Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Condenam-se os juízos temerários. Que se não devem dar as coisas santas aos cães. Que todo o que pede, e busca, e bate à porta, Deus o ouve. Que devemos fazer ao próximo e o que queremos que êle nos faça. Que é estreita a porta por onde se entra no Céu. Como se hão de conhecer os profetas falsos. Como se há-de ouvir a palavra de Deus.

1Não queirais julgar, para que não sejais julgados.

2Pois com o juízo com que julgardes, sereis julgados: E com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós.

3Por que vês tu pois a aresta no ôlho de teu irmão: E não vês a trave no teu ôlho?[1]a aresta no ôlhoPOR QUE VÊS TU POIS A ARESTA — Jesus Cristo não tira aqui o poder de julgar, nos que estão estabelecidos para corrigir e castigar aos que pecam. Condena sim o juízo, que fazemos temeràriamente dos nossos irmãos, quando por menos consideração, por preocupação, ou por malignidade julgamos da sua conduta, dos seus sentimentos e das suas intenções. Condena também o orgulho, que nos cega para não vermos nossas faltas, ainda que sejam muito avultadas, e que nos dá olhos de lince para descobrir ainda os menores defeitos de nossos próximos. Era êste um provérbio entre os hebreus.

4Ou como dizes a teu irmão: Deixa-me tirar-te do ôlho uma aresta: Quando tu tens no teu uma trave?

5Hipócrita, tira primeiro a trave do teu ôlho, e então verás como hás de tirar a aresta do ôlho de teu irmão.

6Não deis aos cães o que é santo: Nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que êles lhes ponham os pés em cima, e tornando-se contra vós vos despedacem.[2]lanceis aos porcosNEM LANCEIS AOS PORCOS — Assim como não é permitido dar às pessoas impuras, e muito menos aos animais, as vítimas que se oferecem a Deus, da mesma sorte não convém que se anuncie a palavra de Deus, ou se comuniquem as suas graças, aos que as desprezam. — Amelote.

7Pedi, e dar-se-vos-á: Buscai, e achareis: Batei, e abrir-se-vos-á.

8Porque todo o que pede, recebe: E o que busca, acha: E a quem bate, abrir-se-á.

9Ou qual de vós porventura é o homem que se seu filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra?

10Ou porventura, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente?

11Pois se vós outros sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos: Quanto mais vosso Pai, que está nos Céus, dará bens aos que lhos pedirem?

12E assim tudo o que vós quereis que vos façam os homens, fazei-o também vós a êles. Porque esta é a lei, e os profetas.

13Entrai pela porta estreita: Porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que guia para a perdição, e muitos são os que entram por ela.

14Que estreita é a porta, e que apertado o caminho, que guia para a vida: E que poucos são os que acertam com êle!

15Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e dentro são lôbos roubadores:[3]falsos profetasFALSOS PROFETAS — Os hebreus davam a designação de profetas não só aos que prediziam o futuro, mas àqueles que interpretavam a Escritura. Sob a denominação de falsos profetas entendem os falsos doutores judeus e cristãos.

16Pelos seus frutos os conhecereis. Porventura os homens colhem uvas dos espinhos, ou figos dos abrolhos?

17Assim tôda a árvore boa dá bons frutos: E a má árvore dá maus frutos:

18Não pode a árvore boa dar maus frutos: Nem a árvore má dar bons frutos:[4]a árvore máA ÁRVORE MÁ DÁ BONS FRUTOS — O homem mau corrompe e perverte com os seus maus conselhos, e sobretudo com os péssimos exemplos, levando a corrupção ao coração dos outros.

19Tôda a árvore, que não dá bom fruto, será cortada e metida no fogo.

20Assim pois pelos frutos dêles os conhecereis.

21Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos Céus: Mas sim o que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus, êsse entrará no reino dos Céus.

22Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não é assim que profetizamos em teu nome, e em teu nome expelimos os demônios, e em teu nome obramos muitos prodígios?

23E eu então lhes direi em voz bem inteligível: Pois eu nunca vos conheci: Apartai-vos de mim, os que obrais a iniqüidade.

24Todo aquêle pois que ouve estas minhas palavras, e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou a sua casa sôbre rocha.

25E veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela não caiu: Porque estava fundada sôbre a rocha.

26E todo o que ouve estas minhas palavras, e as não observa, será comparado ao homem sem consideração, que edificou a sua casa sôbre areia:

27E veio a chuva, e trasbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa e ela caiu, e foi grande a sua ruína.

28E aconteceu que, tendo acabado Jesus êste discurso, estava o povo admirado da sua doutrina.

29Porque êle os ensinava como quem tinha autoridade, e não como os escribas dêles, e os fariseus.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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