Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

O POVO MURMURA CONTRA DEUS, QUE O CASTIGA COM FOGO. MOISÉS QUEIXA-SE DA SUA INSUPORTÁVEL CARGA. DEUS PROVIDENCIA CARNE AO POVO, E CASTIGA-O POR SE TER DEIXADO LEVAR DA GULA.

1Entretanto se levantou uma murmuração do povo contra o Senhor, como de quem se queixava da fadiga que padecia. O que ouvindo o Senhor, se irou. E acen dido contra êles o fogo do Senhor devorou a última .par te do campo.

2E como o povo clamasse a Moisés, orou Moisés ao Senhor, e se extinguiu o fogo.

3E chamou àquele lugar o Incêndio; porque alr se tinha acendido'o fogo do Senhor contra êles'[1]O INCÊNDIONo original está Tabéerah, localidade desconhecida.

4Porque uma multidão do povo miúdo, que tinha vindo com êles, ardeu em desejos, sentando-se e pondo- -se a chorar, unindo-se-lhe também, os filhos de Israel, e disse: Quem nos dará carnes para comer?[2]CARNESAludiam às aves que esvoaçaram aos ban dos nas. margens do Nilo.

5Lembra-nos o peixe que comíamos no Egito sem nos custar nada: vem-nos à memória os pepinos, e 'me lões, os porros e as cebolas, e os alhos.

6A nossa alma está sêca, os nossos olhos não vêem senão maná.

7Ora, o maná era como os grãos do coentro, da côr do bdélio.[3]DA COR DO BDÉLIOIsto é, côr branca. O bdélio é uma goma resinosa que se encontra na bdélia, espécie de pal meira. Números Í l , 9-17 numa mó, ou o pisava num gral, e cozendo-o numa pa nela, fazia dêle tortas de sabor como de pão amassado em azeite. (4)

8O povo ia ao redor do campo, e colhendo-o, o moía

9E ao tempo que de noite caia o orvalho no campo, caía também o maná.

10Ouviu pois Moisés chorar o povo pelas suas fa mílias cada um à porta da sua tenda. Então se enfureceu o Senhor fortemente: e até a Moisés pareceu isto uma coisa intolerável:

11e disse ao Senhor: Por que afligiste a teu servo? por que não acho eu graça diante de ti ? e por que puseste sôbre mim o pêso de todo êste povo?

12Acaso concebi eu tôda esta multidão, ou a gerei, para me dizeres: Traze-os no teu seio assim como uma ama costuma trazer uma criança, e leva-os à terra que, com juramento prometi a seus pais?

13Donde me virão carnes para dar a uma tão gran de multidão? êles choram contra mim, dizendo: Dá-nos carnes para comermos.

14Eu só não posso suportar todo êste povo, porque se me faz pesado.

15Se a ti te parece outra coisa, peço-te que me tires a vida, e ache eu graça diante d.os teus olhos, para me não ver oprimido de tamanhos males.

16E respondeu o Senhor a Moisés: Ajunta-me se tenta homens dos anciãos de Israel, qúe tu souberes se rem os mais experimentados e mestres do povo: e os trarás à porta do tabernáculo do concerto, e fá-los-ás esperar ali contigo,

17para que eu desça a falar-te: e tirarei do teu es

18Dirás também ao povo, purificai-vos: à manhã comereis carnes; porque eu vos ouvi dizer: Quem nos dará a comer carnes ? nós estávamos bem no Egito. Assim o Senhor vos dará carnes para que comais:[4]ASSIM O SENHOR VOS DARÁAlteramos a tradução do padre Pereira, substituindo-a pela de Glalre, que a propósito diz: “Cc passage ctant inintelligible dans la Vulgate nous 1’avons traduit d’après rhebreu". Como esta passagem é ininteligível na Vulgata fizemos a tradução diretamente do texto hebraico. Glaire, La Sainte lliblo traduite. tenta homens. E tendo repousado neles o espírito, profe tizaram, e não cessaram de o fazer. (6)

19Não só um dia, nem dois, nem cinco, nem dez, nem ainda vinte;

20mas um mês inteiro, até elas vos saírem pelos narizes, e vos causarem enjôo, visto que rejeitastes o Se nhor que está no meio de vós, e chorastes diante dêle, di zendo: Por que saímos nós do Egito?

21E Moisés disse: Isto é um povo de seiscentos mil homens de pé: e tu dizes: Eu lhes darei a comer carnes todo um mês?

22Acaso matar-se-á tanta quantidade de ovelhas e bois, que possa bastar para sua comida? ou ajuntar-se- -ão num monte todos os peixes do mar, para os fartarem?

23Ao qual o Senhor respondeu: Porventura é fraca a mão do Senhor? Agora mesmo verás tu se a minha palavra se põe por obra.

24Veio pois Moisés, e referiu ao povo as pala vras do Senhor, ajuntando setenta homens dos anciãos de Israel, os quais fêz estar junto do tabernáculo.

25E desceu o Senhor em a nuvem, e lhe falou, e ti rando do espírito que havia em Moisés, deu dêle aos se

26Haviam porém ficado no campo dois varões, um dos quais se chamava Eldad, e o outro Medad, sobre os quais repousou o espírito: porque também eles mesmos tinham sido alistados, mas não haviam saído para irem ao tabernáculo.

27E como profetizassem no campo, veio correndo um-moço, e deu por notícia a Moisés, dizendo: Eldad e M edadprofetizam no campo.

28Então Josué, filho de Nun, ministro de Moisés, e escolhido entre muitos, disse: Meu Senhor, proíbe-lho.

29Moisés lhe respondeu: Que zelos são estes que mostras por mim? Quem dera que todo o povo profeti zasse, e que o Senhor lhe desse o seu espírito?

30Voltou pois Moisés para o campo com os anciãos de Israel.

31Um vento porém excitado pelo Senhor, vindo da outra banda do mar, arrebatou consigo codornízes, e as lançou sobre o arraial ao redor do campo por tanto espaço, quanto se pode andar num dia; e voavam pelo ar dois côvados de alto sôbre a terra.[5]UM VENTODeus dispôs tudo para que as codornízes chegassem no momento desejado e ao lugar preciso onde acam pa vam os israelitas, revelando Deus a Moisés anteriormente o que a sua Providência preparava. Cf. SI 77, 27.

32Levantando-se pois o povo, apanhou todo aquêle dia, e a noite, e o outro dia, uma tão grande multidão de codornízes, que o que menos recolheu, se achou com dez medidas delas: e as puseram a secar à roda do campo.[6]DEZ MEDIDASA Vulgata traduziu por coros a P & * - 5 4 -

33Ainda as carnes estavam nos seus dentes, e ainda se lhes não tinha acabado este manjar: quando o furor do Senhor se acendeu contra o povo, e o feriu com uma praga terribilíssima.

34E aquele lugar se ficou chamando os sepulcros da concupiscência: porque ali sepultaram o povo, que tinha tido os desejos. Tendo partido porém dos sepul cros da concupiscência, vieram a Haserot, e ali fica ram

35Tendo partido porém dos sepulcros da concupiscência, vieram a Haserot, e ali ficaram.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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