Capítulo 14
1Naquele tempo Herodes tetrarca ouviu a fama de Jesus.[1]Herodes tetrarca — Chamava-se também Antipas e era filho, como Arquelau, de Herodes o Grande e da Samaritana Maltácia. Depois da morte de seu pai tornou-se tetrarca da Galiléia e da Peréia. Casou em primeiras núpcias com uma filha do rei árabe Areta, mas pouco depois juntou-se com sua sobrinha Herodiades, mulher de seu irmão Herodes Filipe. Era um espírito fraco, pusilânime, sem vontade própria, supersticioso, astuto e sem convicções. Foi diante dêste Herodes que compareceu Jesus. Veio a morrer no exílio, indo primeiro para Leão e depois para a Espanha. O título de tetrarca era dado aos príncipes que governavam a quarta parte dum reino desmembrado.
2E disse aos seus criados: Êste é João Batista: Êle ressuscitou dentre os mortos, e por isso obram nele tantos milagres.
3Porque Herodes tinha feito prender a João, e ligar com cadeias: E assim o meteu no cárcere, por causa de Herodiades, mulher de seu irmão.[2]Herodiades, mulher de seu irmão — Era filha de Aristóbulo, um dos filhos de Herodes Magno e de Mariana, e irmã de Herodes Agripa. Casou com seu tio Herodes Filipe, a quem abandonou para se juntar criminosamente com Herodes Antipas, que por sua vez cometeu adultério, abandonando sua mulher, a filha do rei da Arábia. Êste último, para vingar a afronta feita à sua filha, investiu contra o exército de Herodes que desbaratou. O povo, conta Flávio Josefo, tomou esta derrota à conta de castigo, pelo bárbaro assassinato de João Batista, mandado perpetrar por Antipas a instâncias de Herodiades e de sua filha Salomé. Esta Herodiades, vivendo em ambições, acabou por perder o seu cúmplice, obrigando-o a pedir a Roma o título de rei, o que foi aproveitado pelos inimigos, que lhe prepararam o exílio.
MULHER DE SEU IRMÃO — Filipe (como exprime o texto grego), filho do mesmo pai, mas não da mesma mãe. E ela era neta de Herodes, o Grande, e filha de Aristóbulo, irmão dos dois. — Duhamel.
4Porque João lhe dizia: Não te é lícito tê-la por mulher.[3]Não te é lícito — Porque semelhantes núpcias estavam proibidas por Deus, no Lev 18. — Calmet.
5E querendo matá-lo, temia ao povo: Porque o reputavam como um profeta.
6Mas no dia em que Herodes fazia anos, bailou a filha de Herodiades diante de todos e agradou a Herodes.[4]A filha de Herodiades — Chamada Salomé, como consta da história de José, no livro 18, cap. 7. — Duhamel.
7Por onde êle lhe prometeu com juramento, que lhe daria tudo o que lhe pedisse.
8Mas ela, prevenida por sua mãe: Dá-me, disse, aqui em um prato a cabeça de João Batista.
9E o rei se entristeceu: Mas pelo juramento e pelo que estavam com êle à mesa, lha mandou dar.
10E deu ordem para que fossem degolar a João no cárcere.[5]No cárcere — Josefo ensina-nos que S. João Batista foi preso em Maqueronte (Machoerus, hoje M'Kaus) a este do Mar Morto. Era uma fortaleza construída por Alexandre, filho de Hircano I. Herodes Magno tinha-a tornado a fortaleza mais importante. Estava a 1158 metros acima do Mar Morto, e 764 acima do Mediterrâneo.
11E foi trazida a sua cabeça num prato, e dada à moça, e ela a levou a sua mãe.
12E chegando os seus discípulos, levaram o seu corpo, e o sepultaram: E foram dar a notícia a Jesus.
13E quando Jesus a ouviu, se retirou dali em uma barca a um lugar deserto: E tendo ouvido isto, as gentes foram saindo das cidades a pé em seu seguimento.[6]Lugar deserto — Foram saindo — LUGAR DESERTO — Ficava nas cercanias de Betsaida-Júlias, a nordeste do lago de Tiberíades, na tetrarquia de Filipe, príncipe dum caráter pacífico e bondoso.
