Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

Parábola do festim das bodas. O que não trouxe vestido nupcial, é expulso, e lançado em trevas. Deve-se pagar o tributo a César. Os saduceus confundidos. O preceito máximo é o de amar a Deus de todo o coração. Davi sendo pai do Messias, chama a êste seu Senhor.

1E respondendo Jesus, lhes tornou a falar segunda vez em parábolas, dizendo:

2O reino dos Céus é semelhante a um homem rei que fez as bodas a seu filho.

3E mandou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, mas êles recusaram ir.

4Enviou de novo outros servos, com êste recado: Dizei aos convidados: Eis aqui tenho preparado o meu banquete, os meus touros, e os animais cevados já mortos, e tudo pronto, vinde às bodas.

5Mas êles desprezaram o convite: E se foram, um para a sua casa de campo, e outro para o seu tráfico:

6Outros porém lançaram mão dos servos que êle enviara; e depois de os haverem ultrajado, os mataram.

7Mas o rei tendo ouvido isto, se irou: E tendo feito marchar os seus exércitos, acabou com aqueles homicidas, e pôs fogo à sua cidade.[1]E TENDO FEITO MARCHAR OS SEUS EXÉRCITOSAlude em profecia ao sítio e destruição de Jerusalém em tempo de Vespasiano e de Tito, quarenta anos depois. — Duhamel.

8Então disse aos seus servos: As bodas com efeito estão preparadas, mas os que estavam convidados não foram dignos de se acharem no banquete:

9Ide pois às saídas das ruas, e a quantos achardes, convidai-os para as bodas.[2]IDE POIS ÀS SAÍDAS DAS RUASEstas ruas, ou estradas, e estas saídas representam os diferentes extravios, por onde as nações haviam andado, desde que começaram a apartar-se do direito, negando-se a admitir a verdade, e 'corrompendo cada um o seu caminho', Gên 6, 12. Todos os povos, sem distinção alguma, foram convidados à fé de Jesus Cristo ao banquete das suas bodas pela pregação do Evangelho, que se publicou, e anunciou até às extremidades da terra.

10E tendo saído os seus servos pelas ruas, congregaram todos os que acharam, maus e bons: E ficou cheia de convidados a sala do banquete das bodas.[3]E FICOU CHEIA DE CONVIDADOSE a Igreja, figurada nesta sala, se encheu de um grande número de povos e nações, que ocuparam o lugar dos judeus; 'cujo pecado', como diz S. Paulo, Rom 9, 12, passou a ser cousa de salvação para os gentios.

11Entrou depois o rei para ver os que estavam à mesa, e viu ali um homem que não estava vestido com veste nupcial.[4]COM VESTE NUPCIALÊste homem representa os maus cristãos; que não tiveram cuidado de se vestir das obras da justiça, e da caridade, que são os frutos da fé, e por isso se perderam. — Sacy.

12E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestido nupcial? Mas êle emudeceu.

13Então disse o rei aos seus ministros: Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores: Aí haverá chôro e ranger dos dentes.[5]NAS TREVAS EXTERIORESQue consistem em uma inteira privação da luz de Deus, como a dos condenados.

14Porque são muitos os chamados e poucos os escolhidos.

15Então retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam no que falasse.

16E enviaram-lhe seus discípulos juntamente com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, nós sabemos que és verdadeiro, e que ensinas o caminho de Deus pela verdade, e não se te dá de ninguém: Porque não fazes acepção de pessoas:[6]HERODIANOSUns entendem que eram os membros duma seita, outros os partidários e familiares de Herodes Antipas. Parece porém que constituíam um partido político, que considerava a família de Herodes como o melhor esteio dos judeus contra a absorção total do seu país no império romano, e que procurava aliar o judaísmo com o paganismo, não se importando com a estrita observância da lei mosaica.

