Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

Morte de S. João Batista. Com cinco pães e dois peixes, satisfaz Jesus Cristo no deserto cinco mil homens. Caminha sôbre as ondas em ocasião de tormenta. O mesmo faz Pedro, enquanto lhe não falta a fé. Cura o Senhor diversas enfermidades ao contacto do seu vestido.

1Naquele tempo Herodes tetrarca ouviu a fama de Jesus.[1]Herodes tetrarcaChamava-se também Antipas e era filho, como Arquelau, de Herodes o Grande e da Samaritana Maltácia. Depois da morte de seu pai tornou-se tetrarca da Galiléia e da Peréia. Casou em primeiras núpcias com uma filha do rei árabe Areta, mas pouco depois juntou-se com sua sobrinha Herodiades, mulher de seu irmão Herodes Filipe. Era um espírito fraco, pusilânime, sem vontade própria, supersticioso, astuto e sem convicções. Foi diante dêste Herodes que compareceu Jesus. Veio a morrer no exílio, indo primeiro para Leão e depois para a Espanha. O título de tetrarca era dado aos príncipes que governavam a quarta parte dum reino desmembrado.

2E disse aos seus criados: Êste é João Batista: Êle ressuscitou dentre os mortos, e por isso obram nele tantos milagres.

3Porque Herodes tinha feito prender a João, e ligar com cadeias: E assim o meteu no cárcere, por causa de Herodiades, mulher de seu irmão.[2]Herodiades, mulher de seu irmãoEra filha de Aristóbulo, um dos filhos de Herodes Magno e de Mariana, e irmã de Herodes Agripa. Casou com seu tio Herodes Filipe, a quem abandonou para se juntar criminosamente com Herodes Antipas, que por sua vez cometeu adultério, abandonando sua mulher, a filha do rei da Arábia. Êste último, para vingar a afronta feita à sua filha, investiu contra o exército de Herodes que desbaratou. O povo, conta Flávio Josefo, tomou esta derrota à conta de castigo, pelo bárbaro assassinato de João Batista, mandado perpetrar por Antipas a instâncias de Herodiades e de sua filha Salomé. Esta Herodiades, vivendo em ambições, acabou por perder o seu cúmplice, obrigando-o a pedir a Roma o título de rei, o que foi aproveitado pelos inimigos, que lhe prepararam o exílio.

MULHER DE SEU IRMÃO — Filipe (como exprime o texto grego), filho do mesmo pai, mas não da mesma mãe. E ela era neta de Herodes, o Grande, e filha de Aristóbulo, irmão dos dois. — Duhamel.

4Porque João lhe dizia: Não te é lícito tê-la por mulher.[3]Não te é lícitoPorque semelhantes núpcias estavam proibidas por Deus, no Lev 18. — Calmet.

5E querendo matá-lo, temia ao povo: Porque o reputavam como um profeta.

6Mas no dia em que Herodes fazia anos, bailou a filha de Herodiades diante de todos e agradou a Herodes.[4]A filha de HerodiadesChamada Salomé, como consta da história de José, no livro 18, cap. 7. — Duhamel.

7Por onde êle lhe prometeu com juramento, que lhe daria tudo o que lhe pedisse.

8Mas ela, prevenida por sua mãe: Dá-me, disse, aqui em um prato a cabeça de João Batista.

9E o rei se entristeceu: Mas pelo juramento e pelo que estavam com êle à mesa, lha mandou dar.

10E deu ordem para que fossem degolar a João no cárcere.[5]No cárcereJosefo ensina-nos que S. João Batista foi preso em Maqueronte (Machoerus, hoje M'Kaus) a este do Mar Morto. Era uma fortaleza construída por Alexandre, filho de Hircano I. Herodes Magno tinha-a tornado a fortaleza mais importante. Estava a 1158 metros acima do Mar Morto, e 764 acima do Mediterrâneo.

11E foi trazida a sua cabeça num prato, e dada à moça, e ela a levou a sua mãe.

12E chegando os seus discípulos, levaram o seu corpo, e o sepultaram: E foram dar a notícia a Jesus.

