Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 24

TERCEIRA VEZ ABENÇOA BALAAM OS ISRAELITAS. PROFECIAS DE BALAAM.

1Balaam vendo que era do agrado do Senhor que abençoasse a Israel, não foi, como antes tinha ido, bus car os seus agouros: mas voltando o seu rosto para o de serto,

2e levantando os olhos, viu a Israel acampado nas tendas pelas suas tribos: e vindo sôbre êle o Espírito de Deus,

3tornando ao fio da sua parábola, disse: Eis-aqui o que disse Balaam, filho de Beor; eis-aqui o que disse o homem dos olhos tapados:[1]DISSEE’ o terceiro oráculo, mais solene que os ante cedentes.

4Eis-aqui o que disse o ouvinte das palavras de Deus; aquele, que viu as visões do Todo-Poderoso; aque le, que cai, e que deste modo se lhe abrem os olhos.

5Que formosos são os teus pavilhões, ó Jacó; e que belas as tuas tendas, ó Israel![2]QUE FORMOSOS SAO OS TEUS PAVILHÕESBalaam ficou estupefacto com o brilho sobrenatural com que Deus circundava as tendas de Israel.

6São como os vales cobertos de grandes arvoredos; como as hortas junto aos rios que as regam ; como as ten das, que o Senhor plantou; como os cedros junto às ri beiras.

7A água correrá do seu alcatruz, e a sua posteri dade se fará semelhante às grandes águas. O seu rei será rejeitado por causa de Agag, e o reino lhe será tirado.[3]AGAGE’ um têrmo genérico indicando todos os reis de Amalec, e em sentido lato indica todos os povos inimigos de Israel; é todavia certo que os amalecitas foram os mais temerosos Inimigos de Israel. Números •24, 16-19 zer: Eis-aqui o que disse Balaam, filho de Beor: Eis- -aqui o que disse o homem dos olhos tapados: (4)

8Deus o tirou do Egito, a sua fortaleza é semelhante à do rinoceronte. Êles devorarão os povos, seus inimigos, e lhes quebrarão os ossos, e os traspassarão com as flechas.

9Deitando-se adormeceu como o leão, e como a leoa, que ninguém se atreverá a acordar. O que te aben çoar, será também bendito: e o que te amaldiçoar, será tido por amaldiçoado.

10E Balac irado contra Balaam, batendo com as mãos, lhe disse: Eu tinha-te chamado para amaldiçoa res os meus inimigos, e tu pelo contrário os tens aben çoado já por três vezes:

11Volta para a tua terra. Eu na verdade tinha de terminado honrar-te com magnificência, mas o Senhor te privou da honra destinada.

12Respondeu Balaam a Balac: Pois não disse eu aos teus mensageiros, que me mandaste:

13Ainda quando Balac me desse a sua casa atulha da de prata e de ouro, não poderia eu transgredir as or dens doSenhor meu Deus, para proferir de minha cabe ça a mínima coisa, ou em bem, ou em m al: mas eu hei de dizer tudo o que o Senhor me tiver dito.

14Contudo na volta para o meu povo, dar-te-ei um cofiselho, sôbre o que por último há de fazer o teu povo contra êste outro.

15Prosseguindo pois a sua parábola, tornou a di

16Eis-aqui o que disse o ouvinte das palavras de Deus; o que conhece a doutrina do Altíssimo, e vê as visões do Todo Poderoso; o que caindo tem os olhos abertos.

17Eu o verei, mas não agora: eu o contemplarei, mas não de perto. Nascerá uma Estrela de Jacó, e le vantar-se-á uma vara de Israel; e ferirá os capitães de Moab, e destruirá todos os filhos de Set.[4]EU O VEREI. . .Quer dizer que não vê o Messias com os seus olhos, mas que o verá mais tarde pelos olhos dos Magos; Cornélio a Lapide. Que estas palavras se referem ao Messias, pro va-o a opinião unânime de cristãos e Judeus. No Sohar lê-se que o derradeiro cumprimento dêste vaticínio se realizaria na vinda (lo Messias. NASCERA UMA ESTRÊLA DE JACÓ — Esta estrêla e êste cetro é o Messias, como é afirmado pela unânime tradição de ju deus e cristãos. A estrêla foi sempre considerada por todos os povos como o símbolo de glória, o cetro como o sinal da realeza; e com êstes elementos torna-se fácil a aproximação desta passagem com a profecia de Jacó. E DESTRUIRÁ — Bechai interpretando êste lugar e provando que estas palavras se referem ao Messias, diz: Destruet onines filios Seth: intclligitur rex Messias de quo scriptum est: et dominabitur a marl usque ad mar©.

18E a Iduméía será sua possessão: a herança de Seir cederá aos seus inimigos: Mas Israel obrará valo rosamente.

19De Jacó sairá o dominador, e arruinará as relí quias da cidade.

20E como visse Amalec, continuando a parábola, disse: Amalec tem sido o primeiro das gentes, e por fim êle perecerá inteiramente.

21Viu também os cineus: e prosseguindo a pará bola, disse: O lugar em que tu habitas é forte: Mas quando tu tiveres estabelecido o teu ninho no rochedo,

22e tiveres sido escolhido da estirpe de Cin, por quanto tempo poderás tu durar? Porque o assírio te ca tivará.

23E outra vez prosseguindo a parábola, disse: Ai! quem se achará vivo, quando Deus fizer estas coisas?

24Êles virão da Itália nas suas galés; vencerão aos assírios, e arruinarão os hebreus; e por fim também êles mesmos perecerão.

25E levantou-se Balaam, voltou para a sua terra: Balac também voltou pelo mesmo caminho, por onde tinha vindo.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
📄 PDF
📄 Original