Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 16

REVOLTA DE CORÉ, DATAN E ABIRON. SEU CASTIGO TERRÍVEL.

1Por êste tempo Coré filho de Isaar, filho de Caat, filho de Levi, e Datan, e Abiron filhos de Eliab, como também Hon filho de Fclet da família de Rúben,[1]POR ÊSTE TEMPOIgnora-se a data e o local do acontecimento que vai ser narrado. COR o ê — Descendente de Levi, era invejoso do sacerdócio con ferido a Aarão. Também se julga ter sido causa do seu desconten tamento, Moisés não o ter investido na chefatura dos caatitas, car go que foi conferido a Elisafan, que pertencia ao ramo de Oziel,

2se levantaram contra Moisés, e outros duzentos e cinquenta dos filhos de Israel, homens principais da sinagoga, e que quando se convocava o conselho eram chamados pelos seus nomes.

3E como se tivessem feito fortes contra Moisés e Aarão, disseram: Baste-vos que todo o povo seja um povo de santos, e que o Senhor esteja com êles: Por que vos elevais vós sôbre o povo do Senhor?

4O que tendo ouvido Moisés, lançou-se com o ros to em terra:

5E falando a Coré e a tôda a multidão, disse: Ama nhã fará o Senhor conhecer, quais são os que lhe perten cem, e chegará a si os que são santos: e os que escolher, se chegarão a êle.

6Fazei pois isto: Cada um tome o seu turíbulo, ta Coré, e tôda a tua companhia,[2]O SEU TURfBULOOs revoltosos fizeram turíbulos para si, duma forma rudimentar, lembrando uma pá com brasas. E’ muito provável que êles imitassem os turíbulos dos egípcios. O egiptólogo J. de Morgan dá-nos notícia de um turíbulo egipcio achado em Dachour, que é composto de uma haste metálica, ter minada por uma mão, onde se colocava uma pequena caldeira cheia de brasas, em que se queimavam os perfumes. de si, a ti e a todos teus irmãos filhos de Levi, a fim de usurpardes para vós também o sacerdócio,

7e amanhã depois de terdes lançado fogo, ponde incenso sôbre êle diante do Senhor: e a quem êle escolher, êsse será o santo: vós vos elevais muito, ó filhos de Levi.

8E disse de novo a Coré: Ouvi, filhos de Levi:'

9Acaso é pouco para vós, que o Deus de Israel vos tenha separado de todo o Povo, e chegado a si, para o ser virdes no culto do tabernáculo e para assistirdes diante de todo o povo, fazendo as funções do vosso ministério?

10Foi acaso para isso que êle chamou para junto o último da família. Núm 3, 19-30. A revolta de Coré deveria ferir' profundamente o coração de Moisés, porque ia deslustrar a sua própria tribo, até ali tão dedicada ao Senhor e tão fiel à sua pes soa. Datan e Abiron pretendiam ter direito ao sacerdócio, na qua lidade de descendentes de Rúben.

11e para tôda a tua tropa se sublevar contra o Se nhor? Pois quem é Aarão para vós murmurardes contra êle?

12Mandou pois Moisés chamar a Datan e a Abiron filhos de Eliab. Os quais responderam: Nós não vamos.

13Porventura não estás contente com haver-nos tirado de uma terra, que manava leite e mel, para nos fazeres morrer no deserto, para também te senhorea res de nós?

14Por certo que tu nos meteste numa terra, onde corre o leite e o mel a regatos e que nos deste possessões de campos e vinhas. Quererás tu tirar-nos também os nossos olhos? Nós não vamos.

15E Moisés, irado grandemente, disse ao Senhor: Não olhes para os seus sacrifícios: Tu sabes que eu nun ca recebi dêles nem tanto como um asninho, e que nunca afligi a nenhum dêles.[3]MOISÉS IRADOMoisés exasperou-se pelos interês- aes e glória de Deus; combate e mostra o seu desagrado contra a Impiedade, murmuração e desobediência às ordens do Senhor. ■ 20 E falando o Senhor a Moisés e a Aarão, disse:

16E disse a Coré: Tu e tôda a tua tropa estai ama nhã de uma parte diante do Senhor, e Aarão estará nou tra parte.

17Tomai todos e cada um os vossos turíbulos, e ponde-lhes em cima o incenso, oferecendo ao Senhor du zentos e cinquenta turíbulos: E Aarão tenha também o seu turíbulo.

180 que tendo êles feito diante de Moisés e de Aarão,

19e tendo contra êles ajuntado tôda a multidão à entrada do tabernáculo, apareceu a todos a glória do Senhor.

