Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Manda o Batista desde a prisão perguntar a Jesus se êle é o Messias prometido. Jesus o louva em presença do povo. Compara os Judeus aos meninos, que brincam no terreiro. Repreende e ameaça as cidades, que se não tinham convertido com seus milagres. Convida que venham a êle os que estão fatigados. Diz que o seu jugo é suave.

1E aconteceu que quando Jesus acabou de dar estas instruções aos seus doze discípulos, passou dali a ensinar e pregar nas cidades dêles.

2E como João, estando no cárcere, tivesse ouvido as obras de Cristo, enviando dois de seus discípulos,[1]No cárcereNO CÁRCERE — S. João Batista estava prisioneiro em Maqueronte, a este do Mar Morto.

3lhe fêz esta pergunta: Tu és o que hás-de vir, ou é outro o que esperamos?

4E respondendo Jesus, lhes disse: Ide contar a João o que ouvistes, e vistes.

5Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos limpam-se, os surdos ouvem, os môrtos ressuscitam, aos pobres anuncia-se-lhes o Evangelho:

6E bem-aventurado aquêle que não fôr escandalizado em mim.

7E logo que êles se foram, começou Jesus a falar de João às gentes: Que saístes vós a ver no deserto? uma cana agitada do vento?

8Mas que saístes a ver? um homem vestido de roupas delicadas? Bem vêdes que os que vestem roupas delicadas, são os que assistem nos palácios dos reis.

9Mas que saístes a ver? um profeta? Certamente vos digo, e ainda mais do que profeta.

10Porque êste é de quem está escrito: Eis-aí envio eu o meu anjo ante a tua face, que preparará o teu caminho diante de ti.

11Na verdade vos digo, que entre os nascidos de mulheres não se levantou outro maior que João Batista. Mas o que é menor no reino dos Céus, é maior do que êle.

12E desde os dias de João Batista até agora, o reino dos Céus sofre violência, e os que fazem violência são os que o arrebatam.

13Porque todos os profetas, e a lei até João profetizaram:

14E se vós o quereis bem compreender, êle mesmo é o Elias, que há-de vir.

15O que tem ouvidos de ouvir, ouça:

16Mas a quem direi eu que é semelhante esta geração? É semelhante aos meninos, que estão sentados na praça: Que gritando aos seus iguais,

17dizem: Nós cantamos para vós, e vós não bailastes: Choramos-vos, e não chorastes.

18Porque veio João, que não comia, nem bebia, e dizem: Êle tem demônio.

19Veio o Filho do homem, que come, e bebe, e dizem: Eis-aqui um homem glutão, e bebedor do vinho, amigo de publicanos, e de pecadores. Mas a sabedoria foi justificada por seus filhos.

20Então começou a lançar em rosto às cidades, em que foram obradas tantas das suas maravilhas, que não haviam feito penitência.

21Ai de ti, Corozain, ai de ti, Betsaida: Que se em Tiro, e em Sidônia se tivessem obrado as maravilhas que se obraram em vós, muito tempo há que elas teriam feito penitência em cilício, e em cinza.[2]Corozain — Betsaida — Tiro — SidôniaCOROZAIN — Aldeia da Galiléia, de que se não fala no Antigo Testamento. S. Jerônimo diz que ficava a duas milhas romanas de Cafarnaum, nas margens do lago de Genesaré. Outros colocam-na ao norte de Cafarnaum, na planície.

BETSAIDA — Cidade da Galiléia, que etimològicamente significa Cidade de pesca, situada na margem ocidental do lago de Genesaré, perto de Cafarnaum. Havia na extremidade setentrional do lago, a este, perto do Jordão, uma outra Betsaída, que fazia parte da Gaulonitida, engrandecida pelo Tetrarca Filipe, que lhe chamou Júlia, em honra de Júlia, filha do Imperador Augusto. Segundo alguns intérpretes é a esta a que se refere o texto sagrado.

TIRO — Antiga capital da Fenícia, sôbre o Mediterrâneo, em poder dos romanos, no tempo de Jesus Cristo.

SIDÔNIA — Primitiva capital da Fenícia, ao norte de Tiro.

22Eu vos digo contudo: Que haverá menos rigor para Tiro, e Sidônia, que para vós outros no dia do Juízo.

23E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até o Céu? has-de ser abatida até o inferno: Porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez que ela tivesse permanecido até ao dia de hoje.

24Eu vos digo contudo, que no dia do Juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma, que para ti.

25Naquele tempo respondendo Jesus, disse: Graças te dou a ti, Pai, Senhor do Céu, e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios, e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.[3]Estas coisasESTAS COISAS — Estes mistérios do reino celestial — Menochio.

26Assim é, Pai: Porque assim foi do teu agrado.

27Tôdas as coisas me foram entregues por meu Pai. E ninguém conhece o filho senão o pai: Nem alguém conhece o pai senão o filho, e a quem o filho o quiser revelar.

28Vinde a mim todos os que andais em trabalho, e vos achais carregados, e eu vos aliviarei.

29Tomai sôbre vós meu jugo; e aprendei de mim que sou manso, e humilde de coração: E achareis descanso para as vossas almas.

30Porque o meu jugo é suave, e o meu ônus é leve.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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