Capítulo 22
1E respondendo Jesus, lhes tornou a falar segunda vez em parábolas, dizendo:
2O reino dos Céus é semelhante a um homem rei que fez as bodas a seu filho.
3E mandou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, mas êles recusaram ir.
4Enviou de novo outros servos, com êste recado: Dizei aos convidados: Eis aqui tenho preparado o meu banquete, os meus touros, e os animais cevados já mortos, e tudo pronto, vinde às bodas.
5Mas êles desprezaram o convite: E se foram, um para a sua casa de campo, e outro para o seu tráfico:
6Outros porém lançaram mão dos servos que êle enviara; e depois de os haverem ultrajado, os mataram.
7Mas o rei tendo ouvido isto, se irou: E tendo feito marchar os seus exércitos, acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade.[1]E TENDO FEITO MARCHAR OS SEUS EXÉRCITOS — Alude em profecia ao sítio e destruição de Jerusalém em tempo de Vespasiano e de Tito, quarenta anos depois. — Duhamel.
8Então disse aos seus servos: As bodas com efeito estão preparadas, mas os que estavam convidados não foram dignos de se acharem no banquete:
9Ide pois às saídas das ruas, e a quantos achardes, convidai-os para as bodas.[2]IDE POIS ÀS SAÍDAS DAS RUAS — Estas ruas, ou estradas, e estas saídas representam os diferentes extravios, por onde as nações haviam andado, desde que começaram a apartar-se do direito, negando-se a admitir a verdade, e 'corrompendo cada um o seu caminho', Gên 6, 12. Todos os povos, sem distinção alguma, foram convidados à fé de Jesus Cristo ao banquete das suas bodas pela pregação do Evangelho, que se publicou, e anunciou até às extremidades da terra.
10E tendo saído os seus servos pelas ruas, congregaram todos os que acharam, maus e bons: E ficou cheia de convidados a sala do banquete das bodas.[3]E FICOU CHEIA DE CONVIDADOS — E a Igreja, figurada nesta sala, se encheu de um grande número de povos e nações, que ocuparam o lugar dos judeus; 'cujo pecado', como diz S. Paulo, Rom 9, 12, passou a ser cousa de salvação para os gentios.
11Entrou depois o rei para ver os que estavam à mesa, e viu ali um homem que não estava vestido com veste nupcial.[4]COM VESTE NUPCIAL — Êste homem representa os maus cristãos; que não tiveram cuidado de se vestir das obras da justiça, e da caridade, que são os frutos da fé, e por isso se perderam. — Sacy.
12E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido nupcial? Mas êle emudeceu.
13Então disse o rei aos seus ministros: Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores: Aí haverá chôro e ranger dos dentes.[5]NAS TREVAS EXTERIORES — Que consistem em uma inteira privação da luz de Deus, como a dos condenados.
14Porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos.
15Então retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam no que falasse.
16E enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, nós sabemos que és verdadeiro, e que ensinas o caminho de Deus pela verdade, e não se te dá de ninguém: Porque não fazes acepção de pessoas:[6]HERODIANOS — Uns entendem que eram os membros duma seita, outros os partidários e familiares de Herodes Antipas. Parece porém que constituíam um partido político, que considerava a família de Herodes como o melhor esteio dos judeus contra a absorção total do seu país no império romano, e que procurava aliar o judaísmo com o paganismo, não se importando com a estrita observância da lei mosaica.
17Dize-nos pois qual é o teu sentimento: É lícito dar o tributo a César, ou não?[7]É LÍCITO — Desde o tempo de Pompeu eram obrigados os judeus a pagar o tributo de duas dracmas aos imperadores romanos, que por isso costumavam bater moeda do valor do tributo ou de uma metade. E êste tributo era muito diverso do outro que os judeus pagavam para as obras do templo, como ouvimos no cap. 17, vers. 23. Porque o do cap. 17, era instituído por Moisés a favor do templo, não o pagavam senão os que tivessem vinte e cinco anos. Êste porém do cap. 22, era imposto pelos romanos: e segundo escreve Ulpiano na lei 3, De Censibus, pagavam-no todos os varões de quatorze anos, e todas as fêmeas de doze para cima.
