Capítulo 27
1E chegada que foi a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos do povo entraram em conselho contra Jesus, para o entregarem à morte.[1]1 — ENTRARAM EM CONSELHO — Houve uma segunda reunião do sinédrio. Naturalmente a primeira tinha sido considerada ilegal, já por falta de convocação de todos os membros, já por ter funcionado de noite, e fora do local designado para as sessões. Esta segunda assembleia devia obedecer a todas as prescrições, guardadas todas as formalidades.
2E preso o levaram, e entregaram ao governador Pôncio Pilatos.[2]2 — PÔNCIO PILATOS — Êste não era mais do que um procurador da Judéia. Assim chamavam os romanos aos que estavam encarregados de cobrar as rendas do Império. Dião Cassio, Liv. 53, Tácito Annal. Liv. 15. Os que eram enviados a províncias grandes, governadas por um presidente, só tinham a superintendência das rendas: porém quando as províncias eram pequenas, exerciam também a autoridade de governadores, e desta classe era Pilatos. Os romanos tinham tirado aos judeus o poder de condenar a algum réu à pena capital, e por esta razão, ainda que Caifás declarou a Jesus Cristo réu de morte, não deu contra êle a sentença, mas remeteu-o ao governador da província. Governou a província da Judéia desde 26 a 30, subordinado ao legado da Síria. Residiu em Cesaréia; como Antipas, vinha a Jerusalém nas grandes solenidades. Habitou o pretório contíguo ao palácio de Herodes e Torre Chitoria.
3Então Judas, que havia sido o traidor, vendo que fôra condenado Jesus, tocado de arrependimento, tornou a levar as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes, e anciãos,
4dizendo: Pequei, entregando o sangue inocente. Mas êles lhe responderam: A nós que se nos dá? viras tu lá o que fazias.
5E depois de lançar as moedas no templo retirou-se: E foi-se pendurar de um laço.
6Mas os príncipes dos sacerdotes, tomando o dinheiro, disseram: Não é lícito deitá-lo na arca das esmolas: Porque é preço de sangue.[3]3 — NA ARCA DAS ESMOLAS — Ou cofre Corbona, ou como lhe chama Mc 7, 11, Corban, é palavra hebraica, que significa oferenda feita a Deus, ou ao seu templo, do verbo Carab, ou Cerib, apresentar, oferecer: e quer dizer "tesouro sagrado". — S. Jerônimo.
7Tendo, pois, deliberado em conselho sôbre a matéria, compraram com êle o campo de um oleiro, e para servir de cemitério aos forasteiros.[4]4 — O CAMPO DE UM OLEIRO — Onde se faziam panelas e vasilhas de barro.
PARA SERVIR DE CEMITÉRIO — Dos que não pertenciam ao povo de Deus, dos quais os judeus queriam estar separados ainda depois de mortos.
8Por esta razão se ficou chamando aquele campo até o dia de hoje, Haceldamá, isto é, campo de sangue.[5]5 — HACELDAMÁ — A voz "haceldamá" é siríaca, do hebreu dan ou para melhor dizer do caldeu dama, "sangue". Foi tão assinalado êste campo, que desde aquele tempo não foi conhecido por outro nome, permitindo-o Deus assim, para que fôsse uma prova e um monumento eterno da injustiça dos judeus. Fica ao sul de Jerusalém, sôbre a vertente meridional do vale Ben-Himon.
9Então se cumpriu o que foi anunciado ao profeta Jeremias, que diz: E tomaram as trinta moedas de prata, preço do que foi apreçado, a quem puseram em preço com os filhos de Israel:[6]6 — QUE DIZ — Parte dessa profecia se acha em Jer 32, 7-9, e parte em Zac 11, 12. 13. A compra do campo está em Jeremias, e o preço das trinta moedas se lê em Zacarias; em S. Mateus acrescenta as últimas palavras do preço dos filhos de Israel: Davi Kimchi, na prefação a Jeremias, diz: que Jeremias antigamente ocupava o primeiro lugar no Livro dos profetas, e daqui a menção que faz Mt 16, 14, com referência aos outros profetas, parece ser, porque era o primeiro, cujo nome se lia no dito Livro. E o mesmo deve entender-se aqui, isto é, que cita o Livro dos profetas nomeando a Jeremias. A êste modo disse também o Salvador, Lc 24, 44, há-de se cumprir tudo o que há escrito acerca de mim na Lei, nos profetas, nos salmos, isto é, nos Livros dos escritores Sagrados, nos quais tinha o primeiro lugar o dos salmos.
