Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

ACAMPAM-SE OS ISRAELITAS NAS PLANÍCIES DE MOAB. BALAC, REI DOS MOABITAS, ENVIA MENSAGEIROS A BALAAM ADIVINHO, CUJA BURRA LHE FALA DUAS VÊZES.

1E tendo partido dali, se acamparam nas planícies de Moab, onde está situada Jericó, além do Jordão.

2Vendo porém Balac, filho de Sefor, tudo o que Israel tinha feito aos amorreus,

3e que os moabitas tinham concebido grande me do dele, e não podiam aturar os seus ataques,

4disse aos anciãos de Madian: Êste povo destrui rá todos quantos moram à roda de nós, da mesma sorte que o boi costuma roer as ervas até à raiz. Êste era na quele tempo rei dos moabitas.[1]DISSE AOS ANCIAOS DE MADIANBalac era rei do Moab e se se dirige aos madianitas é porque êstes eram seus vizi nhos e tinham a mesma origem, pois eram descendentes de Taré. É natural que os moabitas, que tinham sido vencidos pelos amor reus, procurassem socorro e firmassem aliansas contra o inimigo que lhes surgia na frente.

5Mandou pois embaixadores a Balaam, filho de Beor, o qual era um adivinho, que habitava sôbre o rio do país dos filhos de Amon, para que o chamassem, e ‘ lhe dissessem: Olha que saiu do Egito um povo, que co briu a face da terra, o qual está acampado contra mim.[2]BALAAMSe atendermos à etimologia da palavra, con cluiremos que Balaam deveria ser um feiticeiro terrível, tanto mais 90 — .

6Vem pois amaldiçoar êste povo, porque êle é mais forte do que eu, a fim de ver se posso por algum modo batê-lo, e lançá-lo fora do méu país. Porque eu sei que será bendito aquele, a quem tu abençoares, e maldito aque le sôbre quem tu lançarés a maldição.

7Partiram pois os senadores de Moab, e os anque entre os orientais é frequente o costume de designar os homens pela sua profissão, costumes, ou qualquer acontecimento notãvel da sua vida. S. João, no Apocalipse, traduziu por Nicolaos a palavra Balaam, e chama aos nicolaítas os hereges que imitaram Balaam. Êste aconselhou os moabitas a que seduzissem os israelitas; os ni colaítas procuravam corromper os cristãos. “Sed habeo adversas te paucn: quia linbes illic tenentes doctrlnam Balaam, qui docebat Balnc inittcre scandnlum coram filils Israel, odero et fornicari: ita habes et tu tenentes doctrinain Nlcolaitarum." (Apoc. 2, 12-17). Êste texto mostra a relação dos erros de Balaam. Mas, posta de parte a questão etimológica, qual 6 o caráter moral e religioso de Balaam? E’ ques tão debatida desde os primeiros séculos da Igreja. Para uns, Balaam era um falso profeta, um mágico, um pagão, que não conhecia a verdadeira religião e que abençoou Israel, contra a sua vontade e vencido pela Onipotência Divina. E’ a opinião de Santo Ambrósio, Santo Agostinho, S. Gregório de Nisse, Teodoreto, e de muitos teó logos católicos e protestantes Witsius e Deyling, etc. Segundo outros, Balaam era um verdadeiro profeta, um homem piedoso, perdido pela avareza. São desta opinião Tertuliano e S. Jerônimo. Cf. Buldeus, ' Hist. Eclesiástica, pág. 753. Melgnam, Les propheties messianiques, sustenta que estas opiniões, por mais contraditórias que pareçam, têm um fundo verdadeiro, e que é preciso conciliá-las, afastando o que ambas tém de absoluto. Balaam não era um ímpio, pois se van gloriava da sua fé em Deus, como se vê do vers. 8, quando respon deu aos emissários de Balac: Ficai aqui esta noite e cu tos direi tudo o que o Senhor me tiver declarado. Mas seria isto uma impos tura? Se o fôsse falaria ao agrado do consultor; e como se concilia a fraude com as palavras do vers. 18: Eu não poderei trocar a pala vra do Senhor; e do vers. 38: Mas poderei ou dizer outra coisa, que não seja o que Deus me pôs na bôca? Se Balaam fôsse um impostor, a Sagrada Escritura o indicava, por isso Meignam, obcit., pãg. 485, ciãos de Madian, levando nas mãos com que pagar ao adivinho. E como chegassem a Balaam, e lhe referissem tôdas as palavras de Balac:

