Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Vai Jesus para o deserto, onde depois de jejuar quarenta dias, é tentado pelo demônio. Chama os quatro pescadores, Pedro, André, Tiago e João. Anuncia o Evangelho na Galiléia. Cura muitos doentes. Anda acompanhado de muito povo.

1Então foi levado Jesus pelo espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.[1]ao desertoAO DESERTO — Êste deserto é o chamado da Quarentena, por causa dos quarenta dias que Jesus Cristo aí passou. Passa a oeste de Jericó; é muito acidentado, e as suas montanhas são as mais belas da Palestina meridional: são de calcáreo branco formando amplas cavernas; foi nestas que naturalmente se refugiaram os espiões que Josué mandou a Jericó (Jos 2, 22). Na era cristã habitaram estas paragens piedosos anacoretas. Pergunta-se: por que se retirou Jesus para o deserto? — 1.° Para obedecer a Deus, Levado pelo espírito, diz o texto. 2.° Para iniciar a expiação dos pecados dos homens. 3.° Para deixar ao homem uma lição de penitência, e de resignação no meio das tentações. 4.° Para se preparar para o seu ministério, pelo afastamento do mundo, recolhimento, oração e mortificação.

2E tendo jejuado quarenta dias, e quarenta noites, depois teve fome.

3E chegando-se a êle o tentador, lhe disse: Se és filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães.

4Jesus respondendo lhe disse: Escrito está: Não só de pão vive o homem, mas de tôda a palavra que sai da bôca de Deus.

5Então tomando-o o diabo o levou à cidade santa, e o pôs sôbre o pináculo do templo.[2]pináculo do temploPINÁCULO DO TEMPLO — O sentido é incerto, segundo Vigouroux nas notas à Bíblia de Glaire. Uns querem que seja a fachada do templo, outros o conjunto das construções do templo; outros o pórtico de Salomão ou a porta Real, que ficam sôbre um precipício como adverte Josefo.

6E lhe disse: Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque escrito está: Que mandou aos seus anjos que cuidem de ti, e êles te tomarão nas palmas, para que não suceda tropeçares em pedra com o teu pé.

7Jesus lhe disse: Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus.

8De novo o subiu o diabo a um monte muito alto: E lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a glória dêles.

9E lhe disse: Tudo isto te darei, se prostrado me adorares.

10Então lhe disse Jesus: Vai-te, satanás: Porque escrito está: Ao Senhor teu Deus adorarás, e a êle só servirás.

11Então o deixou o diabo: e eis-que chegaram os anjos, e o serviram.

12E quando ouviu Jesus que João fôra prêso, retirou-se para a Galiléia.

13E, deixada a cidade de Nazaré, veio habitar em Cafarnaum, cidade marítima nos confins de Zabulon, e Neftalim:[3]CafarnaumCAFARNAUM — Não é fácil indicar precisamente onde fica Cafarnaum. A maldição caiu de tal sorte sôbre a cidade anatematizada que não é fácil discriminar entre as ruínas o local onde se ergueu. Segundo uns, Cafarnaum ficava em Khan-Miniéh; segundo outros, em Tell Hum.

14Para se cumprir o que tinha dito o profeta Isaías:

15A terra de Zabulon, e a terra de Neftalim, a estrada que vai dar no mar além do Jordão, a Galiléia dos gentios.

16Povo, que estava de assento nas trevas, viu uma grande luz: E aos que estavam de assento na região da sombra da morte, a êstes apareceu a luz.

17Desde então começou Jesus a pregar, e a dizer: Fazei penitência; porque está próximo o reino dos céus.

18E caminhando Jesus ao longo do mar da Galiléia, viu dois irmãos, Simão, que se chama Pedro; e seu irmão André, que lançavam a rêde ao mar (porque eram pescadores).[4]do mar da GaliléiaDO MAR DA GALILÉIA — Era um lago, ao qual, como a muitos outros, os hebreus chamavam mar, e que teve os seguintes nomes: lago Cennereth, Genesareth ou de Genesar. Chamavam-lhe mar da Galiléia, porque banhava esta região. No tempo de Herodes tomou o nome de Tiberíades, quando êle fundou uma povoação em honra de Tibério. Lamartine descreve com a sua bela pena os encantos do Mar da Galiléia, tão belo, cujas margens eram tão formosas.

19E disse-lhes: Vinde após mim, e farei que vós sejais pescadores de homens.

20E êles sem mais detença, deixadas as rêdes, o seguiram.

21E passando dali, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João seu irmão, em uma barca com seu pai Zebedeu, que consertavam as suas rêdes: E os chamou.

22E êles no mesmo ponto, deixando as rêdes, e o pai, foram em seu seguimento.

23E Jesus rodeava tôda a Galiléia, ensinando nas suas Sinagogas, e pregando o Evangelho do reino: E curando tôda a casta de doenças, e tôda a casta de enfermidades no povo.[5]o Evangelho do reinoO EVANGELHO DO REINO — Evangelho é uma palavra grega, que significa bom anúncio, ou alegre nova. O evangelho do reino, porém, é o que prometia o reino dos Céus aos homens que seguissem a Jesus Cristo, o reino de Deus.

24E correu a sua fama por tôda a Síria e lhe trouxeram todos os que se achavam enfermos, possuídos de vários achaques, e dores, e os possessos, e os lunáticos, e os paralíticos, e os curou.[6]tôda a SíriaTODA A SÍRIA — No Novo Testamento a Síria designa a região limitada a este pelo Eufrates e pela Arábia, ao sul pela Palestina, a oeste pelo Mediterrâneo e Fenícia, ao norte pela Cordilheira do Amnus.

25E uma grande multidão de povo o foi seguindo de Galiléia, e de Decápole, e de Jerusalém, e da Judéia, e de além do Jordão.[7]DecápoleDECÁPOLE — Era a confederação de muitas cidades unidas para a defesa mútua. Ainda que a palavra Decápole, etimologicamente, designe dez cidades, o número das cidades confederadas era variável. A maior parte ficava situada a este no Jordão. A capital, Sitópolis, a antiga Betsan, a oeste do rio, é a chave da Palestina; depois destas, as mais importantes são Cesaréia, Asor, Cedes, Sefet, Corozain, Cafarnaum, Betsaida, Jetapata e Tiberíades.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

📄 PDF
📄 Original