10E deram-nas pelo campo de um oleiro, assim como me ordenou o Senhor.
11Foi apresentado, pois, Jesus ao governador, e o governador lhe fez esta pergunta, dizendo: Tu és o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu o dizes.
12E sendo acusado pelos príncipes dos sacerdotes, e pelos anciãos, não respondeu coisa alguma.
13Então lhe disse Pilatos: Tu não ouves de quantos crimes te fazem cargo?
14E não lhe respondeu a palavra alguma, de modo que se admirou o governador em grande maneira.
15Ora o governador tinha por costume, no dia da festa, soltar aquele preso que os do povo quisessem;[7]7 — NO DIA DA FESTA — Da Páscoa. Costume introduzido pelos judeus, em memória de haverem sido livres por Deus da escravidão do Egito, e que conservaram, segundo se vê neste lugar, os romanos senhores da Província.
16E naquela ocasião tinha êle um preso afamado, que se chamava Barrabás.
17Estando pois êles todos juntos, disse-lhes Pilatos: Qual quereis vós que eu vos solte? Barrabás, ou Jesus, que se chama o Cristo?[8]8 — QUE SE CHAMA O CRISTO — Causa verdadeiramente assombro, que costumando pedir os judeus, nesta solenidade da Páscoa, o livramento e soltura de um réu, fôsse Pilatos o que pediu pelo justo dos justos, e não pôde conseguir a sua liberdade. S. João Crisóstomo. Pilatos, que conhecia a inocência do Senhor e que desejava tirá-lo das mãos dos judeus, escolheu expressamente a Barrabás para o pôr em comparação do Salvador, não duvidando que o povo, a quem Jesus havia acumulado de benefícios, o preferiria a um ladrão, assassino, e sedicioso. Mas enganou-se; porque o povo, instigado pelos príncipes dos sacerdotes, e pelos seus anciãos, ou magistrados, pediu a liberdade do facinoroso, e condenou a ser crucificado ao que era a mesma inocência. Barrabás era ladrão e assassino.
18Porque sabia que por inveja é que lho haviam entregado.
19Entretanto, estando êle assentado no seu tribunal, mandou-lhe dizer sua mulher: Não te embaraces com a causa dêsse justo: Porque hoje em sonhos foi muito o que padeci por seu respeito.[9]9 — SUA MULHER — Era, segundo a tradição, Claudia Procla ou Prócula.
20Mas os príncipes dos sacerdotes, e os anciãos persuadiram aos do povo que pedissem a Barrabás, e que fizessem morrer a Jesus.
21E fazendo o governador esta pergunta, lhes disse: Qual dos dois quereis vós que eu vos solte? e responderam êles: Barrabás.
22Disse-lhes Pilatos: Pois que hei de fazer de Jesus, que se chama o Cristo?
23Responderam todos: Seja crucificado. O governador lhes disse: Pois que mal tem êle feito? e êles levantaram mais o grito dizendo: Seja crucificado.
24Então Pilatos vendo que nada aproveitava, mas que cada vez era maior o tumulto: Mandando vir água, lavou as mãos à vista do povo, dizendo: Eu sou inocente do sangue dêste justo: Vós lá vos avinde.[10]10 — MANDANDO VIR ÁGUA — Os pagãos lavavam as mãos, quer nas alianças, quer para expiar um assassínio; julgam contudo alguns críticos que Pilatos quis apenas conformar-se com a usança dos judeus para lhes ser agradável.
25E respondendo todo o povo, disse: O seu sangue caia sôbre nós, e sôbre nossos filhos.[11]11 — E SÔBRE NOSSOS FILHOS — Terrível imprecação! O seu funesto efeito tem sido, é, e será sempre bem visível. O estado a que foi reduzida a nação dos judeus, chegando a ser o opróbrio de todos os povos, tem sido o complemento desta maldição, que pronunciaram contra si; e êste mesmo complemento deveria abrir-lhes os olhos para que vissem uma luz, que podia dissipar as trevas da morte, em que voluntária e pertinazmente se acham sepultados.
