Capítulo 4
1Então foi levado Jesus pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.[1]ao deserto — AO DESERTO — Êste deserto é o chamado da Quarentena, por causa dos quarenta dias que Jesus Cristo aí passou. Passa a oeste de Jericó; é muito acidentado, e as suas montanhas são as mais belas da Palestina meridional: são de calcáreo branco formando amplas cavernas; foi nestas que naturalmente se refugiaram os espiões que Josué mandou a Jericó (Jos 2, 22). Na era cristã habitaram estas paragens piedosos anacoretas. Pergunta-se: por que se retirou Jesus para o deserto? — 1.° Para obedecer a Deus, Levado pelo espírito, diz o texto. 2.° Para iniciar a expiação dos pecados dos homens. 3.° Para deixar ao homem uma lição de penitência, e de resignação no meio das tentações. 4.° Para se preparar para o seu ministério, pelo afastamento do mundo, recolhimento, oração e mortificação.
2E tendo jejuado quarenta dias, e quarenta noites, depois teve fome.
3E chegando-se a êle o tentador, lhe disse: Se és filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães.
4Jesus respondendo lhe disse: Escrito está: Não só de pão vive o homem, mas de tôda a palavra que sai da bôca de Deus.
5Então tomando-o o diabo o levou à cidade santa, e o pôs sôbre o pináculo do templo.[2]pináculo do templo — PINÁCULO DO TEMPLO — O sentido é incerto, segundo Vigouroux nas notas à Bíblia de Glaire. Uns querem que seja a fachada do templo, outros o conjunto das construções do templo; outros o pórtico de Salomão ou a porta Real, que ficam sôbre um precipício como adverte Josefo.
6E lhe disse: Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque escrito está: Que mandou aos seus anjos que cuidem de ti, e êles te tomarão nas palmas, para que não suceda tropeçares em pedra com o teu pé.
7Jesus lhe disse: Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus.
8De novo o subiu o diabo a um monte muito alto: E lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a glória dêles.
9E lhe disse: Tudo isto te darei, se prostrado me adorares.
10Então lhe disse Jesus: Vai-te, satanás: Porque escrito está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a êle só servirás.
11Então o deixou o diabo: e eis-que chegaram os anjos, e o serviram.
12E quando ouviu Jesus que João fôra prêso, retirou-se para a Galiléia.
13E, deixada a cidade de Nazaré, veio habitar em Cafarnaum, cidade marítima nos confins de Zabulon, e Neftalim:[3]Cafarnaum — CAFARNAUM — Não é fácil indicar precisamente onde fica Cafarnaum. A maldição caiu de tal sorte sôbre a cidade anatematizada que não é fácil discriminar entre as ruínas o local onde se ergueu. Segundo uns, Cafarnaum ficava em Khan-Miniéh; segundo outros, em Tell Hum.
14Para se cumprir o que tinha dito o profeta Isaías:
15A terra de Zabulon, e a terra de Neftalim, a estrada que vai dar no mar além do Jordão, a Galiléia dos gentios.
16Povo, que estava de assento nas trevas, viu uma grande luz: E aos que estavam de assento na região da sombra da morte, a êstes apareceu a luz.
17Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Fazei penitência; porque está próximo o reino dos céus.
18E caminhando Jesus ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, que se chama Pedro; e seu irmão André, que lançavam a rêde ao mar (porque eram pescadores).[4]do mar da Galiléia — DO MAR DA GALILÉIA — Era um lago, ao qual, como a muitos outros, os hebreus chamavam mar, e que teve os seguintes nomes: lago Cennereth, Genesareth ou de Genesar. Chamavam-lhe mar da Galiléia, porque banhava esta região. No tempo de Herodes tomou o nome de Tiberíades, quando êle fundou uma povoação em honra de Tibério. Lamartine descreve com a sua bela pena os encantos do Mar da Galiléia, tão belo, cujas margens eram tão formosas.
19E disse-lhes: Vinde após mim, e farei que vós sejais pescadores de homens.
20E êles sem mais detença, deixadas as rêdes, o seguiram.
21E passando dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João seu irmão, em uma barca com seu pai Zebedeu, que consertavam as suas rêdes: E os chamou.
22E êles no mesmo ponto, deixando as rêdes, e o pai, foram em seu seguimento.
23E Jesus rodeava tôda a Galiléia, ensinando nas suas Sinagogas, e pregando o Evangelho do reino: E curando tôda a casta de doenças, e tôda a casta de enfermidades no povo.[5]o Evangelho do reino — O EVANGELHO DO REINO — Evangelho é uma palavra grega, que significa bom anúncio, ou alegre nova. O evangelho do reino, porém, é o que prometia o reino dos Céus aos homens que seguissem a Jesus Cristo, o reino de Deus.
24E correu a sua fama por tôda a Síria e lhe trouxeram todos os que se achavam enfermos, possuídos de vários achaques, e dores, e os possessos, e os lunáticos, e os paralíticos, e os curou.[6]tôda a Síria — TODA A SÍRIA — No Novo Testamento a Síria designa a região limitada a este pelo Eufrates e pela Arábia, ao sul pela Palestina, a oeste pelo Mediterrâneo e Fenícia, ao norte pela Cordilheira do Amnus.
25E uma grande multidão de povo o foi seguindo de Galiléia, e de Decápole, e de Jerusalém, e da Judéia, e de além do Jordão.[7]Decápole — DECÁPOLE — Era a confederação de muitas cidades unidas para a defesa mútua. Ainda que a palavra Decápole, etimologicamente, designe dez cidades, o número das cidades confederadas era variável. A maior parte ficava situada a este no Jordão. A capital, Sitópolis, a antiga Betsan, a oeste do rio, é a chave da Palestina; depois destas, as mais importantes são Cesaréia, Asor, Cedes, Sefet, Corozain, Cafarnaum, Betsaida, Jetapata e Tiberíades.