Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 13

Jesus sentado em uma barca propõe ao povo várias parábolas, como a do semeador, e a do joio misturado no trigo, e êle as explica particularmente a seus discípulos. Ensinando em Nazaré, diz que um profeta só na sua pátria deixa de ter estimação.

1Naquele dia saindo Jesus de casa, sentou-se à borda do mar.

2E vieram para êle muitas gentes, de tal sorte que entrando em uma barca se assentou: E tôda a gente estava de pé na ribeira.

3E lhe falou muitas coisas por parábolas, dizendo: Eis aí que saiu o que semeia, a semear.[1]Por parábolasPOR PARÁBOLAS — Foi esta a principal forma do ensino de Jesus. Etimologicamente, parábola significa semelhança, aproximação, analogia desenvolvida. No Antigo Testamento designa sentença, provérbio, máxima, etc. No Novo, designa uma forma especial, um gênero de apólogo determinado. É uma narração quase sempre fictícia, que exprime simbolicamente uma verdade religiosa e em que entram como principais agentes sêres naturais ou hábitos de vida humana. Quando nas parábolas entram sêres irracionais chamam-lhe apólogos. O ensino parabólico tem a vantagem de se acomodar fàcilmente à capacidade dos ouvintes, que assim podem chegar a conhecer e compreender verdades transcendentes. Despertam a atenção dos ouvintes, e servem para mais fàcilmente se dizerem verdades, cujo enunciado por outra forma seria estéril ou melindroso. Finalmente gravam-se profundamente na memória e com ela a doutrina que inculcam. As parábolas são constituídas por três partes: — prótase, que é a história ou narração — apódose ou aplicação, que é a verdade fundamental que se inculca, verdade moral que delas imediatamente se inferem. Ha três formas de interpretar as parábolas: uma, a mais geralmente seguida pelos exegetas, consiste em interpretar a narração à letra, como se fosse uma história, e depois fazer a aplicação. Ou vai interpretando gradualmente a parábola e ao mesmo tempo indica quais os pontos da doutrina que lhe correspondem. Finalmente há outro método que indica o sentido sem se importar com a letra da parábola. Jesus Cristo devia ter pronunciado muitas parábolas, mas os Evangelhos conservam apenas vinte e quatro, que podemos agrupar em três classes, consoante a diversidade de assuntos a que respeitam.

1. Sete parábolas deduzidas das instituições e usos sociais: 1.° Dos Talentos. Mat 25, 14-30 e Lc 19, 12-30. 2.° Veste nupcial. Mat 22, 1-14. 3.° Convites desprezados. Lc 14, 6-24. 4.° Viúva oprimida. Lc 18, 2-8. 5.° Bom Samaritano. Lc 10, 30-37. 6.° Rico avarento. Lc 16, 19-31. 7.° O fariseu e o publicano. Lc 18, 9-14.

2. Oito tiradas de família e usos domésticos. 1.° Os dois filhos. Mat 21, 28-32. 2.° O filho pródigo. Lc 15, 11-32. 3.° O bom senhor e o servo infiel. Mat 18, 31-35. 4.° O bom e o mau servo. Lc 12, 35-48. 5.° O guarda infiel. Lc 16, 1-12. 6.° As dez virgens. Mat 25, 1-13. 7.° O fermento. Mat 13, 33. 8.° O dracma. Lc 15, 8-10.

3. Nove da agricultura, vida pastoril e pesca. 1.° Semente. Mat 13, 3-9, 18-23. 2.° O bom grão e a cizânia. Mat 13, 24-30. 3.° O grão de mostarda. Mat 13, 31-32. 4.° A árvore estéril. Lc 13, 6-9. 5.° Os obreiros da vinha. Mat 20, 1-16. 6.° Os lavradores assassinos. Mat 21, 33-41. 7.° O rico insensato. Lc 12, 16-21. 8.° O pastor que corre atrás da ovelha desgarrada. Lc 15, 3-7. 9.° Os peixes pescados e escolhidos. Mat 13, 47-50.

Também outros os agrupam em três classes: proféticas, proféticas e morais e só morais.