26Então lhes soltou a Barrabás: E depois de fazer açoitar a Jesus, entregou-lho para ser crucificado.[12]12 — E DEPOIS DE FAZER AÇOITAR A JESUS — Os romanos costumavam fazer açoitar aos que condenavam a serem crucificados, antes de os encravarem na cruz. S. Jerônimo. Mas pelo Evangelho de S. João, 19, 12, se vê que Pilatos tinha feito açoitar Jesus, com desígnio de abrandar os corações de seus inimigos, crendo que movidos de compaixão, e satisfeito o seu furor desistiriam de pedir a sua morte. Porém foi acender mais a sêde que tinham de o ver crucificado. E assim como cães danados gritavam cada vez mais, até que viram cumpridos os seus desejos. S. Mateus não segue aqui a ordem precisa do tempo na narração de tôdas estas circunstâncias. — Santo Agostinho.
PARA SER CRUCIFICADO — O suplício da cruz era o castigo dos escravos, ladrões e sediciosos, segundo as leis romanas. Os hebreus, segundo certos escritos, não crucificavam os homens em vida, mas depois da morte, antes do pôr do sol Dt 21, 22. 23. Cfr. Glaire.
27Então os soldados do governador, tomando a Jesus para o levarem ao Pretório, fizeram formar à roda dêle tôda a coorte:[13]13 — PRETÓRIO — O pretório ficava no lugar onde hoje se vê uma caserna turca. Ainda se descobrem as antigas pedras que pertenceram ao edifício. Era a habitação de Pilatos. A escada que liga o andar inferior com o superior, foi transportada para Roma, em 326, pela imperatriz Helena, e venera-se hoje perto de S. João de Latrão, sob o nome de Scala Santa. Compõe-se de vinte e oito degraus de pedra, cobertos de madeira. Os fiéis sobem-na de joelhos. No meio há dois pequenos orifícios na madeira, que deixam ver a pedra, que é beijada respeitosamente.
28E despindo-o, lhe vestiram um manto carmezim.[14]14 — UM MANTO CARMEZIM — Em grego chlâmyde nome que a Vulgata conservou: É um manto de lã, aberto, passando no sovaco esquerdo para deixar o braço completamente desembaraçado, prendendo-se com um colchete. Era a veste militar do soldado romano. Os tribuns usavam-na de côr branca; os generals e imperadores de côr de púrpura.
29E tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram sôbre a cabeça, e na sua mão direita uma cana. E ajoelhando diante dêle, o escarneciam, dizendo: Deus te salve, rei dos judeus.[15]15 — UMA COROA DE ESPINHOS — Esta coroa era feita de juncos entrelaçados de espinhos, de Ziziphus. A coroa propriamente dita guarda-se, como é sabido, em Notre-Dame de Paris. Compõe-se dum anel de feixes de juncos, sendo o diâmetro interior de 10 milímetros, e a espessura de 15 milímetros de diâmetro. Os juncos são apertados por dezesseis nós de juncos semelhantes. Os espinhos são de rhamus, nome genérico, a cuja classe pertence a ziziphus spini Christi. Êstes espinhos são perfurantes, cada um é mais cortante do que a garra do leão, fazendo brotar sangue em abundância. O espinho principal tem 20 milímetros de comprimento. Crf. Rehault de Fleury, Mémoire sur les instruments de la Passion, 1870, Paris, p. p. 202, 208. Os espinhos mais notáveis que se conhecem são o de Pisa, o de Saint Servien, de Toulouse, e do seminario de Autun, da catedral de Treves. Na Sé de Lisboa existe um, guardado em magnífico relicário de ouro esmaltado, preciocíssimo trabalho, que veio do convento de Thomar, dos freires de Cristo. Também as religiosas da Madre de Deus, de Xabregas, possuíam outro, em suntuoso relicário, que se pode ver no Museu das Belas Artes às Janelas Verdes.
