Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 23

BALAAM EM VEZ DE AMALDIÇOAR OS ISRAELITAS, OS ABENÇOA POR DUAS VÊZES DISTINTAS.

1Então disse Balaam a Balac: Edifica-me aqui sete altares, e prepara outros tantos novilhos e outros tantos carneiros.[1]SETE ALTARESO número sete era considerado como sagrado. A Bíblia fala dos dias da criação e do sétimo, do repouso, do ano sabático, etc. O sacerdote devia espalhar sete vêzes o sangue do sacrifício. Ler 6, 6. Jó oferece sete vítimas; o número sete é como um sélo marcando os atos principais da aliança de Deus com o seu povo. Os padres da Igreja e os escritores da meia-idade es creveram muito sôbre o número sete, acêrca do qual se encontram esclarecimentos curiosos nos trabalhos de Ritter, Lommatzsch e Buhr. do Oriente: vem, me disse, e amaldiçoa a Jacó: apressa- -te, e detesta a Israel. (2)

2E tendo feito Balac o que Balaam lhe havia dito, puseram juntamente um novilho e um carneiro sôbre cada altar.

3E Balaam disse a Balac: Fica-te urn pouco ao pé do teu holocausto, enquanto eu vou ver se acaso o Senhor me aparece, e te direi tudo o que êle mandar.

4E partindo a tôda a pressa, apareceu-lhe Deus. E falando-lhe Balaam, disse: Eu levantei sete altares, e pus um novilho e um carneiro sôbre cada um.

5E o Senhor lhe pôs a palavra na bôca, e disse: Torna para Balac, e dir-lhe-ás estas coisas.

6Tornando, achou a Balac pôsto em pé junto do seu holocausto com todos os príncipes dos moabitas:

7e começando a falar em parábola, disse: Balac, rei dos moabitas, me trouxe de Aram, desde os montes

8Como amaldiçoarei eu a quem Deus não amaldi çoou? Como detestarei a quem o Senhor não detesta?[2]COMO AMALDIÇOAREIA inspiração divina levava Balaam a proceder assim; Balac chamou-o para amaldiçoar Israel,, mas êle só abençoou o povo escolhido.

9Eu overei do cume dos rochedos, e o contempla rei dos outeiros. Êste povo habitará só e não será contado no número das nações.[3]HABITARÁ SóEsta frase indica um caráter distintivo do povo hebreu, que viveu isolado das outras nações por suas leis e seus costumes, por ordom de Deus, Justino, liv. 36, c. 6; Tácito, Hist., liv. V, c. 5; Juvenal, Sátira 14, v. 101, pintam os hebreus como homens insociáveis. O contato de Israel com os outros povos era uma infidelidade à vocação, e nessa persistência consistia a sua glória.

10Quem poderá calcular o pó de Jacó, e conhecer o número dos filhos de Israel? A minha alma morra da morte dos justos, e o fim da minha vida se assemelhe aos destes homens.[4]O P ó DE JACÓIsto é, a descendência de Jacó, tão- numerosa como os grãos de poeira. Há evidentemente aqui uma alu são à profecia feita por Abraão e à bênção de Jacó. Estava nos desígnios do Altíssimo ligar o vaticínio de Balaam às solenes pro fecias dos séculos passados. — 98

11E disse Balac a Balaam: Que é isto que tu fazes ? Eu chamei-te para amaldiçoares os meus inimigos; e tu pelo contrário os abençoas.

12Êle lhe respondeu: Acaso posso eu dizer outra coisa, senão o que o Senhor me mandou?

13Disse-lhe pois Balac: Vem comigo a outro lugar, donde tu vejas uma parte c!e Israel, sem que o possas vertodo por inteiro, e amaldiçoa-o daí.

14E tendo-o levado a uma grande eminência no cume do monte Fasga, levantou ali Balaam sete alta res, e postos sôbre cada altar um novilho e um carneiro,

15disse a Balac: Deixa-te aqui ficar ao pé do teu holocausto, enquanto eu vou ver se o encontro.

16E como o Senhor lhe aparecesse, e lhe pusesse a palavra na sua bôca, lhe disse: Torna para Balac, e dir- -Ihe-ás estas coisas.

17Tornando o achou pôsto em pé junto do seu holo causto, e os príncipes dos moabitas com êle. Balac lhe per guntou: Que é o que te disse o Senhor?

18E êle continuando com a sua parábola, disse: Levanta-te, Balac, e escuta; ouve filho de Sefor.[5]LEVANTA-TEComeça aqui o segundo oráculo, como indica a palavra “parábola”. Estas palavras Levanta-te e escuta, têm por fim conservar a atenção de Balac.

19Deus não é como o homem capaz de mentir, nem como o filho do homem, sujeito a mudanças. Êle pois disse, e não o fará? Falou, e não o cumprirá?[6]DEUS NAO JÊ COMO O HOMEMTudo o que Balaam diz aqui da imutabilidade divina, foi reproduzido em várias passa gens da Sagrada Escritura, l.° liv. dos Rs 15, 19; Maí 3, 6; Tg 1, 17. A propósito diz Meignam, ob. cit., que esta conformidade das palavras dè Balaam com as que o Espírito Santo inspirou áos de mais hagiógrafos prova a inspiração dêste oráculo.

20Eu fui trazido para abençoar, não posso impedir a bênção.

21Em Jacó não há ídolo, nem em Israel se vê si mulacro. Com êle está o Senhor seu Deus, e nêle se ouve o som da vitória do rei.

22Deus o tirou do Egito, a sua fortaleza é seme lhante à do rinoceronte.[7]RINOCERONTEEm hebreu re’em; hoje supõe-se ser o búfalo selvagem, a que os assfrlos chamavam rlmor, nome análogo ao hebraico. Os Setenta traduziram erradamente re’em por unicomis, o que levou o autor da Vulgata a traduzir por rhinoceros.

23Não há agouros em Jacó, nem adivinhações em Israel. A seus tempos se dirá a Jacó e a Israel o que Deus obrou.[8]NÂO HA AGOUROS EM JACÓEra uma das dezesseis caracterlsticas dêste povo, porque nos demais povos a adivinhação e os agouros não só eram freqúentes, como constituíam uma grande honra.

24Eis-aqui o povo que se levantará como uma leoa, e se porá em pé como um leão: não se deitará, menos que não devore a prêsa, e que não beba o sangue dos que tiver morto.

25E disse Balac a Balaam: Nem o amaldiçoes, nem o bendigas.

26E êle respondeu: Não te disse eu que havia de fazer tudo aquilo que o Senhor me mandasse?

27E Balac lhe disse: Vem, e levar-te-ei a outro lu gar : a ver se é do agrado de Deus que tu dali os amaldiçoes.

28E depois de o ter levado acima do cume do monte Fogor, que olha para o deserto,[9]FOGOR• Ao norte de Fasgor, na cordilheira do Aba- rim, perto do Hesebros. — 10 0 — e prepara outros tantos novilhos, e igual número de car neiros.

29disse-lhe Balaam: Levanta-me aqui sete altares,

30Fêz Balac o que Balaam lhe dissera: e pôs os no vilhos, e os carneiros sobre o altar.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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