como causa o ódio que cegava os juizes. O poder tirânico que perseguia Jesus exigia a sua morte; e sôbre um texto de lei, desarrazoadamente aplicado, que vão firmar a sua sentença. O blasfemador, diz o Lev 24, 16, será exterminado; ora, raciocinaram, atribuir-se a glória incomunicável de Deus é a maior das blasfêmias; Jesus é um blasfemo. Mas Jesus dissera-se o Messias, o Messias é o filho de Deus, o dever do sanedrim era proceder oficialmente ao exame dos títulos messiânicos invocados por Aquele que êles arrastaram ao seu tribunal. O sanedrim não o fez; violou a justiça. O interrogatório terminou ainda noite cerrada. Ouve-se então a palavra final contra Jesus — é digno de morte — Inicia-se então uma cena horrível. Nunca o pior dos criminosos fôra tratado como Jesus no palácio de Caifás.
67Então uns lhe cuspiram no rosto, e o feriram a punhadas, e outros lhe deram bofetadas no rosto,[31]31 — E OUTROS LHE DERAM BOFETADAS — Então se viu como os sacerdotes cobriram de salivas aquele rosto, que apareceu aos apóstolos tão brilhante como o sol, no dia da sua transfiguração; viu-se como uns vis servos, soldados, descarregavam bofetadas sôbre o sagrado rosto do supremo Senhor dos homens, e dos anjos; viu-se enfim como tudo o que havia maior, e mais respeitável no ministério da religião e no govêrno do estado estava confundido, e de mistura com o povo mais baixo, para conspirarem juntos, e animados do mesmo furor, com os mais horríveis desprezos, contra aquêle de quem só haviam recebido benefícios. E porquanto o Salvador havia declarado, que êle era o Cristo, e por conseguinte aquele profeta por excelência, que o Senhor em outro tempo havia prometido levantar no meio do seu povo, para que escutassem a sua voz, Dt 18, 15-18, o insultaram por êste duplicado motivo, e vendando-lhe os olhos, a cada golpe que lhe davam, lhe diziam: Cristo, adivinha-nos quem é o que te deu.
68dizendo: Adivinha-nos, Cristo, quem é o que te deu?
69Pedro entretanto estava assentado fora no átrio: E chegou a êle uma criada, dizendo: Tu também estavas com Jesus, o Galileu.
70Mas êle o negou diante de todos, dizendo: Não sei o que dizes.
71E saindo êle à porta, viu-o outra criada, e disse para os que ali se achavam: Êste também estava com Jesus Nazareno.[32]32 — ÊSTE TAMBÉM ESTAVA COM JESUS — Esta criada foi a que assistia à porta e havia introduzido a Pedro, e vendo-o ao lume, lhe perguntou, como de passagem: Porventura tu também és dos discípulos dêste homem? O que depois confirmou, e disse, como se lê de S. Mateus e S. Marcos: Tu também estavas com Jesus o Galileu. Pedro negou primeiramente, e disse que não o conhecia, e logo saiu do átrio, porém não da casa.
72E segunda vez negou com juramento, dizendo: Juro que tal homem não conheço.
73E daí a pouco chegaram-se uns que ali estavam, e disseram a Pedro: Tu certamente és também dos tais: Porque até a tua linguagem te dá bem a conhecer.[33]33 — CHEGARAM-SE UNS QUE ALI ESTAVAM — Outros dos que ali estavam; e um dêles parente de Malco, conheceram que Pedro era galileu, porque a língua desta província tinha muitas palavras próprias do idioma samaritano e siríaco, as quais eram dissonantes ao ouvido dos jerosolimitanos. Isto mesmo se experimenta em quase tôdas as províncias de um reino, no qual, ainda que tôdas falem um idioma comum, cada uma tem a pronunciação diferente, ou idiotismos particulares.
74Então começou a fazer imprecações, e a jurar que não conhecia tal homem. E imediatamente cantou o galo.
75E Pedro se lembrou da palavra que lhe havia dito Jesus: Antes de cantar o galo, três vêzes me negarás. E tendo saído para fora, chorou amargamente.[34]34 — CHOROU AMARGAMENTE — Lc 22, 61, diz que o Senhor voltou o rosto para olhar para Pedro. Esta vista do Senhor lhe atravessou o coração, e lhe fez conhecer o abismo em que havia caído. Pelo que, tocado de uma particular graça sua, saiu fora, e chorou o seu pecado amargamente. — Santo Agostinho.