8Êle lhes respondeu: Ficai aqui esta noite, e eu vos direi tudo o que o Senhor me tiver declarado. Estando êles em casa de Balaam, veio Deus, e disse-lhe: conclui que Balaam tinha boa fé e sinceridade quando consultava o Senhor; boa fé e sinceridade quando falava a Balac; boa' fé c since ridade quando profetizava. Mas a isto objeta-se, e com razões: Ba laam mentiu até ao momento de profetizar, como se deve dar crédito à sua profecia e ao seu caráter? A isto responde-se, dizendo que se não tem Balaam por um santo, qual outro Jó, emiuente pela sua vdrtude, e para isto basta ver que a Bíblia, no vers. 5, lhe chama adivinho, hnq-qorem, ariolus, nome que na Escritura nunca se toma à boa parte, o que fêz dizer ao já citado Meignam, que Balaam era um dêsses tipos de hierofantes desconhecidos do mundo moderno, e dificilmente compreendidos hoje, que se podia comparar aor, adi vinhos gregos, sendo como um Calcas, a um tempo venerado e te mido, ouvido pelos povos e pelos réis; era um àugure à maneira dos romanos, lendo nos signos os destinos das batalhas, misturando a verdade com o êrro, a sinceridade com o embuste, desconcertando a filosofia, e desnorteando a história. Mas, sendo assim, pergunta-se: como é que Deus o honrava com as divinas revelações? Deus, pela sua Onipotência, que tudo pode, e pela sua Onisciência, que tudo prevê, pode servir-se dêste ou daquele instrumento para os seus Sa pientíssimos desígnios. Demais, o dom da profecia é muito distinto da santidade. Le don de proplietie est três distinct de la sainteté, Meignam, obcit. Êste dom muitas vêzes não aproveita àquele que o recebe, mas redunda em favor do gênero humano. Balaam está neste caso. A sua profecia não foi um embuste, uma impostura, o que não quer dizer que êle fôsse um justo; pode admitir-se, à face do texto, que Balaam consultasse Deuscora um sentimento real de fé, e Deus, em sua Bondade. Infinita, Deus, que predestinava Balaam para predizer a vinda do Messias, respondia ao adivinho.[3]EU VOS DIREI TUDO O QUE O SENHORNo hebreu está Iahvéh, o que comprova que Balaam consultou o Deus dos israe litas, qualquer que fôsse a sua crença.

9Que te querem estes homens, que estão em tua casa ?

10Respondeu Balaam: Balac, filho de Sefor, rei dos moàbitas me mandou

11dizer: Olha que um povo que saiu do Egito, tem coberto a superfície da terra. Vem amaldiçoá-lo, para ver se eu por algum modo o posso afugentar combatendo.

12E Deus disse a Balaam: Não vás com eles, nem maldigas o povo: Porque é bendito.

13O qual, levantando-se pela manhã, disse aos príncipes: Tornai para a vossa terra, porque o Senhor me proibiu ir convosco:

14Voltando os príncipes disseram a Balac: Ba laam não quis vir conosco.

15Então lhe enviou Balac de novo outros embai xadores em maior número e de maior qualidade, do que os que antes enviara.

16Os quais chegando a casa de Balaam, lhe disse ram : Eis-aqui o que diz Balac, filho de Sefor: Não te demores em vir a mim:

17Eu estou aparelhado para te honrar e tudo quan-' to quiseres te darei: vem e amaldiçoas êste povo.

18Respondeu Balaiam: Ainda quando Balac me desse a sua casa cheia de prata e de ouro, eu não pode rei trocar a palavra do Senhor meu Deus, para dizer ou maisou menos.

19Rogo-vos que fiqueis aqui ainda esta noite, e para que eu possa saber, que é o que o Senhor me res ponde de novo.

20Veio pois Deus a Balaam de noite, e lhe disse: Se êstes homens te vieram chamar, levanta-te, e vai corn eies: Mas com condição, que faças o que te mandar. » — 93

21Levantou-se Balaam de manha, e aparelhada a sua jumenta, partiu-com êles.[4]A JUMENTA.É sabido que no Oriente se serviam muito dêste animal para o transporte dos viajantes.

22E Deus se irou. E o anjo do Senhor se pôs no caminho diante de Balaam, que ia montado na jumenta, e tinha dois criados consigo.[5]DEUS SE IROUModo de dizer, freqiiente na Bíblia. Balaam ezteriormente seguia as instruções divinas, mas interiormen te, sua alma estava acorrentada ao interêsse, e abrasada em ódio coritra Israel.

23A jumenta, vendo o anjo parado no caminho com uma espada desembainhada, afastou-se do caminho, e ia pelo campo. E como Balaam a fustigasse, e a quisesse fazer voltar à estrada,

24pôs-se o anjo numa azinhaga estreita entre dois muros, com que estavam cercadas as vinhas.

25À jumenta, vendo-o, coseu-se tôda com a parede, e comprimiu o pé do que ia montado nela. Porém êle tor nou a fustigar:

26Mas o anjo passando a lugar ainda mais apertado, onde não era possível desviar-se nem para a direita, nem para a esquerda, parou adiante.