30E cuspindo nêle, tomaram uma cana, e lhe davam com ela na cabeça.
31E depois que o escarneceram, despiram-no do manto, e vestiram-lhe os seus hábitos, e assim o levaram para o crucificarem.
32E ao sair da cidade acharam um homem de Cirene, por nome Simão: A êste constrangeram a que levasse a cruz dêle padecente.[16]16 — A CRUZ — Os autores têm apresentado opiniões diversas sôbre a forma e matéria da Cruz. Depois do exame científico rigoroso feito sôbre as relíquias da Paixão, pode-se afirmar que a madeira da cruz provinha duma conífera, e não se pode duvidar que fosse o pinheiro. Rehault de Fleury, ob. cit. p. 63. A forma devia ser a usualmente apresentada: uma haste vertical, e uma transversal, tendo aquela 4m, 80 e esta 2m, 30 a 2,60. Segundo o uso dos romanos os condenados levavam êles próprios a cruz ao lugar do suplício, atravessando as principais ruas da cidade (Plauto). Mas na crucificação de Cristo intervém Simão o Cireneu, certamente para ajudar Jesus, que teve de atravessar tôda a cidade de Jerusalém, desde o Pretório até ao Calvário, percorrendo um trajeto não inferior a 500 ou 600 metros. O pêso da cruz devia ser de 100 quilos aproximadamente. Como a arrastava pela terra, haveria uma diminuição do pêso, que não podia ir além de 30 quilos, tendo Jesus de suportar 70 a 75 quilos. Exausto pelos sofrimentos suportados anteriormente, êste pêso excedia as suas forças, e isto justifica naturalmente a intervenção do Cireneu, tanto mais se nos lembrarmos que as dificuldades exaradas acima eram agravadas pela tortuosidade dos caminhos, cobertos de enormes pedregulhos. Na cruz havia o sedile, um pedaço de madeira destinado a dar um ponto de apoio ao corpo, para que este não caísse, rasgando-se os tecidos das mãos cravadas. Zockler, Das Kreuz, p. 437, e Krauss, Real Encyclopedie der christlichen Alterhumer, t. 2, pp. 224, 245.
33E vieram a um lugar que se chama Gólgota, que é o lugar do Calvário.[17]17 — CALVÁRIO — Em hebreu Gulgolet, em aramaico Golgota, nomes que querem dizer crânio, caveira. S. Lucas o traduziu por kranion, e os demais evangelistas kranion topos calvariae locus. Isso indica a forma do lugar da crucificação; não era monte, nem colina, mas sòmente o lugar parecido com um crânio, um pequeno montículo, pequeno e acessível cabeço, vizinho às muralhas de Jerusalém, como lhe chama o sr. Bispo de Betsaida, nos Ensaios do Pulpito, p. 151. Segundo êste erudito prelado 'o Calvario não excede uma altura inferior a cinco metros, a qual se sobe, ao presente, dum lado por dezoito escalões e doutro por dezenove, abertos na rocha.' Está situado no declive de Gareb. Muitos escritores heterodoxos têm pretendido contestar a autenticidade do Gólgota, mas a êstes respondem brilhantemente os autores católicos de nossos dias. E começaremos por transcrever as palavras do dito prelado acima indicado: 'Seria porém esta a topografia de Jerusalém no tempo de Jesus Cristo?' 'As numerosas e assoladoras guerras ai ocorridas, desde as legiões de Tito, no ano 70 da era vulgar, até às côrtes dos Cruzados, e reconquista dos turcos capitaneados por Saladino, em 1187; o terremoto que abalou tudo no momento de render na cruz o Espírito; a ação constantemente transformadora do tempo, através do longuíssimo trecho de dezenove séculos; a mão do homem sucessivamente construindo e destruindo, dentro duma cidade sempre habitada e cujo perímetro mais duma vez se alterou: não serão tudo isto motivos suficientíssimos para afirmar a metamorfose duns lugares ou, quando menos, para duvidar da genuína identidade deles? Estas ponderadas interrogações colhem em parte, na verdade; e tanto que, sendo o lugar do Calvário nessa