FORAM SAINDO — Daqui se colhe que o Senhor não atravessou o mar à outra banda, mas sim alguma enseada, donde desembarcou para a mesma parte da terra, por onde foram ter com êle as turbas. — Duhamel.
14E ao saltar em terra viu Jesus uma grande multidão de gente, e teve deles compaixão, e curou os seus enfermos.
15E vindo a tarde, se chegaram a êle os seus discípulos, dizendo: Deserto é êste lugar, e a hora é já passada: Deixa ir essa gente, para que, passando às aldeias, compre de comer.
16E Jesus lhes disse: Não têm necessidade de se ir: Dai-lhes vós outros de comer.
17Responderam-lhe: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.
18Jesus lhes disse: Trazei-mos cá.
19E tendo mandado à gente que se recostasse sôbre o feno, tomando os cinco pães e os dois peixes, com os olhos no Céu abençoou e partiu os pães, e os deu aos discípulos, e os discípulos ao povo.[7]Abençoou — Abençoar e dar graças são expressões sinônimas na Escritura. Jo 6, 11.
20E comeram todos, e se saciaram. E levantaram, do que sobejou, doze cestos cheios daqueles fragmentos.
21E o número dos que comeram foi de cinco mil homens, sem falar em mulheres e meninos.
22E obrigou logo Jesus a seus discípulos a que se embarcassem, e que passassem primeiro que êle à outra ribeira do lago, enquanto êle despedia a gente.[8]A outra ribeira do lago — De Genesar ou Tiberíades. Na margem ficava a terra de Genesar, a oeste provavelmente do lugar chamado hoje el Ghoulir, entre Khan Minych e Midjdel. Josefo diz que esta terra era muito fértil e duma grande beleza.
23E logo que a despediu, subiu só a um monte a orar. E quando veio a noite, achava-se ali só.
24E a barca no meio do mar era combatida das ondas: Porque o vento era contrário.
25Porém na quarta vigília da noite, veio Jesus ter com êles, andando sôbre o mar.[9]Na quarta vigília — Quase ao raiar da alva. Dividiam a noite em quatro partes, que chamavam vigílias, porque, segundo a disciplina militar, se mudavam as sentinelas quatro vêzes no decurso da noite. Estas eram maiores ou menores, segundo variava a estação do ano. A quarta vigília era a última, como se disséssemos ao amanhecer, ou ao raiar da alva. Mc 13, 35. Êste costume foi tomado dos romanos, porque antes de estarem debaixo do seu domínio dividiam a noite em três vigílias. Por isso nos Evangelhos se faz menção da quarta vigília da noite, expressão que não se acha em todo o Antigo Testamento.
26E quando o viram andar sôbre o mar, se turbaram dizendo: É pois um fantasma, e de mêdo começaram a gritar.
27Mas Jesus lhes falou imediatamente, dizendo: Tende confiança, sou eu, não temais.
28E respondendo Pedro, lhe disse: Senhor, se tu és, manda-me que vá até onde tu estás por cima das águas.
29E êle lhe disse: Vem. E descendo Pedro a barca, ia caminhando sôbre a água para chegar a Jesus.
30Vendo, porém, que o vento era rijo, temeu, e quando se ia submergindo, gritou, dizendo: Senhor, põe-me a salvo.
31E no mesmo ponto Jesus estendendo a mão, o tomou por ela e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
32E depois que subiram à barca, cessou o vento.
33Então vieram os que estavam na barca, e o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.
34E tendo passado à outra banda, vieram para a terra de Genesar.
35E depois de o terem reconhecido os naturais daquele lugar, mandaram por todo aquele país circunvizinho, e lhe apresentaram todos quantos padeciam algum mal:
36E lhe rogavam que os deixasse tocar sequer a orla do seu vestido. E todos os que o tocaram, ficaram sãos.