27E a jumenta, vendo o anjo parado, caiu debaixo dos pés do que ia montado: O qual irado a fustigava mais fortemente com uma vara pelas ilhargas.

28Mas o Senhor abriu a bôca da jumenta, e ela falou: Que ite fiz? Por que me feres? Esta é já a terceira vez?[6]O SENHOR ABRIU A BÔCA DA JUMENTAPorque se trata dum (ato extraordinário, sobrenatural, a critica racionalista combate-o violentamente, sem que contudo logre aduzir argumentos convincentes. Bauer entende que isto não passa dum mito. Hebrai-. sche Mythologie. Herder e Jahn sustentam que o fato narrado não

29Respondeu-lhe Balaam: Porque tu o mereceste, e porque fizeste escárnio de mim. Quem tivera uma es pada para te matar.

30Disse-lhe a jumenta: Acaso não sou eu a tua bêsta, em que tu sempre costumaste cavalgar até hoje? Dize-me se te fiz eu jamais coisa semelhante. E êle lhe respondeu: Nunca.

31No mesmo ponto abriu o Senhor os olhos de Ba laam, e êle viu o anjo parado no caminho com a espada desembainhada, e prostrado por terra o adorou.[7]ABRIU O SENHOR OS OLHOSServiu-se Deus dêste meio para mover o ânimo entenebrecido de Balaam. Um comentador faz sôbre êste fato as seguintes judiciosas considerações: Ciun magno prophetae dedecore patefacta fuit prius asinae angeli gloria. Visiones extraordinárias jaclabat Balaam, nunc quod bestiae oculis expositnm est eum fugit. Unde baec caecitas, nisi cx avaritia quae sic et nlios saepe obstupefecit homincs, quando lucrum sanctae vocntioni Dei et ipsi prcetnlerunt. nho., cedenclo-me. quando eu me opunha à tua passagem, eu te matara, e ela ficara viva.

32Ao qual disse o anjo: Por que castigas tu tercei ra vez a tua jumenta? Eu vim opor-me a ti, porque o teu caminho é perverso, e contrário a mim:

33E se a jumenta se não tivesse desviado do camipassou dum sonho, etc. Desde que se demonstra que o Pentateuco 6 autêntico, escrito com circunspecção e boa fé, não se podem ver nôle mitos, visões, sonhos, etc. Aceitam os críticos a embaixada de Balac junto de Balaam, porque rejeitam êste fato, ligado Íntima mente com o precedente. Se êste fato é uma ficção, por que não o é tôda a história de Balaam? As palavras da Escritura Sagrada são claras e formais. O texto diz: Apcruit Dominus os asinre. Esta refle xão indica qiie o autor sagrado quer significar que houve um mila gre; êste modo de dizer exclui a hipótese de um sonho, e mostra a existência dêsse fato. S. Pedro explica essa passagem tirando tódas as dúvidas. Correptionem vero habuit suac vesanlae (Balaam): subjugale mutum animal, hominis voce loquens, prohibuit prophetae inslpientiam. Deus quis confundir e humilhar-Balaam, o Senhor quis mostrar-lhe o seu Poder.

34Balaam lhe respondeu: Eu pequei, não sabendo que tu te opunhas a mim: Agora porém se não é do teu gôsto que eu vá, voltarei.

35Disse-lhe o anjo: Vai com êstes, mas vê, não fa les senão o que eu te mandar. Êle pois se foi com os príncipes.

36O que tendo ouvido Balac, saiu a recebê-lo numa cidade dos moabitas, que está situada na extremidade de Arnon.

37E disse a Balaam: Eu mandei embaixadores a chamar-te, por que não vieste tu logo ver-me? Foi acaso, por que eu te não posso pagar o trabalho da jornada?

38Respondeu-lhe Balaam : Eis-aqui me tens j á : Mas poderei eu dizer outra coisa, que não seja o que Deus me puser na bôca?

39Puseram-se pois ambos a caminho, e chegaram a uma cidade, que estava na extremidade do seu reino.

40E Balac tendo feito matar bois, e ovelhas, man dou presentes a Balaam e aos príncipes, que eram com êle.

41E chegada que foi a manhã, levou-o aos altos de Baal, e viu a última parte do povo. (S) 1SAAL — Para honrar Baal escolhiam de preferência lu gares elevados, montes onde se respirava um ar puro e onde se en contravam árvores copadas, à sombra das quais os adoradores dan çavam, cantavam, queimavam perfumes e se entregavam a todos os desmandos, ainda os mais torpes. Baal era o principal deus cananeu: primitivamente foi representado por uma pedra cónica; nos últimos tempos era a imagem do sol. Apareceram sucessivamente vários Baals, más que na realidade eram o mesmo Baal, adorado em lugares diversos e sob aspectos variados, Baalhermon, Beelphgor, Baalgad, etc. Teremos ocasião de falar do culto de Baal no 3 Rs 18, 19.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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