4E quando semeava, uma parte da semente caiu junto da estrada, e vieram as aves do Céu, e comeram-na.[2]Uma parte da sementePela semente quer Jesus Cristo indicar a palavra de Deus, a boa pregação. Nesta parábola, que vai até ao versículo 24, quer Jesus Cristo ensinar duas coisas: 1.ª Que são poucos os que aproveitam a palavra de Deus. 2.ª As coisas que impedem que a pregação produza os seus bons frutos, que são a dissipação do espírito, a dureza do coração e o desregramento da conduta. A primeira, significada pela semente que caiu na estrada, e que é destruída pelas aves do Céu, pois da mesma sorte os maus conselhos que ouvimos, os maus exemplos a que nos expomos apagam nas almas o bom efeito da palavra divina. A segunda, pela semente caída entre pedregulhos que a não deixam frutificar, da mesma sorte que a tibieza e o enregelamento do coração tolhem a boa ação da pregação. E a terceira, pelos espinhos que a afogam, da mesma sorte que as afeições desordenadas aniquilam qualquer esfôrço para a emenda e para a regeneração. Aqueles porém que em recolhimento e com boas disposições escutam a palavra de Deus, logram que êle atue benèficamente em sua alma e êsses receberão o prêmio.

5Outra porém caiu em pedregulho, onde não tinha muita terra: E logo nasceu, porque não tinha altura de terra:

6Mas saindo o sol se queimou: E porque não tinha raiz se secou.

7Outra igualmente caiu sôbre os espinhos: E cresceram os espinhos, e êstes a afogaram.

8Outra, enfim, caiu em boa terra: E dava fruto, havendo grãos que rendiam a cento por um, outros a sessenta, outros a trinta.[3]Cento por umPor estas boas obras que produzem trinta, sessenta e cem, entendem os Padres os que as enunciam com perfeição, os que progridem, os que a aproximam do grau mais elevado do aperfeiçoamento moral. A propósito escreveu S. Jerônimo: Sicut in terra mala tres fuere diversitates, secus viam, et petrosa et spinosa loca sic in terra bona trina diversitas est centesimi, sexagesimi et tricesimi fructus.

9O que tem ouvidos de ouvir, ouça.

10E chegando-se a êle os discípulos, lhe disseram: Por que razão lhes falas tu por parábolas?

11Êle respondendo lhes disse: Porque a vós outros vos é dado saber os mistérios do reino dos Céus: Mas a êles não lhes é concedido.

12Porque ao que tem, se lhe dará, e terá em abundância: Mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.

13Por isso é que eu lhes falo em parábolas: Porque êles vendo não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem.

14De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Vós ouvireis com os ouvidos, e não entendereis: E vereis com os olhos, e não vereis.

15Porque o coração dêste povo se fêz pesado, e os seus ouvidos se fizeram tardos, e êles fecharam os seus olhos: Para não suceder que vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e entendam no coração, e se convertam, e eu os sare.

16Mas por vós, ditosos os vossos olhos, pelo que vêem, e ditosos os vossos ouvidos pelo que ouvem.

17Porque em verdade vos digo, que muitos profetas, e justos desejaram ver o que vêdes, e não o viram: E ouvir o que ouvis, e não o ouviram.

18Ouvi pois, vós outros, a parábola do semeador.

19Todo aquele que ouve a palavra do reino, e não a entende, vem o mau, e arrebata o que se semeou no seu coração: Êste é o que recebeu a semente junto da estrada.

20Mas o que recebeu a semente no pedregulho, êste é o que ouve a palavra, e logo a recebe com gôsto:

21Porém êle não tem em si raiz, antes é de pouca duração: E quando lhe sobrevém tribulação e perseguição por amor da palavra, logo se escandaliza.

22E o que recebeu a semente entre espinhos êste é o que ouve a palavra, porém os cuidados dêste mundo e o engano das riquezas sufocam a palavra e fica infrutuosa.

23E o que recebeu a semente em boa terra, êste é o que ouve a palavra, e a entende, e dá fruto, e assim um dá a cento, e outro a sessenta, e outro a trinta por um.

24Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos Céus é semelhante a um homem, que semeou boa semente no seu campo:

25E enquanto dormiam os homens, veio o seu inimigo, e semeou depois cizânia no meio do trigo, e foi-se.[4]CizâniaÉ uma planta da família das gramíneas e da tribo das hordeáceas. Existem várias espécies. A desta parábola é o Lolium temulentum, muito comum nas searas da Palestina. Parece que Jesus Cristo não apresenta aqui uma narração fictícia mas alude a um fato conhecido. De fato êste atentado estava previsto na legislação romana, e um escritor moderno, Roberts, afirma que êste crime é freqüente entre os povos orientais.

26E tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu também então a cizânia.

27E chegando os servos do pai de família, lhe disseram: Senhor, porventura não semeaste tu boa semente no teu campo? Pois donde lhe veio a cizânia?

28E êle lhes disse: O homem inimigo é que fez isto. E os servos lhe tornaram: Queres tu que nós vamos e a arranquemos?