época fora da cidade, forma hoje o coração dela; mas o aspecto geral, o panorama das diversas colinas não se transmudou. E, dando que assim acontecesse a qualquer delas, ao sítio do Calvário é que não chegou a alteração. A Providência divina vela por aqueles sacratíssimos lugares. Ali se aponta o sítio onde os algozes O crucificaram: ali se vê a cova em que foi acunhado o pé da cruz; ali se apalpa a fenda da rocha aberta pelo terremoto; ali se beija a pedra sôbre que foi ungido; ali se banha de lágrimas o sepulcro que O recebeu — Tudo o mesmo sem a mínima mudança.' Ensaio do Púlpito p. 184. O notável exegeta contemporâneo H. Lesetre publicou na Correspondence Catholique, N. 14, 3 janeiro 1895, um importante trabalho crítico, intitulado Le Golgotha, et les nouveaux Calvares, onde refuta brilhantemente as pretensões dos adversários da identidade do Calvário, e principalmente a objeção deduzida do local contemporâneo do Sepulcro, no coração da cidade demonstrando com as mais seguras e indiscutíveis provas que êste local ficava, ao tempo de Jesus, fora da cidade. De fato, em 1835, lançando-se os alicerces duma construção, descobriu-se um fosso perto da Porta Judiciária, que era uma parte do fôsso de defesa da antiga cidade: Lievin, Guide de la terre Sainte. Por isso Vitor Guerin escreve: Ces deux augustes sanctuaires, du Saint Sepulchre et du Golgothe, n'ont absolumment rien à redouter de l'étude topographique de Jerusalem. V. Guerin, Jerusalem, p. p. 315 e 316.
34E lhe deram a beber vinho misturado com fel. E tendo-o provado não o quis beber.[18]18 — E LHE DERAM A BEBER VINHO — Os tormentos da crucificação causavam uma sêde ardente; daqui o uso de dar aos supliciados uma beberagem própria para lhes acalmar a sêde e entorpecer a sensibilidade.
35E depois que o crucificaram, repartiram as suas vestiduras, lançando sortes: Porque se cumprisse o que tinha sido anunciado pelo profeta, que diz: Repartiram entre si as minhas vestiduras, e sôbre a minha túnica lançaram sortes.[19]19 — O CRUCIFICARAM — Divergem os autores sôbre o número de cravos empregados na crucificação; uns querem que fôssem quatro, um para cada mão e para cada pé, outros que fôssem três, um para cada mão e um para os dois pés. Plauto Mostellaria, 2, 1, 12, 10, edit. Tubner de 1896, supõe formalmente quatro cravos, bis pedes, bis brachia; do mesmo parecer é a maioria dos autores que se ocupam da crucificação.
36E assentados o guardavam.
37Puseram-lhe também sôbre a cabeça esta inscrição, que declarava a causa da sua morte: ÊSTE É JESUS, REI DOS JUDEUS.[20]20 — ESTA INSCRIÇÃO — Era costume de escrever-se os motivos da condenação. O único Evangelista que o reproduz textualmente é Jo 19, 19. 20, e aí nos ocuparemos mais demoradamente dêste notável título, que encimou a cruz do Redentor.
38Ao mesmo tempo foram crucificados com êle dois ladrões: Um da parte direita, e outro da parte esquerda.
39E os que iam passando blasfemavam dêle, movendo as suas cabeças,
40e dizendo: Ah, tu o que destróis o templo de Deus, e o reedificas em três dias, salva-te a ti mesmo: Se és filho de Deus, desce da cruz.
41Da mesma sorte insultando-o também os príncipes dos sacerdotes com os escribas, e anciãos, diziam:
42Êle salvou a outros, a si mesmo não se pode salvar: Se é rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nêle:
43Confiou em Deus; livre-o lá agora, se é seu amigo, porque êle disse: Eu, pois, sou Filho de Deus.
44E os mesmos impropérios lhe diziam também os ladrões, que haviam sido crucificados com êle.
45Mas desde a hora sexta até à hora nona se difundiram trevas sôbre tôda a terra.[21]21 — DESDE A HORA SEXTA — Três horas depois do meio-dia.