17Dize-nos pois qual é o teu sentimento: É lícito dar o tributo a César, ou não?[7]É LÍCITODesde o tempo de Pompeu eram obrigados os judeus a pagar o tributo de duas dracmas aos imperadores romanos, que por isso costumavam bater moeda do valor do tributo ou de uma metade. E êste tributo era muito diverso do outro que os judeus pagavam para as obras do templo, como ouvimos no cap. 17, vers. 23. Porque o do cap. 17, era instituído por Moisés a favor do templo, não o pagavam senão os que tivessem vinte e cinco anos. Êste porém do cap. 22, era imposto pelos romanos: e segundo escreve Ulpiano na lei 3, De Censibus, pagavam-no todos os varões de quatorze anos, e todas as fêmeas de doze para cima.

18Porém Jesus conhecendo a sua malícia, disse-lhes: Por que me tentais, hipócritas?

19Mostrai-me cá a moeda do censo. E êles lhe apresentaram um dinheiro.

20E Jesus lhes disse: De quem é esta imagem e inscrição?

21Responderam-lhe êles: De César. Então lhes disse Jesus: Pois dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

22E quando isto ouviram se admiraram, e deixando-o se retiraram.

23Naquele dia vieram a êle os saduceus, que dizem não haver ressurreição: E lhe fizeram esta pergunta,

24dizendo: Mestre, Moisés disse: Que se morrer algum que não tenha filho, seu irmão se case com sua mulher, e dê sucessão a seu irmão.

25Ora entre nós havia sete irmãos: Depois de casado faleceu o primeiro: E porque não teve filho, deixou sua mulher a seu irmão.

26O mesmo sucedeu ao segundo, ao terceiro, até ao sétimo.

27E ultimamente, depois de todos, faleceu também a mulher.

28A qual dos sete logo pertencerá a mulher na ressurreição? porque todos foram casados com ela.

29E respondendo Jesus, lhes disse: Errais não sabendo as Escrituras, nem o poder de Deus.

30Porque depois da ressurreição, nem as mulheres terão maridos, nem os maridos mulheres: Mas serão como os Anjos de Deus no Céu.

31E sôbre a ressurreição dos mortos, vós não tendes lido o que Deus disse, falando convosco:

32Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó? ora Deus não o é de mortos, mas de vivos.[8]ORA DEUS NÃO O É DE MORTOSArgumento dos que os filósofos chamam ad hominem tirado do testemunho do Êxodo. Como se Cristo dissera: Se não há espírito, nem alma imortal, como vós dizeis; nem por consequência ressurreição, como podia Deus, falando com Moisés muitos anos depois da morte de Abraão, Isaac, e Jacó, chamar-se Deus deles? Logo êle se chama seu Deus, é isto prova de que ainda depois de mortos viviam aqueles Patriarcas. Porque Deus não é Deus do que não há; ou do que não existe. Logo é falso que as almas morrem com os corpos. — Sacy.

33E a gente do povo ouvindo isto, estava admirada da sua doutrina.

34Mas os fariseus, quando ouviram que Jesus tinha feito calar a bôca aos saduceus, se ajuntaram em conselho:

35E um dêles, que era doutor da lei, tentando-o, lhe perguntou:

36Mestre, qual é o grande mandamento da lei?

37Jesus lhe disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de tôda a tua alma, e de todo o teu entendimento,

38Êste é o máximo, e o primeiro mandamento.

39E o segundo semelhante a êste é: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo.

40Dêstes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.

41E estando juntos os fariseus, lhes fez Jesus esta pergunta,

42dizendo: Que vos parece a vós do Cristo? de quem é êle filho? Responderam-lhe: De Davi.[9]DE DAVIIsto é: descendente de Davi.

43Jesus lhes replicou: Pois como lhe chama Davi em espírito, Senhor, dizendo:[10]EM ESPÍRITOIsto é, falando pelo Espírito de Deus.

44Disse o Senhor ao meu Senhor, senta-te à minha mão direita até que eu reduza os teus inimigos a servirem de escabêlo a teus pés?[11]A SERVIREM DE ESCABÊLOEstas palavras são do Salmo 109. Os vencedores tinham o costume de pôr os seus pés no colo dos vencidos em sinal de triunfo, de modo que esta expressão corresponde a submetê-los sob o seu poder.

45Se pois Davi o chama o seu Senhor, como é êle seu filho?

46E não houve quem lhe pudesse responder uma só palavra: E daquele dia em diante ninguém mais ousou fazer-lhe perguntas.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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