20E falando o Senhor a Moisés e a Aarão, disse:

21Separai-vos do meio desta congregação, pjara que eu de improviso os destrua.

22Os quais se lançaram com o rosto em terra, e disseram: O’ Deus fortíssimo dos espíritos de tôda a carne, acaso pelo pecado de um só homem se acenderá a tua ira contra todos?

23E o Senhor disse a Moisés:

24Manda a todo o povo que se separe das tendas de Coré, e de Datan e de Abiron.

25Levantou-se .pois Moisés, e foi às tendas de Datan e Abiron: e seguindo-o os anciãos de Israel,

26disse para a turba: Apartai-vos das tendas des tes homens ímpios, e não toqueis coisa que lhes perten ça, para que não sejais envolvidos nos seus pecados.

27E como se tivessem retirado todos do contorno das suas tendas, saíram fora Datan e Abiron, e esta vam em pé à porta dos seus pavilhões com suas mulhe res e filhos, e com tôda a sua tropa.

28Então disse Moisés: Nisto conhecereis que ò Senhor é quem me enviou, para fazer tudo o que vós ve des, e que não sou eu que o inventei de minha cabeça.

29Se estes morrerem de uma morte ordinária en tre os homens, e forem feridos de uma praga, de que também os outros homens costumam ser feridos, não é o Senhor quem me enviou:

30Mas se o Senhor fizer por um novo prodígio, que a terra, abrindo a sua bôca, os engula com tudo o que lhes pertence, e que desçam vivos ao inferno, então sabereis que êles blasfemaram contra o Senhor.[4]AO INFERNONo original está schèol, que indica a morada dos Ímpios depois da morte, e em outros lugares designa em geral a habitação dos mortos, quaisquer que êles sejam, Gên 37, 35: Jó 30. 23.

31Logo pois que êle acabou de falar, se rompeu a terra debaixo dos seus pés:

32e abrindo a sua bôca, os tragou com as suas tendas e com tudo o que lhes pertencia.

33E desceram vivos ao inferno cobertos de terra, e pereceram do meio da multidão.

34Todo o Israel, porém, que estava na circunvi zinhança, fugiu ao clamor dos que pereciam, dizendo: Não suceda que a terra nos engula também a nós.

35Ao mesmo tempo saindo um fogo do Senhor, matou os duzentos e cinquenta homens, que ofereciam o incenso.

36E o Senhor falou a Moisés, dizendo:

37Manda ao Sacerdote Eleazar filho de Aarão que tire os turíbulos que estão no meio do incêndio, e que espalhe o fogo duma para outra parte; porque foram santificados

38na morte dos pecadores: e que os reduza a lâ minas, e os pregue no altar, porque neles se ofereceu incenso ao Senhor, e foram santificados, para que fi lhos de Israel os contemplem como sinal e monumento.

39Tirou pois o sacerdote Eleazar os turíbulos de metal, nos quais tinham oferecido os que foram consu midos pelo incêndio, e os converteu em lâminas, pregan do-os no altar,

40para que os filhos de Israel tivessem ao depois em que escarmentar, a fim de que nenhum estrangeiro, nem algum que não seja da linhagem de Aarão se che gue para oferecer incenso ao Senhor, e padeça a mesma pena, que padeceu Coré, e tôda a sua tropa, conforme o Senhor tinha dito a Moisés.

41Mas no dia seguinte tôda a multidão dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Aarão, di zendo: Vós matastes o povo do Senhor.

42E como se formasse sedição, e crescesse o tur multo,

43fugiram Moisés e Aarão para o tabernáculo do concerto. Ao qual, depois que eles entraram cobriu a nu vem, e apareceu a glória do Senhor.

44E o Senhor disse a Moisés:

45Retirai-vos do meio desta multidão, ainda agora os destruirei. E como se prostrassem por terra,

46disse Moisés a Aarão: Toma o turíbulo, e pondo- -lhe fogo do altar, deita-lhe em cima incenso, e vai depres sa ao povo, para rogares por êle: Porque já do Senhor saiu a ira, e já a mortandade começa a sentir-se.

47O que tendo feito Aarão, e correndo ao meio da multidão, a quem já abrasava o incêndio, ofereceu o incenso:

48E pôsto em pé entre mortos e vivos, rogou pelo povo, e cessou a mortandade.

49Os que porém pereceram, foram catorze mil e setecentos homens, fora os que tinham perecido na sedi ção de Coré.

50E Aarão voltou para Moisés para a porta do tabernáculo do concerto, depois que cessou a mortandade.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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