Capítulo 23
1Então disse Balaam a Balac: Edifica-me aqui sete altares, e prepara outros tantos novilhos e outros tantos carneiros.[1]SETE ALTARES — O número sete era considerado como sagrado. A Bíblia fala dos dias da criação e do sétimo, do repouso, do ano sabático, etc. O sacerdote devia espalhar sete vêzes o sangue do sacrifício. Ler 6, 6. Jó oferece sete vítimas; o número sete é como um sélo marcando os atos principais da aliança de Deus com o seu povo. Os padres da Igreja e os escritores da meia-idade es creveram muito sôbre o número sete, acêrca do qual se encontram esclarecimentos curiosos nos trabalhos de Ritter, Lommatzsch e Buhr. do Oriente: vem, me disse, e amaldiçoa a Jacó: apressa- -te, e detesta a Israel. (2)
2E tendo feito Balac o que Balaam lhe havia dito, puseram juntamente um novilho e um carneiro sôbre cada altar.
3E Balaam disse a Balac: Fica-te urn pouco ao pé do teu holocausto, enquanto eu vou ver se acaso o Senhor me aparece, e te direi tudo o que êle mandar.
4E partindo a tôda a pressa, apareceu-lhe Deus. E falando-lhe Balaam, disse: Eu levantei sete altares, e pus um novilho e um carneiro sôbre cada um.
5E o Senhor lhe pôs a palavra na bôca, e disse: Torna para Balac, e dir-lhe-ás estas coisas.
6Tornando, achou a Balac pôsto em pé junto do seu holocausto com todos os príncipes dos moabitas:
7e começando a falar em parábola, disse: Balac, rei dos moabitas, me trouxe de Aram, desde os montes
8Como amaldiçoarei eu a quem Deus não amaldi çoou? Como detestarei a quem o Senhor não detesta?[2]COMO AMALDIÇOAREI — A inspiração divina levava Balaam a proceder assim; Balac chamou-o para amaldiçoar Israel,, mas êle só abençoou o povo escolhido.
9Eu overei do cume dos rochedos, e o contempla rei dos outeiros. Êste povo habitará só e não será contado no número das nações.[3]HABITARÁ Só — Esta frase indica um caráter distintivo do povo hebreu, que viveu isolado das outras nações por suas leis e seus costumes, por ordom de Deus, Justino, liv. 36, c. 6; Tácito, Hist., liv. V, c. 5; Juvenal, Sátira 14, v. 101, pintam os hebreus como homens insociáveis. O contato de Israel com os outros povos era uma infidelidade à vocação, e nessa persistência consistia a sua glória.
10Quem poderá calcular o pó de Jacó, e conhecer o número dos filhos de Israel? A minha alma morra da morte dos justos, e o fim da minha vida se assemelhe aos destes homens.[4]O P ó DE JACÓ — Isto é, a descendência de Jacó, tão- numerosa como os grãos de poeira. Há evidentemente aqui uma alu são à profecia feita por Abraão e à bênção de Jacó. Estava nos desígnios do Altíssimo ligar o vaticínio de Balaam às solenes pro fecias dos séculos passados. — 98
11E disse Balac a Balaam: Que é isto que tu fazes ? Eu chamei-te para amaldiçoares os meus inimigos; e tu pelo contrário os abençoas.
12Êle lhe respondeu: Acaso posso eu dizer outra coisa, senão o que o Senhor me mandou?
13Disse-lhe pois Balac: Vem comigo a outro lugar, donde tu vejas uma parte c!e Israel, sem que o possas vertodo por inteiro, e amaldiçoa-o daí.
14E tendo-o levado a uma grande eminência no cume do monte Fasga, levantou ali Balaam sete alta res, e postos sôbre cada altar um novilho e um carneiro,
15disse a Balac: Deixa-te aqui ficar ao pé do teu holocausto, enquanto eu vou ver se o encontro.
16E como o Senhor lhe aparecesse, e lhe pusesse a palavra na sua bôca, lhe disse: Torna para Balac, e dir- -Ihe-ás estas coisas.
17Tornando o achou pôsto em pé junto do seu holo causto, e os príncipes dos moabitas com êle. Balac lhe per guntou: Que é o que te disse o Senhor?
18E êle continuando com a sua parábola, disse: Levanta-te, Balac, e escuta; ouve filho de Sefor.[5]LEVANTA-TE — Começa aqui o segundo oráculo, como indica a palavra “parábola”. Estas palavras Levanta-te e escuta, têm por fim conservar a atenção de Balac.
19Deus não é como o homem capaz de mentir, nem como o filho do homem, sujeito a mudanças. Êle pois disse, e não o fará? Falou, e não o cumprirá?[6]DEUS NAO JÊ COMO O HOMEM — Tudo o que Balaam diz aqui da imutabilidade divina, foi reproduzido em várias passa gens da Sagrada Escritura, l.° liv. dos Rs 15, 19; Maí 3, 6; Tg 1, 17. A propósito diz Meignam, ob. cit., que esta conformidade das palavras dè Balaam com as que o Espírito Santo inspirou áos de mais hagiógrafos prova a inspiração dêste oráculo.
20Eu fui trazido para abençoar, não posso impedir a bênção.
21Em Jacó não há ídolo, nem em Israel se vê si mulacro. Com êle está o Senhor seu Deus, e nêle se ouve o som da vitória do rei.
22Deus o tirou do Egito, a sua fortaleza é seme lhante à do rinoceronte.[7]RINOCERONTE — Em hebreu re’em; hoje supõe-se ser o búfalo selvagem, a que os assfrlos chamavam rlmor, nome análogo ao hebraico. Os Setenta traduziram erradamente re’em por unicomis, o que levou o autor da Vulgata a traduzir por rhinoceros.
23Não há agouros em Jacó, nem adivinhações em Israel. A seus tempos se dirá a Jacó e a Israel o que Deus obrou.[8]NÂO HA AGOUROS EM JACÓ — Era uma das dezesseis caracterlsticas dêste povo, porque nos demais povos a adivinhação e os agouros não só eram freqúentes, como constituíam uma grande honra.
24Eis-aqui o povo que se levantará como uma leoa, e se porá em pé como um leão: não se deitará, menos que não devore a prêsa, e que não beba o sangue dos que tiver morto.
25E disse Balac a Balaam: Nem o amaldiçoes, nem o bendigas.
26E êle respondeu: Não te disse eu que havia de fazer tudo aquilo que o Senhor me mandasse?
27E Balac lhe disse: Vem, e levar-te-ei a outro lu gar : a ver se é do agrado de Deus que tu dali os amaldiçoes.
28E depois de o ter levado acima do cume do monte Fogor, que olha para o deserto,[9]FOGOR — • Ao norte de Fasgor, na cordilheira do Aba- rim, perto do Hesebros. — 10 0 — e prepara outros tantos novilhos, e igual número de car neiros.
29disse-lhe Balaam: Levanta-me aqui sete altares,
30Fêz Balac o que Balaam lhe dissera: e pôs os no vilhos, e os carneiros sobre o altar.