46E perto da hora nona deu Jesus um grande brado, dizendo: Eli, Eli, lamma sabachthani? isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
47Alguns porém dos que ali estavam, e que ouviram isto, diziam: Êste chama por Elias.[22]22 — ELIAS — Êste mal entendido prova que entre os peregrinos que afluíam a Jerusalém por ocasião da Páscoa, estavam gregos ou romanos que não entendiam nem o hebreu, nem o aramaico, nem o sirocaldaico.
48E logo correndo um dêles, tendo tomado uma esponja, a ensopou em vinagre, e a pôs sôbre uma cana e lha dava a beber.
49Porém os mais diziam: Deixa, vejamos se vem Elias a livrá-lo.
50E Jesus tornando a dar outro grande brado, rendeu o espírito.
51E eis que se rasgou o véu do templo em duas partes dalto abaixo: E tremeu a terra, e partiram-se as pedras.[23]23 — VÉU DO TEMPLO — Em grego naos. Havia no templo de Jerusalém dois véus; um separava o pórtico do Santo, outro o Santo do Santo dos Santos. Foi êste último que se rasgou em dois no momento da morte de Jesus Cristo. Estava destruído o velho templo, estava patente o Santo dos Santos. A vítima que acabava de expirar introduzir-nos-á, à custa do seu sangue, no verdadeiro Santo dos Santos, do qual o da lei velha era apenas pálida figura. Os próprios mortos ouvirão a sua voz; a vida que êle deu ao mundo vivificará a humanidade; abrem-se os túmulos, e despertam os que dormiam.
52E abriram-se as sepulturas: E muitos corpos de santos, que eram mortos, ressurgiram.
53E saindo das sepulturas depois da ressurreição de Jesus, vieram à cidade santa, e apareceram a muitos.
54Mas o centurião, e os que com êle estavam de guarda a Jesus, tendo presenciado o terremoto, e os sucessos que aconteciam, tiveram grande mêdo, e diziam: Na verdade, êste homem era filho de Deus.[24]24 — O CENTURIÃO — Os corpos dos crucificados eram guardados à vista. Petrônio, numa sátira, diz que se tomavam estas precauções para que não tirassem da cruz o crucificado.
55Achavam-se também ali, vindo de longe, muitas mulheres, que desde a Galiléia tinham seguido a Jesus, subministrando-lhe o necessário:
56Entre as quais estava Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.[25]25 — MARIA MADALENA — É célebre no Evangelho pelos seus sentimentos de caridade ardente para com Jesus Cristo, e na tradição eclesiástica pelas suas lágrimas de penitência. Êste sobrenome de Madalena vem-lhe da sua casa de Magdala, na Galiléia, perto do lago de Tiberíades. É a pecadora, como lhe chama o Evangelho, atormentada pelo demônio até àquele instante em que o Salvador lhe perdoou os seus pecados, como recompensa de seu arrependimento, com que traduzia o muito amor à sacratissima pessoa de Jesus: Quia dilex multum. Foi desde então que ela, renunciando a tudo quanto fôsse vaidade, se entregou à mais áspera penitência. Por êsse mesmo amor e por essa contínua austeridade mereceu a dita de acompanhar o Divino Mestre até aos derradeiros momentos da sua vida mortal, e depois a ventura de saber da Sua ressurreição. A partir dêste instante o Evangelho não torna a falar de Madalena. Segundo a opinião geral, ela abandonou Jerusalém e a Palestina depois da descida do Espírito Santo, seguindo para a Provença, onde veio a terminar os seus dias, depois de ter pregado ali o Evangelho, e de ter assombrado o mundo com as mais rudes penitências.
57E quando foi lá pela tarde, veio um homem rico de Arimatéia, por nome José, que também era discípulo de Jesus:[26]26 — ARIMATÉIA — Segundo Eusébio, é a Ramathan — Sophim; no entender de S. Jerônimo, é a atual Ramlet, a quatro quilômetros de Lídia.
58Êste chegou a Pilatos, e lhe pediu o corpo de Jesus. Pilatos mandou então que se lhe desse o corpo.[27]27 — PEDIU O CORPO — Porque as leis romanas não permitiam dar sepultura aos criminosos sem permissão dos juízes.