18Porém Jesus conhecendo a sua malícia, disse-lhes: Por que me tentais, hipócritas?
19Mostrai-me cá a moeda do censo. E êles lhe apresentaram um dinheiro.
20E Jesus lhes disse: De quem é esta imagem e inscrição?
21Responderam-lhe êles: De César. Então lhes disse Jesus: Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.
22E quando isto ouviram se admiraram, e deixando-o se retiraram.
23Naquele dia vieram a êle os saduceus, que dizem não haver ressurreição: E lhe fizeram esta pergunta,
24dizendo: Mestre, Moisés disse: Que se morrer algum que não tenha filho, seu irmão se case com sua mulher, e dê sucessão a seu irmão.
25Ora entre nós havia sete irmãos: Depois de casado faleceu o primeiro: E porque não teve filho, deixou sua mulher a seu irmão.
26O mesmo sucedeu ao segundo, ao terceiro, até ao sétimo.
27E ultimamente, depois de todos, faleceu também a mulher.
28A qual dos sete logo pertencerá a mulher na ressurreição? porque todos foram casados com ela.
29E respondendo Jesus, lhes disse: Errais não sabendo as Escrituras, nem o poder de Deus.
30Porque depois da ressurreição, nem as mulheres terão maridos, nem os maridos mulheres: Mas serão como os Anjos de Deus no Céu.
31E sôbre a ressurreição dos mortos, vós não tendes lido o que Deus disse, falando convosco:
32Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó? ora Deus não o é de mortos, mas de vivos.[8]ORA DEUS NÃO O É DE MORTOS — Argumento dos que os filósofos chamam ad hominem tirado do testemunho do Êxodo. Como se Cristo dissera: Se não há espírito, nem alma imortal, como vós dizeis; nem por consequência ressurreição, como podia Deus, falando com Moisés muitos anos depois da morte de Abraão, Isaac, e Jacó, chamar-se Deus deles? Logo êle se chama seu Deus, é isto prova de que ainda depois de mortos viviam aqueles Patriarcas. Porque Deus não é Deus do que não há; ou do que não existe. Logo é falso que as almas morrem com os corpos. — Sacy.
33E a gente do povo ouvindo isto, estava admirada da sua doutrina.
34Mas os fariseus, quando ouviram que Jesus tinha feito calar a bôca aos saduceus, se ajuntaram em conselho:
35E um dêles, que era doutor da lei, tentando-o, lhe perguntou:
36Mestre, qual é o grande mandamento da lei?
37Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma, e de todo o teu entendimento,
38Êste é o máximo, e o primeiro mandamento.
39E o segundo semelhante a êste é: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo.
40Dêstes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.
41E estando juntos os fariseus, lhes fez Jesus esta pergunta,
42dizendo: Que vos parece a vós do Cristo? de quem é êle filho? Responderam-lhe: De Davi.[9]DE DAVI — Isto é: descendente de Davi.
43Jesus lhes replicou: Pois como lhe chama Davi em espírito, Senhor, dizendo:[10]EM ESPÍRITO — Isto é, falando pelo Espírito de Deus.
44Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha mão direita até que eu reduza os teus inimigos a servirem de escabêlo a teus pés?[11]A SERVIREM DE ESCABÊLO — Estas palavras são do Salmo 109. Os vencedores tinham o costume de pôr os seus pés no colo dos vencidos em sinal de triunfo, de modo que esta expressão corresponde a submetê-los sob o seu poder.
45Se pois Davi o chama o seu Senhor, como é êle seu filho?
46E não houve quem lhe pudesse responder uma só palavra: E daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas.