Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 14

O POVO AMOTINADO QUER VOLTAR AO EGITO. MOISÉS E AARÃO SÃO APEDREJADOS. CASTIGO DOS QUE MURMURARAM.

1Tôda a multidão pois gritando chorou aquela noite:

2e todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e Aarão, dizendo:

3Oxalá que nós tivéssemos falecido no Egito: e oxalá que pereçamos nesta vasta solidão, e que o Senhor nos não introduza nessa terra, por não sermos passados à espada, e nossas mulheres e filhos levados cativos. Aca so não nos é melhor voltar para o Egito?

4E disseram uns para os outros: Constituamos um por nosso capitão, e tornemos para o Egito.

5O que tendo ouvido Moisés e Aarão, se lançaram por terra à vista de tôda a multidão dos filhos de Israel.

6Josué, porém, filho de Nun, e Caleb filho de Jefone, que também tinham visto a terra, rasgaram os seus vestidos,

7e disseram a tôda a multidão dos filhos de Israel: A terra, que nós corremos em roda, é muito boa:

8Se o Senhor nos fôr propício, êle nos introduzirá nela, e nos entregará uma terra que mana leite e mel.

9Não sejais rebeldes contra o Senhor: Nem temais a gente desta terra, porque como pão assim os podemos — 60 — v Números 14, 10-16 tragar. Êles se acham destituídos de lôda a defesa: o Se nhor está conosco: Não temais.[1]j VÁO SEJAIS REBEDDESJosué é um dos ràros per sonagens do Antigo Testamento, que se mostrou sempre cótno um modêlo de piedade, de té e de confiança em Deus. Bem se pode^ dizer que a sua divisa íoi sempre O Senhor está convosco, não íe* mais, e o seu livro parece escrito para demonstrar como é bem fundada a confiança que temos no Senhor.

10E como tôda a multidão levantasse o gritò, e quisesse apedrejá-los, apareceu a glória do Senhor a to dos os filhos de Israel sóbre o tabernáculo do concêrto.

11E o Senhor disse a Moisés: até quando murmu rará de mim êste povo? Até quando não me acreditará depois de todos os prodígios que tenho feito diante dêle?

12Eu pois os ferirei com peste, e os consumirei: E a ti far-te-ei príncipe duma gente grande, e-mais forl c do que esta é.

13E Moisés respondeu ao Senhor: Sim, para que ouçam os egípcios, do meio dos quais tiraste a êste po vo,[2]PARA QUE OUÇAM OS EGÍPCIOSE' notável esta prece de Moisés; nota-se uma .viva eloqiiéncia e ao mesmo tempo a santa audácia com que Moisés discute a ameaça divina, procuran do demonstrar ao Senhor a impossibilidade da execução, invocando a honra de Deus e a Misericórdia Infinita, respectivamente nos vv. 13-17 • 18-19. 61 — tinha prometido com juramento: Por isso os matou no deserto.

14e os habitantes desta terra, que ouviram dizei , que tu, Senhor, habitas no meio deste povo, que és visto face a face; e que a tua nuvem os cobre, e que vás diante dêle de dia numa coluna de nuvem, e de noite, numa co luna de fogo:

15Que fizesse morrer uma tão grande multidão como se fôra um só homem, e digam:

16Êle não pode introduzir o povo no país, que lhe

17Engrandeça-se pois a fortaleza do Senhor como tu juraste, dizendo:

18O Senhor é paciente c de muita misericórdia, que tira a iniquidade e as maldades, e que a nenhum cul pado deixa sem castigo, tu que visitas os pecados dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração:

19Perdoa, te suplico, o pecado a este povo segun do a grandezá da tua misericórdia, assim ‘ como tu lhe fôste propício desde a sua saída do Egito até êste lugar.

20E o Senhor disse: Eu lhe perdoei conforme tu me pediste.

21Por minha vida, que tôda a terra será cheia da glória do Senhor.

22Mas entretanto todos os homens que viram o resplendor da minha majestade, e as maravilhas que fiz no Egito e no deserto; e que me tentaram já dez vezes, e que não obedeceram à minha voz,

23não verão a terra que eu prometi a seus pais com juramento; nenhum dos quedetrairam de mim, a verá.

24Mas quanto a meu servo Caleb, que cheio de ou tro espírito me seguiu, eu o introduzirei nesta terra que jodeou tôda: e a sua posteridade a possuirá.

25Porquanto os amalecitas e os cananeus habitam nos vales. Levantai amanhã o campo, e tornai a voltar para o deserto pelo caminho do mar Vermelho.

26Falou mais o Senhor a Moisés e a Aarão, di zendo:

27Até quando m urm urará. contra mim esta péssi ma multidão? Eu ouvi os queixumes dos filhos de Israel.

28Dize-lhes pois: Por minha vida, diz o Senhor: Assim como vós o dissestes, ouvindo-o eu, assim vo-lo-ei de eu fazer.

29Neste deserto ficarão estendidos os vossos ca dáveres. Todos vós, os que fostes contados desde vinte anos e daí para cima, e que murmurastes contra mim,

30não entrareis na terra, na qual eu levantando a minha mão tinha jurado que vos faria habitar, exceto Caleb filho de Jefone, e Josué filho de Nun.[3]LEVANTANDO. A MINHA MAO*A Bíblia acomoda-ae & linguagem popular, e por isso ' emprega esta expressão e outra6 semelhantes; ex. a face de Deus fix 33, 23. Os .olhos de Deus, 1 RS 16, 19, etc., nunca ensinando o antropomorfismo, mas declarando sempre que Deus ó puro espírito.

31Mas eu introduzirei os vossos pequenos, que dis sestes que serviriam de despojo para vossos inimigos: para que vejam a têrra, que vos desagradou.

32Vossos cadáveres ficarão jazendo na solidão.

33Vossos filhos andarão errantes por êste deserto quarenta anos, e pagarão a vossa infidelidade, até que os cadáveres de seus pais sejam consumidos no deserto,

34conforme o número dos quarenta dias, em que reconhecestes a terra: Contar-se-á um ano por cada dia. E por espaço de quarenta anos pagareis a pena das vos sas iniquidades, e experimentareis a minha vingança:[4]POR ESPAÇO DE QUARENTA ANOSContando-se também o ano e meio desde a saída do Egito.

35Porque assim como o disse, assim o farei a to da esta péssima multidão, que se sublevou contra mim: Nesta solidão será consumida, e morrerá.

36E assim todos os homens que Moisés tinha en viado a reconhecer a terra, e que depois de terem voltado tinham feito murmurar contra êle todo o povo, infaman do a terra de má,

37morreram e foram feridos diante do Senhor.[5]MORRERAMImediatumente. porque foram os cliefes da revolta.

38Mas Josué filho de Nun, e Caleb filho de Jefone, ficaram com vida entre os que tinham ido a reconhecer a terra.

39E Moisés falou tôdas estas palavras a todos os filhos de Israel, e o povo chorou amargamente.

40Mas ao outro dia levantando-se de madrugada subiram ao cume do monte, e disseram: Estamos prestes para ir ao lugar, de que o Senhor falou: Porque nós pecamos.[6]ESTAMOS PRESTES PARA IR AO LÚCIAKIsto para entrár em Canaã.

41Aos quais Moisés disse: Por que quereis vós transgredir a palavra do Senhor, o que não vos redun dará em bem?.[7]POR QUE QUEREIS TRANSGREDIRO Senhor proi bira os hebreus de ir avante, e obrigara-os ao regresso; ou melhor, Deus reservou-se dar-llies o sinal das marchas por meio da coluna de nuvens.

42Não queirais subir: porque não é o Senhor con vosco: Não suceda serdes destruídos diante de vossos inimigos.

43Os amalecitas e os cananeus estão à vossa vista, e vós cairéis debaixo da sua espada, porque não quises tes obedecer ao Senhor, e o Senhor não será convosco.

44Mas êles levados da sua cegueira subiram ao cume do monte. A arca porém do testamento do Senhor e Moisés não se apartaram do campo.

45E desceram os amalecitas e cananeus , que habi tavam no monte: e tendo-os batido e retalhado, foram- -nos perseguindo até Horma.

O quarto livro do Pentateuco Mosaico é chamado em grego arithmoi, e em hebreu vayedabber, segundo S. Jerônimo, ou bamidbar, por ser esta a palavra inicial do texto hebraico. O nome de Números convém-lhe por indicar o número dos guerreiros de Israel, dos primogénitos e dos levitas. (Glaire, Introduction à l'Écriture Sainte.) Liga-se êste livro estreitamente ao Levítico, do qual é a continuação, da mesma maneira que o Levítico é o seguimento do Êxodo. No presente livro narra-se a história do povo hebreu desde a saída do Sinai, e contam-se os acontecimentos mais notáveis, que então se deram; as revoltas sucessivas dos israelitas e os castigos que ocasionaram, as leis promulgadas neste intervalo, e a conquista de parte da Palestina, situada a este do Jordão. Podemos, pois, considerar três partes: PRIMEIRA PARTE Preparativos para a partida do Sinai, 1-10. 1.° Recenseamento do povo; ordem do acampamento, 1; 2. — 2.° Recenseamento dos levitas, 3; 4. — 3.° Leis particulares, 5; 6. — 4.° Ofertas dos príncipes de Israel ao Tabernáculo, 7. — 5.° Consagração dos levitas, 8. — 6.° Celebração da Páscoa no Sinai, 9, 1-14. — 7.° A coluna do fogo e da nuvem; as trombetas para a marcha, 9,15; 10,10. — 8.° Partida do Sinai, 10,11-36. SEGUNDA PARTE Quedas e revoltas do povo no deserto, 11-19. 1.° Murmuração dos israelitas castigada pelo fogo mandado por Deus, 11. — 2.° Murmuração de Maria e de Aarão contra Moisés; castigo de Maria, 12. — 3.° Missão de exploradores à terra de Canaã, sedição na volta, 13; 14. — 4.° Leis diversas, 15. — 5.° Revolta de Datan, Coré e Abiron, 16; 17. — 6.° Prescrições diversas, 18; 19. TERCEIRA PARTE Acontecimentos dados e leis promulgadas durante os dez primeiros meses do quadragésimo ano do Êxodo, 20-25: 1.° Chegada ao deserto de Sin; morte de Maria em Cades, e de Aarão, no monte Hor, 20. — 2.° Vitória alcançada sôbre o rei cananeu Arad; as serpentes; guerra contra Seon, e contra Og, 21. — 3.° Balaam e suas profecias, 22-24. — 4.° Idolatria dos israelitas e seu castigo, 25. — 5.° Novo recenseamento do povo para a divisão da Terra Prometida, 26. — 6.° Filhas de Salfaad, 27, 1-11. — 7.° Josué indicado como sucessor de Moisés, 27, 12-23. — 8.° Festas e votos, 28-30. — 9.° Vitória sôbre os madianitas, 31. — 10.° Estabelecimento de Rúben, de Gad e da tribo de Manasses, 32. — 11.° Acampamento dos israelitas; limites da Terra Prometida, 33-34. — 12.° Cidades levíticas e cidades de refúgio, 35. — 13.° Prescrições para o casamento das herdeiras, 36.
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