59Tomando, pois, o corpo, amortalhou-o José num asseado lençol.[28]28 — AMORTALHOU-O — Os judeus lavavam os cadáveres, e quando eram de pessoas ricas, e de qualidade, os embalsamavam; não lhes tirando as entranhas, como faziam os egípcios, e se praticou depois no ocidente, mas ensopando-os em um licor espesso de mirra, áloes, e outras drogas aromáticas; depois os envolviam desde a cabeça até aos pés com faixas largas de linho, ensopadas também no mesmo licor. E envolvendo-os depois em lençol novo, e mui claro, os recostavam desta sorte nas sepulturas, sôbre pequenos leitos. Cobriam-lhes as cabeças, e os rostos com um lenço a que chamavam sudário. E assim parece que foi sepultado o Senhor. Veja-se Calmet na Dissert., sôbre os funerais, e sepulturas dos hebreus. Quanto ao sudário, faláremos adiante.
60E depositou-o no seu sepulcro, que ainda não tinha servido, o qual êle tinha aberto numa rocha. E tapou a bôca do sepulcro com uma grande pedra que para ali revolveu, e retirou-se.[29]29 — SEPULCRO — Êste túmulo pertencente a José de Arimatéia era, segundo o uso do país, cavado na rocha. Era composto de duas câmaras, das quais a primeira forma o vestíbulo da segunda. É nesta última que foi colocado o Sagrado Corpo do Divino Crucificado. Vê-se pela descrição Evangélica, como foi simples o enterramento de Jesus. Os condenados pelo sanedrim deviam ser sepultados sem honras fúnebres.
QUE AINDA NÃO TINHA SERVIDO — Para não dizerem os judeus, que fôra outro o que ressurgira, diz Santo Ambrósio. — Duhamel. Aqui deve o cristão advertir com a maior reflexão, quanta é a pureza de coração que se requer, para chegar a receber no seu peito o adorável corpo do Senhor, que não quis ser depositado depois de morto em lugar onde tivesse habitado a corrupção.
61E Maria Madalena, e outra Maria estavam ali sentadas defronte do sepulcro.
62E no outro dia, que é o seguinte ao Parasceve, os príncipes dos sacerdotes, e os fariseus acudiram juntos à casa de Pilatos,[30]30 — AO PARASCEVE — Êste dia de Parasceve, ou preparação era, segundo Lc 23, 54, o que precedia ao sábado, isto é, a sexta-feira em que morreu Jesus Cristo. Chamava-se dia de preparação, porque nêle se preparava tudo o que era necessário para o mesmo sábado, segundo a lei do Ex 16, 5, ainda que fôsse acender lume, ou cozinhar, porquanto êste era dia de descanso, e do Senhor, e não se podia trabalhar nêle.
63dizendo: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, vivendo ainda, disse: Eu hei de ressurgir depois de três dias.
64Dá logo ordem que se guarde o sepulcro até ao dia terceiro: Por não suceder que venham seus discípulos, e o furtem, e digam à plebe: Ressurgiu dos mortos: E desta sorte virá o último embuste a ser pior do que o primeiro.
65Pilatos lhes respondeu: Vós aí tendes guardas; ide, guardai-o como entendeis.[31]31 — GUARDAI-O COMO ENTENDEIS — Tinham os judeus uma companhia de soldados para a guarda do templo, e Deus permitiu, segundo a reflexão de S. João Crisóstomo, que Pilatos não quisesse que fôssem os seus soldados os que guardassem o sepulcro; porque neste caso os judeus diriam, que se haviam concertado com os discípulos do Salvador, e que lhes haviam entregado o seu corpo. Êles mesmos tomaram sôbre si êste cuidado, e não omitiram meio algum para evitar êste roubo, que temiam dos discípulos.
66Êles, porém, retirando-se, trabalharam por ficar seguro o sepulcro, selando a campa, e pondo-lhe guardas.[32]32 — SELANDO A CAMPA — Jesus permitiu que o seu túmulo fôsse selado pelo seu inimigo, e guardado pelos soldados romanos, que eram quatorze, revezando-se de três em três horas, para que mais estupendo fôsse o milagre de sua ressurreição.