29E respondeu-lhes: Não: Para que talvez não suceda que, arrancando a cizânia, arranqueis juntamente com ela também o trigo.

30Deixai crescer uma, e outra coisa até à ceifa, e no tempo da ceifa, direi aos segadores: Colhei primeiramente a cizânia, e atai-a em molhos para a queimar, mas o trigo recolhei-o no meu celeiro.[5]Atai-a em molhos para a queimarJesus pretende significar pela cizânia os maus que pervertem os bons, corrompendo-os com as suas máximas e péssimos exemplos, os quais serão eternamente condenados.

31Propôs-lhes mais outra parábola dizendo: O reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou, e semeou no seu campo:[6]É semelhante a um grão de mostardaEsta parábola exprime bem o progresso e eficácia da doutrina Evangélica, e como de uns humildes princípios chegou a Igreja ao estado da maior grandeza, dilatando-se maravilhosamente por todo o mundo. — Amelote.

32O qual grão é na verdade o mais pequeno de tôdas as sementes: Mas depois de ter crescido, é a maior de todas as plantas e se faz árvore, de sorte que as aves do Céu vêm a fazer ninhos nos seus ramos.

33Disse-lhes ainda outra parábola: O reino dos Céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma, e o esconde em três medidas de farinha, até que todo êle fica levedado.

34Tôdas estas coisas disse Jesus ao povo em parábolas: E não lhes falava sem parábolas:

35A fim de que se cumprisse o que estava anunciado pelo profeta, que diz: Abrirei em parábolas a minha bôca, farei dela sair com ímpeto coisas escondidas desde a criação do mundo.

36Então, despedidas as gentes, veio à casa: E chegaram-se a êle os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola da cizânia do campo.

37Êle lhes respondeu, dizendo: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem.

38E o campo é o mundo. A boa semente porém são os filhos do reino dos Céus. E a cizânia são os maus filhos.

39E o inimigo que a semeou, é o diabo. E o tempo da ceifa é o fim do mundo. E os segadores são os Anjos.

40De maneira que assim como é colhida a cizânia, e queimada no fogo: Assim acontecerá no fim do mundo:

41Enviará o Filho do homem os seus Anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos, e os que obram a iniquidade:

42E lançá-los-ão na fornalha do fogo. Ali será o chôro, e o ranger com os dentes.

43Então resplandecerão os justos, como o sol, no reino de seu pai. O que tem ouvidos de ouvir, ouça.

44O reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo: Que quando um homem o acha, o esconde, e pelo gôsto que sente de o achar, vai, e vende tudo o que tem, e compra aquele campo.

45Assim mesmo é semelhante o reino dos Céus a um homem negociante, que busca boas pérolas.

46E tendo achado uma de grande preço, vai vender tudo o que tem, e a compra.

47Finalmente o reino dos Céus é semelhante a uma rêde lançada ao mar, que toda a casta de peixes colhe:

48E depois de estar cheia, a tiram os homens para fora, e sentados na praia escolhem os bons para os vasos e deitam fora os maus.

49Assim será no fim do mundo: Sairão os Anjos, e separarão os maus dentre os justos.

50E lançá-los-ão na fornalha do fogo: Ali será o chôro, e o ranger com os dentes.

51Tendes vós compreendido bem tudo isto? Responderam êles: Sim.

52Êle lhes disse: Por isso todo o escriba instruído no reino dos Céus, é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas.

53E depois que acabou de dizer estas parábolas, aconteceu partir Jesus dali.

54E vindo para a sua pátria, êle os ensinava nas suas sinagogas de modo que se admiravam, e diziam: Donde lhe vem a êste uma sabedoria como esta, e tais maravilhas?

55Porventura não é êste o filho do carpinteiro? Não se chamava sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas:[7]Seus irmãos — Tiago — JudasEstá já dito o sentido desta expressão: primos e parentes.

TIAGO — É S. Tiago Menor, um dos doze Apóstolos.

JUDAS — É o apóstolo S. Judas, autor da Epístola católica que tem o seu nome. Simão foi sucessor de seu irmão na Sé de Jerusalém, pois não é conhecido como filho de Maria Cleofas. Veja not. ao v. 46 do cap. 12 de S. Mateus.

56E suas irmãs não vivem elas tôdas entre nós? Donde vêm logo a êste todas estas coisas?

57E dêle tomavam ocasião para se escandalizarem. Mas Jesus lhes disse: Não há profeta sem honra senão na sua pátria e na sua casa.

58E não fêz ali muitos milagres, por causa da incredulidade de seus naturais.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

📄 PDF
📄 Original