Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 20

MORTE DE MARIA, IRMÃ DE MOISÉS. ÁGUAS DA CONTRADIÇÃO. MOISÉS REPREENDIDO PELA SUA DESCONFIANÇA. OS IDUMEUS RECUSAM PASSAGEM A ISRAEL. MORTE DE AARÃO.

1E vieram os filhos de Israel, e tôda a multidão para o deserto de Sin, no mês primeiro: e ficou o povo em Cades. Ali faleceu Maria, e no mesmo lugar foi en terrada.[1]CADESA nordeste dêste pitoresco lugar vê-se uma pequeua colina, que Rowiands julga ser o rochedo que Moisés fe riu, de onde brotou água e de onde corre hoje um regato abun dante.

2E como o povo necessitasse de água, se ajunta ram contra Moisés e Aarão;

3e tendo excitado um motim, disseram: Oxalá que nós tivéssemos perecido entre os nossos irmãos diante do Senhor.

4Por que tirastes vós a congregação do Senhor para o deserto, para morrermos assim nós, como os nossos animais?

5Por que nos fizestes sair do Egito, e nos trouxes tes a este péssimo lugar, que não se pode semear, e onde se não dão nem figueiras nem vinhas, nem romeiras, e em cima disto não tem água que se beba?

6E Moisés e Aarão, deixada a turba, entraram no tabernáculo do concêrto, e tendo-se prostrado com o rosto em terra, clamaram ao Senhor, e disseram: Senhor Deus, ouve o clamor dêste povo, e abre-lhe o teu tesouro, uma fonte dágua viva, para que, saciando-se, cesse a sua mur muração. E apareceu sôbre êles a glória do Senhor.

7E o Senhor falou a Moisés, dizendo:

8Toma a vara, e ajunta o povo, tu e Aarão teu irmão e falai à pedra diante deles, e ela dará águas. E depois que tiveres feito sair água da pedra, beberá tôda a multidão e os seus animais.

9Tomou pois Moisés, a vara, que estava diante do Senhor, conforme lhe tinha ordenado,

10e tendo congregado a multidão diante da pedra, lhes disse: Ouvi: rebeldes e incrédulos: Acaso podere mos nós fazer sair desta pedra água para vós?[2]ACASO PODEREMOS N<5S FAZER SAIR DESTA PEDRA AGUAVê-se que há no espírito de Moisés uma certa desconfiança, que, segundo os mais abalisados intérpretes, se não refere à Oni- potência Divina, mas porque temia que as murmurações do poro ocasionassem um castigo de Deus. Veja-se o SI 105, 32s. — 82 — •

11E tendo Moisés levantado a mão ferindo duas vêzes com a vara a pederneira, saíram dela águas copiosíssimas, de sorte que bebeu o povo e os animais.[3]FERINDO DUAS VftZESNora falta de confiança da parte de Moisés, que não tinha recebido ordem senão de falar à. pedra, ▼ . 8. justo: não haverá dificuldade alguma no preço, permite somente que passemos de corrida.

12E o Senhor disse a Moisés e a Aarão: Porque vós me não crestes para me santificardes diante dos fi lhos de Israel, não introduzireis êstes povos na terra, que tenho para lhes dar.

13Esta é a água da contradição, onde os filhos de Israel murmuraram contra o Senhor, e onde o Senhor foi santificado no meio deles.

14Entretanto enviou Moisés de Cades embaixa dores ao rei de Edom, que lhe dissessem: Isto te envia a dizer teu irmão Israel: bem sabes os trabalhos em que nos vimos metidos,

15de que modo desceram nossos pais ao Egito, e habitamos aí muito tempo: Como os egípcios nos afli giram a nós, e a nossos pais:

16e como clamamos ao Senhor, e nos ouviu, e enviou um anjo, que nos tirou do Egito. Eis-aqui postos nas ci dades de Cades, que está situada nos teus' últimos limites,

17te suplicamos que nos deixes passar pelo teu país. Não iremos pelos campos, nem pelas vinhas, nem bebe remos das águas dos teus poços: mas iremos pela estrada real, sem declinarmos nem para a direita, nem para a es querda, até que passemos além das tuas terras.

18Edom lhe respondeu: Não passarás pelas mi-- nhas terras, doutra sorte armado te sairei ao encontro.

19E os filhos de Israel replicaram: Nós marcha remos pelo caminho ordinário: e se bebermos as tuas águas nós e os nossos gados, pagar-te-emos o que fôr

20Mas êle respondeu: Não hás de passar: e mar chou logo ao encontro dêles com infinita gente, e comum poderoso exército:

21Nem quis condescender com o que lhe rogavam, para lhes conceder passagem pelo seu país: pelo que se desviou Israel das suas terras.

22E tendo abalado de Cades, vieram ao monte I-Ior, que é nos confins da terra de Edom:[4]NO MONTE HORUma tradição bem fundamentada coloca o monte Hor nas cercanias de Petra. Ainda hoje se vê um monumeuto que tem o nome de túmulo de Aarão.

23Onde falou o Senhor a Moisés:

24Vá, lhe diz, ajuntar-se Aarão ao seu povo: Por que êle não entrará na terra, qúe eu dei aos filhos de Israel, porque foi incrédulo às palavras da minha bóca, nas águas da contradição.

25Toma a Aarão e a seu filho com êlee leva-os ao monte Hor.

26E depois de teres despido do seu vestido ao pai, vestirás com êle a Eleazar seu filho: Aarão será reco lhido, e morrerá aí.

27Fêz Moisés como o Senhor lhe m andara: e subi ram ao monte Hor diante de tôda a multidão.[5]DIANTE DE TÔDA A MULTIDÃOQue estava acam pada em Mosera, junto do monte..

28E depois que despojou a Aarão dos seus vestidos, vestiu com êles a Eleazar seu filho.

29E logo que aquele morreu no cume do monte, des ceu Moisés com Eleazar.

30E todo o povo vendo que Aarão morrera, cho rou por êle com tôdas as suas famílias trinta dias.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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