13E quando Jesus a ouviu, se retirou dali em uma barca a um lugar deserto: E tendo ouvido isto, as gentes foram saindo das cidades a pé em seu seguimento.[6]Lugar deserto — Foram saindoLUGAR DESERTO — Ficava nas cercanias de Betsaida-Júlias, a nordeste do lago de Tiberíades, na tetrarquia de Filipe, príncipe dum caráter pacífico e bondoso.

FORAM SAINDO — Daqui se colhe que o Senhor não atravessou o mar à outra banda, mas sim alguma enseada, donde desembarcou para a mesma parte da terra, por onde foram ter com êle as turbas. — Duhamel.

14E ao saltar em terra viu Jesus uma grande multidão de gente, e teve deles compaixão, e curou os seus enfermos.

15E vindo a tarde, se chegaram a êle os seus discípulos, dizendo: Deserto é êste lugar, e a hora é já passada: Deixa ir essa gente, para que, passando às aldeias, compre de comer.

16E Jesus lhes disse: Não têm necessidade de se ir: Dai-lhes vós outros de comer.

17Responderam-lhe: Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.

18Jesus lhes disse: Trazei-mos cá.

19E tendo mandado à gente que se recostasse sôbre o feno, tomando os cinco pães e os dois peixes, com os olhos no Céu abençoou e partiu os pães, e os deu aos discípulos, e os discípulos ao povo.[7]AbençoouAbençoar e dar graças são expressões sinônimas na Escritura. Jo 6, 11.

20E comeram todos, e se saciaram. E levantaram, do que sobejou, doze cestos cheios daqueles fragmentos.

21E o número dos que comeram foi de cinco mil homens, sem falar em mulheres e meninos.

22E obrigou logo Jesus a seus discípulos a que se embarcassem, e que passassem primeiro que êle à outra ribeira do lago, enquanto êle despedia a gente.[8]A outra ribeira do lagoDe Genesar ou Tiberíades. Na margem ficava a terra de Genesar, a oeste provavelmente do lugar chamado hoje el Ghoulir, entre Khan Minych e Midjdel. Josefo diz que esta terra era muito fértil e duma grande beleza.

23E logo que a despediu, subiu só a um monte a orar. E quando veio a noite, achava-se ali só.

24E a barca no meio do mar era combatida das ondas: Porque o vento era contrário.

25Porém na quarta vigília da noite, veio Jesus ter com êles, andando sôbre o mar.[9]Na quarta vigíliaQuase ao raiar da alva. Dividiam a noite em quatro partes, que chamavam vigílias, porque, segundo a disciplina militar, se mudavam as sentinelas quatro vêzes no decurso da noite. Estas eram maiores ou menores, segundo variava a estação do ano. A quarta vigília era a última, como se disséssemos ao amanhecer, ou ao raiar da alva. Mc 13, 35. Êste costume foi tomado dos romanos, porque antes de estarem debaixo do seu domínio dividiam a noite em três vigílias. Por isso nos Evangelhos se faz menção da quarta vigília da noite, expressão que não se acha em todo o Antigo Testamento.

26E quando o viram andar sôbre o mar, se turbaram dizendo: É pois um fantasma, e de mêdo começaram a gritar.

27Mas Jesus lhes falou imediatamente, dizendo: Tende confiança, sou eu, não temais.

28E respondendo Pedro, lhe disse: Senhor, se tu és, manda-me que vá até onde tu estás por cima das águas.

29E êle lhe disse: Vem. E descendo Pedro a barca, ia caminhando sôbre a água para chegar a Jesus.

30Vendo, porém, que o vento era rijo, temeu, e quando se ia submergindo, gritou, dizendo: Senhor, põe-me a salvo.

31E no mesmo ponto Jesus estendendo a mão, o tomou por ela e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste?

32E depois que subiram à barca, cessou o vento.

33Então vieram os que estavam na barca, e o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és Filho de Deus.

34E tendo passado à outra banda, vieram para a terra de Genesar.

35E depois de o terem reconhecido os naturais daquele lugar, mandaram por todo aquele país circunvizinho, e lhe apresentaram todos quantos padeciam algum mal:

36E lhe rogavam que os deixasse tocar sequer a orla do seu vestido. E todos os que o tocaram, ficaram sãos.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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